Exaltação da Santa Cruz – Ano C – Homilia

 Evangelho: João 3,13-17 

Frei Alberto Maggi

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

Cruz: o amor de Deus salva o mundo

A liturgia deste domingo apresenta-nos um trecho da segunda parte do longo colóquio entre Jesus e o fariseu Nicodemos, líder dos judeus, isto é, membro do Sinédrio (cf. Lc 3,1-21). Estamos no terceiro capítulo do evangelho de João, versículos 13 a 17. Nesta parte de seu discurso, até o versículo 21, Jesus destrói três pontos fundamentais da espiritualidade farisaica. Na passagem do Evangelho deste domingo, temos dois desses pontos contemplados. Vejamos:

1º) A concepção da vida eterna como uma recompensa concedida no futuro pelo bom comportamento no presente; e

2º) o julgamento de Deus, um Deus que julga, recompensa e pune os seres humanos de acordo com seu comportamento. 

João 3,13: «Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem.»

A exaltação da cruz não deve nos fazer pensar que a mesma se trate de um símbolo de triunfo e orgulho. Afinal, o seu sentido profundo é justamente o contrário. O Deus de nós, cristãos, é aquele que se deu a conhecer mediante Jesus de Nazaré. E Paulo, em seu belíssimo hino cristológico de Fl 2,6-11 (justamente a segunda leitura desta liturgia dominical), expressa muito bem que, em Jesus, Deus se despojou de sua posição (status), assumiu a condição de escravo e se fez um de nós (Fl 2,7). Portanto, nós cremos que aquele que “desceu do céu” e “subiu novamente ao céu” é um Deus “esvaziado” (em grego: kênosis), um Deus humilde que assume, plenamente, a nossa humanidade e pequenez!

Portanto, a cruz é um símbolo desse despojamento total do Filho de Deus, coerente ao projeto de seu Pai até às últimas consequências. É muito importante não nos esquecermos disso! 

João 3,14-16: «Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.»

Jesus começa referindo-se a um episódio conhecido da história de Israel, quando, no êxodo no deserto, houve a praga de cobras venenosas que mataram pessoas (cf. Nm 21,4-9). Então Moisés ergueu uma vara com uma serpente de bronze, e quem olhasse para ela, era salvo. Depois, Jesus refere-se a este episódio para dizer que “é necessário que o Filho do homem seja levantado”. O que o Filho do Homem significa? O ser humano que tem a condição divina. Este não é um privilégio exclusivo de Jesus, mas uma possibilidade para todos os crentes. João, no prólogo de seu evangelho, disse: “A quantos o acolheram, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). E Jesus diz; “todos os que crerem nele”, crerem em quem? No Filho do Homem: acreditar que cada um de nós vem ao mundo porque é um projeto de amor da parte do Pai, um projeto que Deus quer realizar. Quem acredita nisso, e aqui está a novidade, “tem a vida eterna”. É a primeira vez que Jesus fala de vida eterna neste evangelho e nunca falará dela com termos no futuro, mas sempre no presente. Para Jesus, a vida eterna não é uma condição adquirida após a morte, mas uma qualidade de vida já nesta existência que permitirá ao indivíduo não experimentar a morte. 

João 3,17: «De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.»

O segundo pilar da espiritualidade farisaica, como de toda religião, é um Deus que julga, um Deus que recompensa os bons e pune os maus. Mas o Pai de Jesus não é assim; o Pai de Jesus é amor, é comunicação incessante e crescente de amor, cabe ao ser humano acolher ou não esse amor. Então não é um Deus que julga, muito menos condena as pessoas, serão as pessoas que, ao rejeitarem esta oferta de amor e de vida, permanecerão no reino da morte. Portanto, Jesus não está falando aqui de um julgamento da parte de Deus, mas de um julgamento que as pessoas fazem a si mesmas ao se excluírem dessa fonte de vida. 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«A cruz de Jesus é a palavra com que Deus respondeu ao mal do mundo.»

(Papa Francisco: 1936-2025 ― foi o 266.º Papa da Igreja Católica)

A origem da Festa da Exaltação da Santa Cruz é atribuída ao imperador Constantino, que, no ano 335, entregou aos cristãos a basílica do Gólgota e da Ressurreição. E, antes disso, em 313, segundo a lenda de Eusébio de Cesareia e de Lactância, o próprio Constantino teria visto o sinal da Cruz como “sinal de poder” e de vitória. Tudo isso é que deu à cruz em que morreu Jesus um significado de triunfo e de exaltação. Esse sentimento marcou muito a tradição e a espiritualidade cristãs. 

Contudo, a partir do Concílio Vaticano II, essa festa é vista no mesmo âmbito da festa da Transfiguração (6 de agosto). Isso é proporcionado pelo duplo sentido da palavra “exaltação” ou “elevação”, destacando a presença da glória de Deus no sofrimento e morte de Jesus na cruz. Portanto, uma glorificação mesmo na dor. 

Desse modo, aquilo que era “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23), segundo São Paulo, torna-se para os cristãos um sinal de salvação como a serpente de bronze que Moisés ergueu no deserto diante dos israelitas a fim de salvá-los da praga das serpentes (cf. Nm 21,4-9). Assim, aqueles que crerem no Cristo crucificado não morrerão, mas terão a vida eterna (cf. Jo 3,16). 

No entanto, crer que a glória de Deus se manifesta no amor de Cristo que dá sua vida por nós na cruz, segundo o Evangelho de João, traz consequências concretas. Vejamos:

a) “Jesus deu a vida por nós. Ora, também nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3,16): essa é uma exigência a todos nós, seguidores e seguidoras de Cristo!

b) “Nada façais por rivalidade ou vanglória, mas, com humildade, cada um considere os outros como superiores a si e não cuide somente do que é seu, mas também do que é dos outros” (Fl 2,3-4): assim como o Filho de Deus feito homem, Jesus, esvaziou-se a ponto de tornar-se um escravo, o mais humilde dos seres humanos, também nós devemos nos comportar do mesmo modo. 

Como afirmam, corretamente, Francisco Taborda e Johan Konings: “Contemplar a cruz não é afundar no dolorismo, mas reconhecer o amor de Deus que salva o mundo do desamor”. 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Ó Pai, que desejastes salvar os homens com a cruz do Cristo teu Filho, concede a nós que conhecemos na terra o seu mistério de amor, de desfrutar no céu os frutos da sua redenção.»

(Fonte: Oração da Coleta da festa de hoje, em italiano)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – 4ª Domenica di Quaresima – Anno B – 14 marzo 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 28/02/2023).

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