5º Domingo da Páscoa – Ano C – Homilia
Evangelho: João 13, 31-33a.34-35
Alberto Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Há, apenas, um mandamento a seguir: amar!
No capítulo 13 do Evangelho de João, o evangelista apresenta a Última Ceia de Jesus com seus discípulos, na qual, até o último momento, Jesus faz a tentativa de oferecer seu amor também ao discípulo que o trairá, a Judas. Oferece-lhe o pão, que representa a sua vida, mas Judas não come este pão, ou seja, não assimila Jesus, toma-o e sai. O evangelista diz que “afundou na noite” (Jo 13,30b).
João 13,31:** «Depois que Judas saiu do cenáculo disse Jesus: “Agora foi
glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele.»
Quando
Judas saiu (do Cenáculo), pegou o bocado de pão que lhe foi dado, não o
assimilou, mas foi trair a pessoa de Jesus, Jesus disse: “Agora...” Ao
longo do Evangelho esta hora de Jesus foi anunciada e o evangelista diz que,
agora, está acontecendo. Por que Jesus diz isso depois que Judas o traiu para
condená-lo à morte?
Porque
no amor incondicional que também é oferecido ao inimigo, a glória de Deus se
manifesta ali, ou seja, a glória é a manifestação visível do que Deus é. E o
que é Deus? Deus é amor que se oferece também ao inimigo, ao traidor.
Jesus
fala de si mesmo como o “Filho do Homem”, por que usa essa expressão que
lhe é muito cara? “Filho do Homem” significa homem com a condição divina, então
Jesus é filho de Deus, Deus na condição humana, e é filho do Homem, ou seja,
homem com a condição divina.
“E Deus foi glorificado nele.” O evangelista apresenta uma dinâmica contínua na vida de Jesus, que deve ser também a do crente, do amor recebido e do amor comunicado.
João 13,32: «Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em
si mesmo, e o glorificará logo.»
Este é um versículo que é omitido em muitos manuscritos, onde o evangelista não faz nada além de repetir o mesmo conceito. Como ele irá glorificá-lo imediatamente? Dando-lhe a capacidade de enfrentar a morte, a qual não será um fim, mas um começo, porque na morte de Jesus o Espírito se derramará sobre sua comunidade.
João 13,33a: «Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco.»
Então Jesus, pela primeira vez, a única vez, tem uma expressão de tanta e profunda ternura para com seus discípulos. Ele os chama de “Filhinhos”, literalmente “criancinhas ou minhas crianças”. Aqui, quando menciona o que disse aos judeus, Jesus está equiparando os discípulos a seus adversários, às autoridades. Por que eles não podem ir com Jesus? Porque os discípulos estão prontos para morrer por Jesus, mas não para morrer como Jesus, para dar a vida com ele e como ele. É por isso que Jesus diz que, por enquanto, eles não podem ir para onde ele vai. E, em seguida, está a conclusão deste capítulo extraordinário, capítulo 13, a novidade de Jesus.
João 13,34: «Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como
eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros.»
“Eu
vos dou um mandamento novo”. Jesus não diz: “Eu vos dou um novo mandamento”
[como, aliás, consta da tradução da CNBB], ou seja, há os de Moisés e agora eu
vos dou o meu. “Dou-vos um mandamento novo”, a palavra grega para “novo”
significa o melhor, que substitui tudo o mais. O evangelista havia dito isso no
Prólogo de seu Evangelho: “A lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a
verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).
A
nova relação que Jesus estabeleceu com o Pai e os discípulos não poderia se
enquadrar nos termos da antiga aliança e precisa de uma nova aliança que se
expressa em um único e novo mandamento. Portanto, “novo” na medida em que a
qualidade deste mandamento eclipsa todos os outros.
É
importante observar que Jesus não fala com verbos no futuro, ele não diz “como
eu vos amarei”. Jesus não está anunciando a morte, o sacrifício total que fará
na cruz, mas diz “como eu vos amei”. E como é que Jesus amou? Estamos no
contexto da Última Ceia segundo João, quando Jesus começou a lavar os pés dos
discípulos.
O amor não é real se não for transformado em serviço que purifica a vida dos outros. Este é o amor que Jesus requer de nós.
João 13,35: «Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se
tiverdes amor uns aos outros”.»
O
serviço é o único traço distintivo do crente na comunidade de Jesus e, de fato,
Jesus confirma: “Nisso”, isto é, no amor que se torna serviço, “conhecerão
todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com os outros”.
Jesus,
com esta afirmação muito clara, exclui qualquer outro distintivo. Portanto, não
aos brasões, roupas, sinais ou condecorações que queiram mostrar a relação que
se tem com o Senhor, mas apenas um amor que se põe a serviço dos outros.
E quando
esses substitutos são usados, é uma luz de alarme que se acende, uma luz de
alerta que acende, que talvez esse amor que se transforma em serviço não seja
tão comum a ponto de ser o único distintivo da comunidade cristã.
Portanto, Jesus deixa um único mandamento, ele que o evangelista apresentou como a palavra de Deus, a palavra se fez carne, e esta palavra de Deus é formulada e expressa com um único mandamento que eclipsa todos os outros.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Amar não é olhar um
para o outro, é olhar juntos na mesma direção.”
(Antoine de Saint-Exupéry, 1900-1944: escritor, ilustrador
e piloto francês)
No relato do Evangelho deste domingo, Jesus faz a mais surpreendente afirmação de toda a sua vida! Isso mesmo! Afinal, quem poderia esperar dele que falasse de “glorificação”, “ser glorificado” ao constatar que um de seus amigos mais íntimos havia decidido traí-lo e entregá-lo à morte? No cume do sofrimento e do fracasso, em meio a uma das mais dolorosas situações de sua vida, Jesus levanta sua voz e proclama: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele” (João 13,31).
O esplendor do poder divino, a glorificação,
para Jesus, não está na vitória, em ser bem sucedido, mas em seu aparente
fracasso e derrota! Isso que se parece a algo desumano, na verdade, é a
realização da mais plena humanidade: amar e ser amado! É neste momento de sua
vida, que Jesus revela o seu testamento, aquilo que ele quer deixar para todos
os que o seguirem: amem-se uns aos outros como eu vos amei! Portanto, como bem
sintetiza J. M. Castillo:
«Aquele que ama o ser
humano, seja quem for, este é o que ama a Deus.»
E o cristianismo se resume a isso!!! Mas,
atenção, não se trata de um amor qualquer! O amor que Jesus pede de cada um de
nós é: “como eu vos amei” (João 13,34). E como é que ele nos amou? Ele nos
amou, resumindo, de três modos:
a) Como amigos: “Já não vos chamo
servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Eu vos chamo amigos,
porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (João 15,15). Na Igreja e
fora dela, todos devemos nos amar como amigos. E entre amigos há igualdade, proximidade
e apoio mútuo. Ninguém que é verdadeiro amigo se sente e se coloca acima do(a)
outro(a) amigo(a).
b) Como servidor: “O Filho do
Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por
muitos” (Marcos 10,45 // Mt 20,28; Lc 22,27b). Na Igreja não deve haver disputa
por posições, cargos, fama, poder. Pelo contrário, o protagonismo está em servir,
em vir ao encontro das necessidades dos outros.
c) Acolhendo a todos: essa comunidade de amigos, reunida entorno a Jesus, não se fecha em si mesma! Ao contrário, a amizade com Jesus e entre os seus seguidores promove a abertura e acolhida de todos, especialmente, dos pecadores, dos excluídos e desprezados. E Jesus simboliza isso, mediante a figura de uma criança: “Quem recebe, em meu nome, uma só criança como esta, recebe a mim mesmo” (Marcos 9,37 // Mt 18,5; Lc 9,48).
É inevitável surgir as seguintes questões em
nossa mente:
* O modo como nós vivemos, hoje, na
Igreja e fora da comunidade eclesial, indica que somos cristãos?
* As pessoas, observando nossas
atitudes, palavras e ações nos identificam, imediatamente, como seguidores de
Jesus Cristo?
* Será que grande parte de nosso insucesso em atrair mais pessoas para Cristo, não se deve ao fato de não sermos um “outro Cristo” para o mundo onde vivemos?
«Eu te amo por ti mesmo, eu te amo por teus dons, / Eu te amo por tua causa e eu te amo tanto que, / se algum dia Agostinho fosse Deus / e Deus fosse Agostinho, / eu gostaria de voltar a ser o que sou, Agostinho, / para fazer de ti o que tu és, / porque só tu és digno de ser quem tu és. / Senhor, tu vês, minha língua enlouquece, / Não sei me expressar, / mas o coração não enlouquece. / Tu vês o que eu sinto / e o que eu não posso te dizer. / Te amo, meu Deus, /e meu coração é estreito para tanto amor, / e minhas forças se rendem a tanto amor, / e meu ser é pequeno demais para tanto amor. / Eu saio da minha pequenez / e todo em ti, eu mergulho, / eu me transformo e me perco. / Fonte do meu ser, / fonte de todo o meu bem: / meu amor e meu Deus.»
(Santo Agostinho, Confissões)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – V Domenica di Pasqua – 19 maggio 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 10/05/2022).

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