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''Podemos mudar o mundo imitando as borboletas''

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Zygmunt Bauman* La Repubblica (Roma - Itália) 14.11.2011 Em que mundo eu gostaria de viver? Na verdade, não posso dizer muito. Isso porque, em primeiro lugar, em 60 anos de empenho na sociologia, nunca fui bom em profetizar. Em segundo lugar, no fim de uma vida imperdoavelmente longa, a única definição de boa sociedade que eu encontrei diz que uma boa sociedade é tal se acredita não ser suficientemente boa . Portanto, prefiro me concentrar não tanto no mundo em que queremos viver, mas sim no mundo em que devemos viver , simplesmente porque não temos outros mundos para os quais escapar . Refiro-me a uma citação de Karl Marx , que afirmava que a s pessoas fazem a sua própria história, mas não nas condições escolhidas por elas . Todas as vezes que eu a ouço, lembro-me também de uma historinha irlandesa que nos fala de um motorista, que para o seu carro e pergunta a um transeunte: "Desculpe-me, senhor, poderia me dizer por gentileza como posso chegar a Dublin a partir daqui?". O...

Algo de podre no império vermelho

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Reinaldo Azevedo O historiador ARCHIE BROWN propõe uma tese provocadora: não foi a crise do comunismo que matou a URSS. Foi a tentativa de reformá-lo Não foi o então presidente americano, Ronald Reagan, que matou o comunismo. Também não foi o papa João Paulo II. Tampouco foram as fragilidades do modelo.  O sistema cometeu suicídio quando resolveu experimentar um pouco de liberdade . É, ao menos, o que sustenta o cientista político e historiador escocês Archie Brown [foto ao lado] em Ascensão e Queda do Comunismo (tradução de Bruno Casotti; Record ; 854 páginas; 89,90 reais).  O ambiente era bem deprimente na União Soviética, como revela uma piada que circulava por lá em fevereiro de 1984, quando a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, compareceu para o funeral de Yuri Andropov , que comandara a “pátria do socialismo” por modestos quinze meses. O escolhido para sucedê-lo foi Konstantin Chernenko , de 72 anos. A piada reproduzia um telefonema fictício de That...

POLÍTICA DA SOLIDÃO

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Marcia Tiburi * Clinicalização do "estar só" escamoteia o verdadeiro mal da sociedade atual Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade . Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos. Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal. O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana . Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde , que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça. Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do info...

Bumerangue de gerações [Isto vale para nós, também]

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Roger Cohen THE NEW YORK TIMES Boston Silvio Berlusconi recentemente descartou a crise financeira da Itália como muito barulho por nada. "Os restaurantes estão cheios" , ele disse, "é difícil reservar lugar em um avião" e os resorts de férias estão "completamente lotados" . O primeiro-ministro italiano, que acabou por renunciar na semana passada por causa da crise da dívida, conquistou uma reputação merecida como um dos líderes menos sérios do mundo. Mas eu estive na Itália nas últimas semanas e posso confirmar que a tese dele tem algo de sério. Talvez ninguém queira os títulos italianos, mas certamente querem suas praias e bela figura . É impossível não reconhecer um país rico quando você vê um. A mais antiga e segura apólice de seguro da Itália é, sem dúvida, a família . Os empregos podem estar raros e os tempos, difíceis, mas a Mamma estará sempre lá . Os filhos italianos saem de casa em média aos 28 anos .  A Suprema Corte decidiu alguns anos a...

Em busca da autoridade perdida

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Entrevista com Alain Touraine * Franco Marcoaldi La Repubblica (Roma - Itália) 07.11.2011 "Deixe-me dizer: falar de desaparecimento da autoridade, sic et simpliciter , é muito vago e confuso. Em vez disso, é muito mais claro e preciso dizer que desapareceu aquela autoridade, exercida nas escolas ou nos tribunais, nas empresas ou na vida política, com base em uma lei absoluta . De natureza religiosa. Essa lei, que se conforma à palavra de Deus ou à lei natural entendida como prolongamento da religião, não funciona mais . Portanto, são as bases transcendentes para autoridade que não têm mais aderência. E isso pela simples razão de que vivemos em um mundo que já não é mais governado por princípios absolutos , mas móveis, em transformação: como ocorre na ciência, na tecnologia, na comunicação". Eis a entrevista. Mas toda a autoridade, enquanto tal, precisa de um fundamento. Alain Touraine - Vivendo em um mundo regido pelos princípios da secularização , da racionaliza...

Entramos em uma nova era?

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PAUL KENNEDY * A queda no valor do dólar, a desintegração dos sonhos europeus, a corrida armamentista na Ásia e a paralisia da ONU são indicadores de mudanças Pela definição do dicionário, divisor de águas é uma linha imaginária que separa rios diferentes . A expressão também pode ser usada para descrever um fenômeno histórico e político . Um marco, um momento transcendental, o instante em que as atividades e circunstâncias humanas atravessam a linha divisória que separa diferentes eras. Quando isso ocorre, poucas pessoas percebem que entraram em um novo tempo . A não ser, é claro, que o mundo esteja saindo de uma guerra catastrófica, como as napoleônicas ou a 2ª. Guerra. Transformações históricas tão bruscas não são o objeto desse artigo. O que nos interessa é o lento acúmulo de forças modificadoras , na maior parte invisíveis, quase sempre imprevisíveis, que cedo ou tarde acabam transformando uma época em uma outra bem distinta. Ninguém que viveu em 1480 conseguia reconh...

A nova moral do funk [Reflita!]

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Marcia Tiburi * Gênero modificou a natureza clandestina da pornografia A afirmação adorniana de que após Auschwitz toda cultura é lixo não perde sua atualidade. Se, de um lado, a frase implica que a cultura não vale mais nada, de outro quer dizer que “lixo” é a melhor categoria explicativa da cultura como “aquilo que se rejeita” . Mas vem significar também que cultura é a experiência do que sobra para os indivíduos levando em conta as condições socioeconômicas e políticas marcadas pela divisão de classes, de trabalho, de sexos, da própria educação dirigida de maneira diferente a pobres e ricos. A partir da elevação do lixo à categoria de análise, podemos com tranquilidade ecológica (aquela que faz a separação dos descartáveis por categorias) partir para uma brevíssima investigação daquilo que se há de nomear como “moralina funk” , a performance corporal-sonora que se apresenta como o ópio do povo de nosso tempo . Muito já se escreveu sobre o fenômeno que merece atenção filo...