6º Domingo da Páscoa – Ano A – Homilia
Evangelho: João 14,15-21
Frei Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Cada
indivíduo e comunidade que conhece a Jesus é o verdadeiro santuário de onde ele
manifesta o seu amor
Prosseguimos, neste domingo, o Evangelho do domingo passado. Jesus, ainda, está realizando o primeiro de seus discursos de despedida, no interior do grande bloco dos capítulos 13 a 17, o seu adeus aos seus seguidores. Sigamos ouvindo e refletindo sobre as palavras que o quarto evangelista nos traz.
João
14,15: «Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me amais,
guardareis os meus mandamentos, ...»
Pela primeira vez no Evangelho, Jesus pede amor para si mesmo; um amor por si mesmo que depois se manifesta no amor pelos outros. Jesus tornou os discípulos capazes de amar lavando-lhes os pés, e agora pede amor. Na realidade, Jesus deixou um único mandamento: “este é o meu mandamento”, um mandamento novo, no sentido de melhor, que se sobrepõe a todos os outros. Jesus enfatiza que os mandamentos são dele, não são os mandamentos de Moisés. Existe apenas um mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). A tradução prática deste único mandamento, nas muitas situações em que há necessidade de demonstrar este amor, isto para Jesus tem valor de mandamentos.
João
14,16: «... e
eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre
convosco:»
Aqui há um termo grego, intraduzível em nossa
língua. Algumas traduções da Bíblia traduzem esse termo como “consolador”, mas
não expressa o significado profundo da palavra, então, agora, prefere-se
colocar a transliteração deste termo: “Paráclito”. O que é o “Paráclito”?
Em grego, o Paráclito é aquele que é chamado em socorro, em defesa, portanto
pode ser traduzido como: defensor, protetor, socorrista. Eis que, talvez,
socorrista seja o mais adequado, mas nenhuma dessas palavras esgota o termo
grego. E é pela primeira vez que aparece este termo, exclusivo do Evangelho de
João. Paráclito não é o nome do Espírito, mas sua função, que é aquela de
socorrer.
E aqui Jesus dá uma indicação importante e preciosa: “para que permaneça sempre convosco”. O Espírito do Senhor, esse Espírito que socorre a comunidade e o indivíduo, não vem em socorro nos momentos de necessidade, quando invocado, mas a sua presença é para sempre na comunidade. O amor de Deus não atende às necessidades do indivíduo e da comunidade, mas as precede. Então isso dá muita serenidade à comunidade, que se encontrará diante de uma tempestade, como a que Jesus sofrerá: oposição e perseguição: “Tenham serenidade, tenham fé porque o Espírito está sempre com vocês”.
João
14,17: «... o
Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o
conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de
vós.»
E Jesus o chama de “o Espírito da
Verdade”; esse Espírito torna conhecida a verdade sobre Deus e quem é Deus?
Deus é amor, que se põe generosamente ao serviço dos outros, é amor que está
sempre a favor dos homens, este é o Espírito da verdade, diz “que o mundo
não é capaz de receber”. O mundo, aqui em João, não significa o que foi
criado, mas o sistema injusto, em particular a instituição religiosa. Por que o
mundo não pode receber o Espírito da Verdade? Porque o Espírito da verdade é o
amor do Pai, que está sempre a favor dos homens. O mundo, mesmo a instituição
religiosa, pensa apenas em sua própria conveniência. O bem e o mal estão sujeitos
aos seus próprios interesses, e por isso não pode recebê-lo, “porque não o
vê, nem o conhece”. Esta falta de conhecimento será a acusação que, ao
longo do Evangelho de João, Jesus dirigirá precisamente aos líderes religiosos:
“no meio de vós está quem que vós não conheceis” (Jo 1,26).
Mas Jesus garante aos seus seguidores: “Vós o conheceis, porque ele permanece”. Aqui, Jesus insiste novamente: assim como o Espírito desceu sobre ele e nele permaneceu, o mesmo se dará com a sua comunidade, o Espírito permanece nela, como ele diz, “junto de vós e está em vós”.
João
14,18: «Não vos deixarei órfãos. Eu
virei a vós.»
Em seguida, Jesus oferece uma garantia à comunidade: “Não vos deixarei órfãos”. O órfão, naquela cultura, é a pessoa sem proteção, sem quem cuide dela. Jesus garante: não, isso não vai acontecer, porque “venho a vós”. A morte de Jesus não será uma ausência, mas uma presença, não um distanciamento, mas uma proximidade ainda mais forte.
João
14,19: «Pouco
tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e
vós vivereis.»
Então esse sistema injusto (o mundo), com a morte de Jesus, não o verá mais — “vós, porém, me vereis”; claro que aqui Jesus não está falando da visão física, mas da percepção interior profunda, que pertence à fé. “Porque eu vivo, e vós vivereis”, os termos gregos usados por este evangelista têm o significado de vida para sempre. O que isso significa? Existe uma vida biológica que, para crescer, deve ser alimentada, mas existe outra vida, que é a interior, aquela que permanece para sempre, que, para crescer, deve alimentar. Assim, quem orienta a própria vida doando-a como alimento aos demais, a põe em sintonia com aquele que é o vivente por excelência: Jesus Cristo.
João
14,20: «Naquele
dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós.»
“Naquele dia” — é o dia da morte de Jesus e do dom do Espírito. Jesus anuncia o que desenvolverá nos próximos capítulos, essa fusão plena de Deus e Jesus, do indivíduo e da comunidade. O que o evangelista quer dizer? Algo de extraordinariamente belo: na comunidade dos crentes, Deus assume o seu rosto humano e os homens o seu rosto divino. Há, portanto, uma fusão entre Deus e os homens, é um Deus que pede para ser acolhido na vida dos indivíduos, para que se fundam com ele, expandir a sua capacidade de amar e fazer de cada indivíduo e de cada comunidade o único verdadeiro santuário do qual irradia, manifesta, seu amor, sua misericórdia e sua compaixão.
João
14,21a: «Quem
acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama.»
Aqui, o evangelista, na verdade, escreve: “quem tem os meus mandamentos”: os mandamentos de Jesus não são imposições ou normas exteriores ao ser humano, mas uma energia vital interior que, ao se manifestarem (os mandamentos), liberam todas as suas forças. Assim, “quem tem os meus mandamentos” — e novamente Jesus enfatiza que eles são dele, não os mandamentos de Moisés — “e os observa, esse é quem me ama”. É um amor — a observância de um mandamento — que não diminui o ser humano, mas o capacita.
João
14,21b: «Ora,
quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.»
Nesta dinâmica de amor recebido e amor comunicado, consente-se ao Pai de transmitir um amor cada vez maior e Jesus manifesta-se ao crente, à comunidade, de modo que o crente, a comunidade, se torna o profeta capaz de manifestar com sua vida, com o seu pensamento, a própria presença do Senhor.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Você é o que você
faz, não o que você diz que vai fazer.»
(Carl Gustav Jung: 1875-1961 — psiquiatra e
psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica)
Um dos maiores desafios para alguém que deseja ser discípulo(a), ou seja, seguidor(a) de Cristo é deixar de pensar e planejar tudo, em sua vida, a partir da perspectiva individual e passar a interessar-se e vislumbrar o conjunto da comunidade daqueles que têm a mesma fé e confiança em Jesus. Vivemos em uma sociedade em que o eu, o indivíduo e suas vontades, ideias e anseios parecem ser o principal critério a ser levado em conta para tudo, inclusive, na Igreja.
A verdade é que o
cristianismo transformou-se, de uns tempos para cá, em uma religião do tipo
“delivery” (= de encomenda)! Muitas igrejas, pastores, presbíteros, religiosos
buscam atender à expectativa e necessidades imediatas de sua “clientela”, pois
isso é garantia de adesão, “casa cheia”, recursos financeiros etc.! Muitos
falsos pastores e profetas estão oferecendo ao povo aquilo que ele quer, aquilo
que ele gosta! Não há uma verdadeira, real e eficaz preocupação em evangelizar,
de verdade, o nosso povo! Como constatou o quarto evangelista a respeito dos
líderes religiosos de seu tempo, mas que se aplica, perfeitamente, aos líderes
dos dias atuais: “Preferiram a glória dos homens à glória de Deus” (Jo 12,43). O Evangelho não está no centro e na razão de ser do atual cristianismo!
Afinal, dar ouvidos ao Evangelho, buscar praticá-lo, levá-lo a sério, enfim, organizar as nossas igrejas à luz dele é algo muito incômodo, muito impopular e que não traz o retorno imediato e o sucesso que muitos buscam! Não por acaso, o início e final do Evangelho deste domingo insiste na importância de “guardar/observar os meus mandamentos” (Jo 14,15), e “acolher e observar os meus mandamentos” (Jo 14,21)!
Isso fica claríssimo
no Evangelho deste domingo! Afinal, para que Jesus se preocuparia em pedir ao
Pai um Paráclito, um socorrista, um defensor, um tipo de advogado para os seus
seguidores se o destino para o qual ele os estava enviando não fosse
problemático, conflituoso e perigoso? Somente necessita de socorrista quem está
em perigo, correndo risco de morte, risco de que algo grave lhe aconteça! E o
maior perigo ao Evangelho provém de duas frontes:
a) do próprio sistema
religioso, como foi no caso de Jesus, cuja maior oposição veio da elite
religiosa que dominava a sociedade israelense naquela época e se incomodou com a
revelação de um Deus que contrariava a pregação deles, minando o domínio que exerciam
sobre as pessoas, bem como, com a liberdade manifestada por Jesus diante das
leis, tradições e costumes religiosos. O próprio Jesus constata: “procurais
matar-me, porque minha palavra não encontra espaço em vós” (Jo 8,37 — cf.
as várias tentativas de prender e matar Jesus: Jo 2,12-22; 5,16-18;
7,1.7.13.19.25.30.32.44; 8,20.37.40.59; 10,31.39; 11,47-53.57; 18,3.12.31; 19,6-7).
b) Do sistema político e econômico dominante. Afinal, Pilatos somente cede aos rogos das autoridades judaicas, especialmente dos sumos sacerdotes, para que condenasse Jesus à morte, quando estes lhe deixam claro duas coisas: “Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César” (Jo 19,12b); “Não temos rei, senão César” (Jo 19,15c). Fica evidente que o poder religioso se entrega nas mãos do poder político para poder perpetuar-se e obter suas vantagens, no caso, extirpar a ameaça representada pelo Messias-Jesus! Ao poder imperial (político-econômico) não interessava um clima de agitação e conflito social, por isso, nada como manter a aliança com quem “segura” o povo, com quem o “domestica” para que não se revolte contra quem o domina!
Concluindo, o
Espírito da Verdade, prometido por Jesus neste Evangelho, é para que os seus
seguidores não se sintam órfãos nem esqueçam de viver a VERDADE que é Jesus com
suas ações e palavras! Traduzindo isso de modo mais compreensível, podemos
afirmar, juntamente com o biblista espanhol José Antonio Pagola:
«Este “Espírito da Verdade” nos convida a viver na verdade de Jesus em meio a uma sociedade onde, com frequência, à mentira se dá o nome de estratégia; à exploração, de negócio; à irresponsabilidade, de tolerância; à injustiça, de ordem estabelecida; à arbitrariedade, de liberdade; à falta de respeito, de sinceridade...».
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Vinde, Espírito Santo! Enchei os
corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso
Espírito, e tudo será criado. E renovareis a face da Terra. Deus, que
instruístes os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que
apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre
da Sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém»
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –VI Domenica di Pasqua – Anno A – 17 maggio 2020 – Internet: clique https://www.studibiblici.it/videoomelie26.html (Acesso em: 09/05/2023).
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