21º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia

 Evangelho: Lucas 13,22-30 

Frei Alberto Maggi *

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

A fé em Deus deve se traduzir em justiça e fraternidade

Para entender a passagem do evangelista Lucas no capítulo 13, a partir do versículo 22, precisamos saber que, na época de Jesus, o povo de Israel acreditava ser o único a ser salvo; os pagãos, não. Vamos ouvir o que o evangelista escreve. 

Lucas 13,22:** «Naquele tempo, Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém.»

Jesus, então, segue em direção ao que será a etapa final de sua jornada, a cidade onde encontrará a morte nas mãos das autoridades religiosas. 

Lucas 13,23: «Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu:»

Ou seja, ele quer saber quantos são salvos. Por quê? Porque se acreditava que a salvação era um privilégio reservado ao povo de Israel. À pessoa que lhe perguntou quantos são salvos, Jesus respondeu dizendo quem são os que são salvos. 

Lucas 13,24-25a: «“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, ...»

“Fazei todo o esforço possível...” (literalmente, lutai). Jesus não nos convida a fazer nenhum esforço ascético, quem sabe quais dificuldades que apresenta esta porta. Veremos que não podemos entrar por esta porta não porque seja difícil, mas porque — como Jesus diz: “muitos tentarão entrar e não conseguirão”. Porque a porta já estará fechada. Portanto, Jesus não nos convida a fazer esforços e sacrifícios dolorosos para entrar por esta porta, mas a abrir os olhos, porque existe o risco de que esta porta se feche. 

Lucas 13,25b-27: «... começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois.’ Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’.»

Então, aqui o evangelista apresenta pessoas que têm comunhão com Jesus, que o chamam de “Senhor”. Por que Jesus não os conhece? Vejamos a resposta daqueles que ficaram de fora. “Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti’” É uma alusão à Eucaristia, então eles celebraram a Eucaristia do Senhor. Prosseguem dizendo: “E ensinaste nas nossas ruas”. Então eles foram nutridos pela sua palavra. Jesus repete o que disse antes: “Não vos conheço”. E além disso, Jesus faz uma citação do Salmo 6, versículo 8: “Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça”. O salmo diz literalmente: “todos os que praticais o mal”. Por que essa dureza da parte de Jesus? Porque Jesus não se importa com o relacionamento que seus discípulos possam ter com ele ou com o Pai.

Mas Jesus está interessado nos frutos que esse relacionamento com Ele e com o Pai produz para com nossos irmãos e irmãs, por meio de atos de amor, misericórdia, compaixão, perdão e partilha generosa. É isso que permite a comunhão com Deus. Deus não nos perguntará se cremos nele, mas se amamos como Ele amou. É por isso que a resposta tão dura de Jesus é: “Eu não os conheço”. Não importa qual seja o relacionamento deles com Deus; Jesus está interessado no relacionamento deles com os outros.

Participaram da Eucaristia, mas não conseguiram fazer-se pão, fazer de suas vidas pão, alimento de vida para os outros. Ouviram seus ensinamentos, mas esses ensinamentos não transformaram suas existências. 

Lucas 13,28-29: «Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus.»

E as palavras de Jesus são muito duras: “Haverá choro e ranger de dentes”. É uma imagem que indica o fracasso da vida. Em nossa língua, dizemos: “arrancarão os cabelos da cabeça”.

Os profetas são aqueles que denunciaram o culto a Deus e o descaso pelos pobres. O povo de Israel, que acreditava ter o direito de fazer parte do Reino de Deus, contudo, para Jesus, se não transformar esse conhecimento de Deus em amor ao próximo, Israel será excluído. Mas não só isso! Eles continuarão excluídos, e seu lugar será ocupado pelas mesmas pessoas que eles consideravam excluídas, ou seja, os pagãos.

Quando Jesus apresenta o Reino de Deus, ele não o apresenta com símbolos litúrgicos religiosos, mas sempre com elementos conviviais, como uma mesa. Bem, nessa mesa, à qual eles acreditavam pertencer por direito, essas pessoas serão excluídas, e aqueles que se consideravam excluídos participarão. 

Lucas 13,30: «E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.»

E aqui está a conclusão de Jesus: “E assim há últimos”, isto é, aqueles que vocês consideram excluídos, “que serão primeiros, e primeiros”, aqueles que acreditavam ter direitos, “que serão os últimos”.

Jesus nos dá um aviso muito severo e oportuno. Pode haver presunção sobre pertencer a uma fé religiosa, sobre participar de atos de culto, pode haver a presunção de ter direitos dos quais as pessoas podem ser excluídas por não pertencerem à nossa cultura, à nossa fé, à nossa etnia, por acreditarem em outras divindades ou por se comportarem de maneira diferente. Então Jesus os exorta a serem muito cuidadosos.

Cuidado! Porque aqueles que vocês consideram excluídos, aqueles que vocês rejeitam, tomarão o seu lugar no Reino dos Céus. Naturalmente, os primeiros se revoltarão e, imediatamente depois — não está nesta passagem do Evangelho — alguns fariseus se aproximarão com ameaças de morte. 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«Deus não pertence a nenhum povo.»

(Papa Francisco: 1936-2025 ― argentino, foi o 266º papa da Igreja Católica)

Graças a Deus, com o Concílio Vaticano 2º tornou-se clara uma afirmação e pretensão, que remonta aos Padres da Igreja, que fazia-nos assemelhar, em muito, aos judeus da época de Jesus de Nazaré que se consideravam o único povo a ser salvo na face da Terra. Essa discutível afirmação era a seguinte: “Fora da Igreja não há salvação” (em latim: Extra Ecclesiam nulla salus). O Concílio Vaticano 2º explica-nos, bem, essa afirmação:

«[O santo Concílio] ensina, apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, que esta Igreja, peregrina na terra, é necessária à salvação. De fato, só Cristo é mediador e caminho de salvação. Ora, Ele torna-Se-nos presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ao afirmar-nos expressamente a necessidade da fé e do Batismo, Cristo confirma-nos, ao mesmo tempo, a necessidade da própria Igreja, na qual os homens entram pela porta do Batismo. É por isso que não se podem salvar aqueles que, não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja Católica como necessária, se recusam a entrar nela ou a nela perseverar» (Lumen Gentium 341).

Em seguida, o Concílio nos diz:

«Com efeito, também podem conseguir a salvação eterna aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, no entanto procuram Deus com um coração sincero e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade conhecida através do que a consciência lhes dita» (Lumen Gentium 342).

Esse é o grande perigo das religiões, isto é, sentir-se como o único e exclusivo canal para a salvação e a felicidade dos seres humanos. Não nos esqueçamos que toda religião é um produto da cultura do local onde surgiu e dos locais por onde se expande. Por isso, Jesus não cai na armadilha de responder “quantos se salvarão”, mas quais são as condições para que alguém se salve.

Para isso, ele utiliza três imagens, sendo duas que oferecem uma restrição e uma terceira mais generosa, oferecendo abertura. Vejamos:

1ª Imagem: a porta estreita (Lc 13,24). Quer significar que para pertencermos ao Reino de Deus devemos nos esforçar, não é algo automático, imediato, bastando ser batizado e pronto!

2ª Imagem: a porta que será fechada (Lc 13,25). Isso significa que o Reino de Deus exige de cada um de nós conversão! No primeiro Evangelho, Jesus deixa claro: “Cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Diante da proposta do Reino não podemos ficar indiferentes, como se não tivéssemos nada com isso. Se não agirmos e praticamos a justiça, se não nos esforçarmos por construir um mundo melhor e mais humano para todos, o nosso Deus e Senhor, certamente, não nos “reconhecerá”, não nos “abrirá a porta”.

3ª Imagem: a convocação para o Reino de pessoas todas as nações, línguas, raças, condição social, enfim do Ocidente e do Oriente (Lc 13,29). Portanto, Deus não exclui ninguém que realiza a sua vontade, que faz aquilo que seu Filho fez nesta Terra.

A fé em Cristo exige como resposta a adesão ao Reino de Deus e sua Justiça, sem isso ninguém pode se sentir seguro da salvação! Pelo contrário, alguns que se sentem muito seguros da salvação ficarão de fora e outros, que se parecem excluídos de antemão, estarão ao lado do Pai Celestial! 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias.» 

(Missal Romano. Oração da Coleta. 21º Dom. Tempo Comum, Ano C)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – XXI Domenica Tempo Ordinario – 25 agosto 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 01/08/2025).

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