Festa do Batismo do Senhor – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 3,13-17
Alberto Maggi*
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
No batismo, Jesus assume ser um outro
Messias
A atividade de Jesus, no Evangelho de Mateus, abre-se e fecha-se com o emblema do batismo. De fato, na passagem que agora vamos ler, Jesus recebe o batismo e assim, com o batismo, Jesus torna-se manifestação visível da presença do Pai na humanidade e as últimas palavras de Jesus aos discípulos, quando já ressuscitado, serão as do envio deles para batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,18- 20). Em outras palavras, ser a manifestação visível da plenitude do amor de Deus Pai e fazer com que todos e todas experimentem esse Amor.
Mateus 3,13:** «Naquele tempo, Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a
fim de se encontrar com João e ser batizado por ele.»
No
Evangelho de Mateus, logo que Jesus entra em cena, os problemas começam
imediatamente. De fato, escreve o evangelista no capítulo 3, versículo 13: “Jesus
veio da Galileia para o rio Jordão”. Aqui o evangelista usa o mesmo verbo
usado para o aparecimento de João Batista (Mt 3,1). Com este artifício
literário, o evangelista quer ressaltar que em Jesus há a continuação e
conclusão da atividade de João Batista.
Desde o princípio,
o batismo de Jesus sempre foi um problema para a Igreja primitiva. Por quê? Se
o batismo de Jesus, como o evangelista Marcos anunciava, tinha como objetivo
obter o perdão dos pecados, por que Jesus foi se encontrar com João
Batista para ser batizado? Jesus tinha pecados? Se o batismo de Jesus, como é
anunciado no Evangelho de Mateus, tinha come objetivo a conversão, isto
é, a mudança radical do comportamento, quer dizer, passar de um comportamento
errado para uma vida orientada para o bem dos seres humanos, por que Jesus se
apresentou para ser batizado? Será que ele tinha necessidade de arrependimento
e de mudança de vida?
O batismo é
um símbolo de morte! Morte de tudo o que você é e de tudo o que você era para
acolher livremente a nova Vida. Também para Jesus o batismo é um símbolo de
morte, mas não do passado, porque nele não há um passado injusto que é preciso apagar,
mas símbolo de morte no sentido de aceitação total da morte, no futuro, a fim de
ser fiel à vontade do Pai e manifestar o próprio rosto de Amor do Pai.
Jesus mesmo falará desse batismo como símbolo de sua morte. No evangelho de Marcos (10,38) diz: “Vocês podem ser batizados com o batismo com que eu vou ser batizado?”. Portanto, o batismo é um símbolo de morte! Se para o povo é um símbolo de morte no passado, para Jesus é no futuro.
Mateus 3,14: «Mas João
protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”»
Pois bem, Mateus escreve: “Mas João protestou”, porque esse Jesus que quer ser batizado como se ele mesmo estivesse precisando de conversão não está em linha com o messias que João Batista havia anunciado, isto é, um messias carrasco, um messias juiz, que veio para julgar, premiar e punir. Um messias que viria para batizar sim no Espírito Santo, mas também com o fogo, para queimar a palha nesse fogo que não se apaga (Mt 3,11-12)! Eis o motivo do protesto de João Batista.
Mateus 3,15: «Jesus, porém,
respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a
justiça!” E João concordou. »
O termo
“justiça” no Antigo e no Novo Testamento tem o significado de lealdade e fidelidade
à Aliança. A “justiça” de Deus consiste na sua fidelidade à Aliança! Embora, os
seres humanos possam abandonar e trair essa Aliança, Deus é sempre fiel à
Aliança e ao seu povo. Portanto, o homem é “justo” ― a “justiça do homem” ―
quando ele é fiel a essa Aliança. Assim, Jesus convida para sermos fiéis à
Aliança, isto é, para fazer a vontade de Deus.
O
evangelista coloca aqui uma expressão estranha que se encontra apenas duas
vezes no Evangelho de Mateus: aqui e ao final das tentações no deserto (Mt
4,11), quando está escrito: “o Diabo o deixou”. É a mesma frase. “E
João concordou”. João Batista “o deixou”. Não é “o deixou fazer”, como
alguns tradutores tentaram para completar a frase. Não! A tradução certa é:
“Então, ele o deixou”, exatamente como o Diabo!
O evangelista quer mostrar que essa foi a primeira tentação de Jesus: ser o messias esperado pelo povo, o messias anunciado pela tradição. Ele teria sido imediatamente reconhecido, aceito e aclamado! Em vez disso, Jesus terá a missão de libertar o povo dessa ideia de Messias e apresentar dele uma figura completamente diferente: não um messias do poder, mas um messias do amor, não um messias dominador, mas um messias servidor!
Mateus 3,16: «Depois
de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito
de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele.»
A água do batismo, como vimos, é símbolo de morte. Portanto, o evangelista antecipa o que será a ressurreição de Jesus. Diz em seguida: “Então o céu se abriu” ― o céu é a morada de Deus ― “e Jesus viu o Espírito de Deus” ― o artigo determinativo indica a totalidade, a plenitude do amor, a energia, a vida de Deus ― “descendo como pomba e vindo pousar sobre ele”. Qual é o significado do símbolo da pomba? É duplo. Primeiro, é uma referência ao livro do Gênesis (1,1), na história da criação, onde lemos que “o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Portanto, o evangelista vê em Jesus a definitiva e verdadeira nova criação desejada por Deus. O outro significado se refere a um provérbio no qual se descreve o amor da pomba para seu ninho. A pomba é fiel ao seu ninho, mesmo se ele for alterado ou até refeito mais bonito, mais novo, ela é sempre fiel ao seu ninho original. Portanto, Jesus é o ninho do Espírito, é a morada do Espírito: nele reside a plenitude do amor de Deus Pai.
Mateus 3,17: «E do céu
veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.»
O céu
indica a morada divina, e aqui o evangelista une três textos do Antigo Testamento:
o Salmo 2, o livro de Gênesis, no capítulo 22, e Isaías, no capítulo 42. “Este
é o meu filho”: é a entronização do Messias! Portanto Jesus está sendo
confirmado por Deus como o Messias. “Amado”, essa é a citação do salmo, indica
o Filho único, aquele que herda tudo! É uma alusão a Isaac, filho de Abraão,
que Abraão queria sacrificar à divindade. “No qual eu pus o meu agrado”:
essa é uma citação do profeta Isaías, na qual se pode ver a atividade do
Messias querida por Deus.
Portanto, em Jesus se manifesta total e completamente a vontade de Deus Pai, que vê nele e na atividade dele o verdadeiro Messias. Nele não há conflito algum com Deus Pai, porque ele é o Filho, quer dizer, é aquele que se assemelha em tudo ao Pai. Ele é “o Amado”, o Filho único que herda tudo do Pai. Não se pode mais distinguir Jesus de Deus, mas, ao ver Jesus, vamos entender quem é Deus, um “Deus conosco”, um Messias completamente diferente daquele que a tradição esperava!
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Acaso não sabeis que todos nós, batizados no Cristo
Jesus, é na sua morte que fomos batizados?”
(Romanos 6,3)
O batismo de Jesus é um divisor de águas em sua vida. Antes dele, Jesus foi um ser humano que se dedicou à sua família, ao trabalho manual, auxiliando o seu pai terreno, José, e sua mãe, Maria. Foram anos de aprendizado junto ao povo e junto às Sagradas Escrituras judaicas, na sinagoga de Nazaré. Após conhecer e se engajar no movimento de João, o Batista, Jesus dá uma guinada em sua vida: não retorna mais a Nazaré, interrompe o convívio com a sua família e começa a pôr em prática um projeto que ele diz ser de seu Pai, não o terrestre, mas o celeste, ou seja, o Reino de Deus.
Essa decisão é tomada em nome do Espírito Santo de Deus,
aquele que o evangelista Mateus diz ter sido visto por Jesus no momento de seu
batismo. É nome desse Espírito que Jesus passará a agir, a buscar implantar na
terra o reinado de seu Pai, ou seja, fazer predominar a vontade dele neste
mundo.
Papa Francisco, em sua primeira exortação apostólica, a Evangelii
Gaudium, intitula o quinto e último capítulo como “Evangelizadores com
Espírito”. Nesse capítulo, o papa convida os fiéis a uma abertura “sem medo à
ação do Espírito Santo” e a um renovado impulso missionário, destacando que o
Espírito Santo é a “alma da Igreja” e o motor da evangelização.
Portanto, o Espírito Santo, a partir do batismo de Jesus,
o lançou na grande aventura da construção do Reino de Deus na terra! O mesmo
deve se dar conosco, segundo Papa Francisco. Somente o Espírito de Deus é capaz
de lançar, cada um de nós e a própria Igreja, nesse caminho de renovação,
conversão de vida e transformação da sociedade, segundo a vontade do Pai
Celestial.
Precisamos tomar ciência que o Espírito promove a novidade, move-nos a dar passos ousados, não nos acomodarmos à mesmice, ao “sempre foi assim”, ao “esse mundo não tem conserto”, ao “o que eu posso fazer? Não tenho poder algum” e assim por diante. O batismo nos torna discípulos missionários de Cristo Jesus e não, apenas, membros de uma instituição! Somos agentes, militantes da causa do Reino de Deus, não associados de uma organização chamada Igreja Católica.
«Deus
eterno e todo-poderoso, que, sendo Cristo batizado no Jordão e pairando sobre
Ele o Espírito Santo, O declarastes solenemente Vosso Filho, concedei aos
vossos filhos adotivos, renascidos da água e do Espírito Santo, perseverar
constantemente em Vosso Amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo. Amém.»
(Fonte: Oração Coletiva – pós batismo – Rito do
Batismo)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – Battezimo del Signore – 12 Gennaio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 09/01/2026).
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