2º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia
Evangelho: João 1,29-34
Frei Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus
vem arrancar o pecado que impede o ser humano de experimentar a vida que Deus
nos comunica
No livro do Êxodo (12,1-14), na noite da libertação da escravidão egípcia para iniciar o longo percurso, o caminho para a terra da liberdade, Moisés pede a cada família que coma um cordeiro. A carne do cordeiro lhes daria forças para iniciar esta jornada de liberdade, e o sangue, aspergido nas ombreiras das tendas e portas, os salvaria do anjo da morte. O evangelista João apresenta Jesus como este cordeiro, o cordeiro pascal, cuja carne dará ao ser humano a capacidade de se libertar das trevas, de se elevar para a liberdade, e cujo sangue assimilado o libertará não tanto da morte física, mas da morte para sempre. Vamos ler como o evangelista João nos apresenta tudo isso, no primeiro capítulo, versículos 29-34.
João
1,29: «Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis
o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.»
O
evangelista inicia dizendo: “No dia seguinte” (o lecionário da CNBB
omite), portanto, prossegue a sua datação, este é o segundo dia, porque quer
chegar, no episódio das bodas de Caná, ao sétimo dia, a plenitude da criação,
com a mudança da aliança. É a primeira vez que Jesus aparece apenas com o nome,
primeiro no prólogo ele era Jesus Cristo (o Messias). “Eis”,
literalmente, “vede”, chama a atenção dos presentes. O evangelista apresenta
Jesus como o cordeiro de Deus, aquele que deve completar a libertação iniciada
no Egito.
O
cordeiro de Deus, para João Batista, é “aquele que tira o pecado do mundo”.
Em primeiro lugar, o evangelista não diz que este cordeiro expia o pecado do
mundo, e não se trata dos pecados do mundo no plural, o que poderia dar a
sensação dos pecados dos seres humanos, mas é um pecado do mundo, um pecado que
precede a vinda de Jesus, que pecado é este? Este pecado é a rejeição da vida
que Deus comunica, uma rejeição provocada, causada pelas falsas ideologias,
mesmo religiosas, que impedem que a luz do amor de Deus chegue ao ser humano.
Aqui está a tarefa deste cordeiro, e depois o evangelista também nos dirá como o fará, é arrancar, eliminar este pecado que, como um manto de escuridão, oprime o mundo.
João
1,30-31: «Dele
é que eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque
existia antes de mim’. Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com
água, foi para que ele fosse manifestado a Israel”.»
Este cordeiro,
que deve livrar o mundo deste pecado, agora é apresentado como um ser humano. O
evangelista não apresenta uma imagem de poder, poderia ter apresentado o
messias como o leão de Judá, não como o cordeiro, a imagem da mansidão, e agora
não o apresenta como uma pessoa com cargos religiosos ou outros, mas como um
homem. Na humanidade de Jesus se manifesta a plenitude da divindade.
“Vim batizar com água para que ele fosse manifestado a Israel”. Qual Israel? Entre os profetas houve um, Sofonias, que havia anunciado esta palavra do Senhor, esta promessa: “Farei que um povo humilde e pobre permaneça entre vós, um remanescente de Israel que confiará no nome do Senhor” (3,12). Houve uma parte de Israel que sempre foi fiel à aliança, e é a ela que o Senhor se dirige.
João
1,32: «E
João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e
permanecer sobre ele.»
“Eu vi
o Espírito”. O artigo definido refere-se à totalidade, à plenitude. O
que é o Espírito? Espírito é energia vital. No momento do batismo, como
resposta ao compromisso de Jesus de manifestar visivelmente o amor do Pai pela
humanidade, o Pai comunica-lhe tudo o que Ele é, toda a sua plenitude de amor,
o Espírito. A imagem da pomba tem um duplo sentido:
* a
referência ao livro do Gênesis, onde, no momento da criação, o Espírito pairava
sobre as águas, sobre o caos, por isso Jesus é apresentado como o cumprimento
desta criação,
* mas
sobretudo ao amor proverbial da pomba pelo seu ninho. Jesus é apresentado como
o ninho do Espírito, a morada permanente do Espírito. Na verdade, ele diz: “como
uma pomba do céu e permanecer sobre ele”.
Este aspecto é importante e o evangelista voltará a ele mais adiante: não basta que o Espírito desça sobre uma pessoa. Para depois ser comunicado, transmitido aos outros, este Espírito deve permanecer nesta pessoa, e, em Jesus, o Espírito permanece. Então Jesus é a morada permanente do Espírito, ou seja, a manifestação visível de Deus, a presença de Deus na terra.
João
1,33: «Também
eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele
sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o
Espírito Santo’.»
O
evangelista repete-nos então esta descida, sobretudo esta permanência do
Espírito, novamente com o artigo definido, a totalidade, a plenitude de Deus, «é
quem batiza com o Espírito Santo». O evangelista traça um paralelo entre
aquele que tira o pecado do mundo, como ele tira esse pecado do mundo, ele diz:
é ele quem batiza no Espírito Santo. Já no prólogo, o evangelista havia dito
que a luz não luta contra as trevas, a luz brilha nas trevas e as trevas
desaparecem. E assim este pecado, que pesa tanto sobre a humanidade, não deve
ser combatido, mas deve ser eliminado, deve ser extirpado.
Como? O evangelista diz “é aquele que batiza com o Espírito Santo”. A atividade de Jesus será imergir, batizar, impregnar, e batizar na água significa ser imerso em um líquido externo. Batizar com o Espírito Santo significa penetrar nas profundezas do Espírito, a força do amor de Deus. Aqui, desta vez, este Espírito é definido como Santo, não apenas por sua qualidade sublime e divina, mas por sua atividade de santificar, separar. Quem acolhe Jesus e a sua mensagem recebe de Jesus o seu Espírito, a sua própria capacidade de amar, que o afasta progressivamente da esfera do mal, daí esta penetração do Espírito de Deus no homem.
João
1,34: «Eu vi
e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”»
Aquele que antes havia sido apresentado como cordeiro de Deus, e depois como homem, agora é apresentado como filho de Deus. Visto que o Espírito de Deus desce em Jesus, em Jesus há a plenitude da condição divina, que não será um privilégio que ele considerará exclusivo, mas será uma possibilidade que comunicará a todos aqueles que o queiram seguir.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Mas vivi! E ainda
vivo! Não passo pela vida. E você também não deveria passar!”
(Augusto Branco – pseudônimo de Nazareno Vieira de
Souza [1980], é um escritor e poeta brasileiro)
Dois grandes mal-entendidos são desfeitos pelo evangelista nesta passagem que frei Maggi analisou com tanta propriedade!
O primeiro é relativo
ao fato de Jesus Cristo ser reconhecido como o cordeiro de Deus. A tendência,
infelizmente, por parte de muitos é ver Jesus como uma vítima de sacrifício
pela expiação dos pecados de todos nós, seres humanos! Não! Absolutamente, não!
Jesus não é o “bode expiatório” de Deus para poder perdoar a humanidade. Isso
depõe contra toda a teologia do Novo Testamento, que se distanciou de uma visão
religiosa judaica antiga, a qual fundamentava o perdão dos pecados, a
reconciliação com Deus, na oferta de alguma vítima, leiamos:
«E assim, segundo a Lei, quase todas as
coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não existe
perdão» (Hebreus 9,22).
Ora, um pai que necessitasse ver o sangue de seu filho para perdoar os pecados da humanidade, mais se pareceria com um justiceiro, um tirano do que com o Deus da Bíblia! Por isso, Jesus não é esse tipo de cordeiro. Ele é o Cordeiro Pascal, como aquele descrito pelo livro do Êxodo, ele vem nos libertar do pecado deste mundo: a rejeição à vida, ao amor propostos por Deus como o destino da humanidade.
O segundo mal-entendido desfeito é sobre a figura do Espírito Santo, o qual não é um mero dispensador de dons, de virtudes aos seres humanos! Ele é a própria força, a energia vital que provém de Deus! Ele é o seu AMOR puro, apaixonado e fortíssimo dirigido aos seres humanos! Por isso, todas as decisões, ações e atitudes de Jesus, o Messias, são inspiradas por esse Espírito. De Jesus, filho de Deus, somente pode emanar AMOR para com todos os seres humanos! Sem esse Espírito não há Igreja, não há seguimento de Jesus!
A partir do que foi
dito acima, identificamos que o maior obstáculo para que o cristianismo seja
aquilo que Jesus quer dele:
* sal e luz da terra,
* sinal de perdão e
dignificação do ser humano,
* sinal de relações
humanas pautadas pela igualdade, justiça e amor,
* sinal de vida plena
para todos,
é a mediocridade espiritual que se abate sobre a maioria daqueles que foram batizados e se consideram cristãos! Essa mediocridade se revela no pessimismo, fatalismo e desconfiança que se tem sobre o sucesso da obra realizada pela Igreja. Quando se pensa que “nada pode mudar”, ou, “é inútil nos esforçarmos”, é porque achamos que são os seres humanos que guiam e conduzem a Igreja, não o Espírito de Deus, que habitava em Cristo!
Se faz urgente uma verdadeira
conversão dos cristãos! Conversão esta que nos faça ter o entusiasmo que os
primeiros seguidores de Jesus tiveram. Afinal, como expressa, perfeitamente, papa
Francisco:
«[...] não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão». (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 2013, n. 266).
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Pai do céu, perdoa-me: muito
frequentemente te vejo como um adversário, como um inquisidor, que busca
surpreender-me no erro. Quando te vejo como acusador, então, eu me esqueço de
teu verdadeiro rosto: eis aquele que desce para o Jordão para assumir as minhas
culpas. Vem a mim para acompanhar-me no longo e caótico caminho da minha vida.
Eis: o Cordeiro de Deus. O cordeiro, a doce presença de um Deus que, passo a
passo, me dá a alegria de crescer. Amém.»
(Fonte: Marino Gobbin. 2ª
Domenica del Tempo Ordinario: orazione finale. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio
Divina sui vangeli festivi: per l’anno liturgico A. Leumann [TO]: Elledici,
2010, p. 345.)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – II Domenica del Tempo Ordinario – Anno A – 19 gennaio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 13/01/2023).
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