Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos – Homilia
Evangelho: João 6,37-40
Frei Alberto Maggi*
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus não quer perder nenhum de nós
Para a comemoração dos fiéis defuntos, a liturgia escolheu, entre vários textos evangélicos alternativos, um trecho do Evangelho de João, o longo discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum sobre o pão da vida, capítulo 6, versículos 37-40.
Neste longo discurso aos seus discípulos, Jesus afirma que se torna pão, alimento da vida, para que aqueles que o recebem sejam, por sua vez, capazes de se tornar pão e alimento da vida para os outros. Nesta recepção do pão, que é Jesus, e neste tornar-se pão para os outros, há esta comunicação da vida de Deus, de uma vida divina, capaz de vencer a morte.
João
6,37**: «Naquele
tempo, disse Jesus: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim. E o que vem a mim,
eu não o lançarei fora.»
O
desejo de plenitude de vida que o Pai, como Criador, colocou em cada ser humano
encontra sua resposta plena em Jesus. Jesus é a resposta completa de Deus à
necessidade de plenitude de vida que cada pessoa carrega dentro de si.
E
Jesus afirma: “Todo aquele que vem a mim, eu não o expulsarei para fora”.
O verbo “expulsar” (grego: ekballō) aparece seis vezes neste Evangelho:
uma vez quando Jesus expulsa as ovelhas do templo (Jo 2,15) e depois do recinto
da instituição religiosa (Jo 10,4), significando a liberdade que Jesus veio
trazer aos seus seguidores; outras duas vezes para a instituição que expulsa da
sinagoga aqueles que creem em Jesus (Jo 9,34.35); e, finalmente, a última vez —
uma positiva — o anúncio de que o príncipe deste mundo será expulso (Jo 12,31).
É a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. Jesus não expulsa ninguém; ele é só acolhida!
João
6,38a: «Porque eu desci do céu...»
Esta descida do céu não
deve ser entendida num sentido espacial, mas sim teológico. Significa que a
origem de Jesus não é meramente humana, mas divina. Com a descida do Espírito
Santo, Jesus, o Cristo, é a presença definitiva de Deus entre os homens.
O evangelista, ao término do seu Prólogo, escreveu que ninguém jamais viu a Deus; somente o Filho unigênito é a sua revelação (Jo 1,18). Jesus é a manifestação plena, a presença plena de Deus entre os homens.
João
6,38b: «... não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.»
A vontade do Pai e a vontade de Jesus são idênticas: ambas desejam comunicar vida, e vida abundante, à humanidade.
João
6,39: «E esta é a vontade
daquele que me enviou: que eu não perca nenhum de todos aqueles que ele me deu,
mas que eu o ressuscite no último dia.»
E então Jesus declara: “Esta
é a vontade”, com o artigo definido; não há muitas vontades. Às vezes, a
vontade de Deus é equiparada aos eventos trágicos, tristes e dolorosos da vida.
No Evangelho, a vontade é única e positiva. É esta expressa neste versículo: “que
eu não perca nenhum de todos aqueles que ele me deu, mas que eu o ressuscite no
último dia”.
A expressão “último dia” aparece pela primeira vez no Evangelho de João. Ela aparecerá então sete vezes, quatro delas neste longo discurso, sempre associada ao verbo “ressuscitar”. O último dia no Evangelho de João, que marca o ritmo de seu evangelho de acordo com a semana, é o dia da morte de Jesus. Quando Jesus, anunciando que tudo está consumado, que o plano de Deus para a humanidade foi realizado, entrega seu espírito, ele o doa. Portanto, o último dia é o dia da morte, mas também é uma explosão de vida. Jesus, ao morrer, entrega a vida a Deus, entrega seu espírito.
João
6,40: «Porque esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e crê
nele tenha a vida eterna. E eu o ressuscitarei no último dia.”»
Jesus torna a dizer,
reafirmando qual seja a vontade do Pai. E Jesus se autodenominou Filho do
Homem, foi chamado Filho de Deus; aqui se fala apenas de “filho”. Ver o filho
significa reconhecer a capacidade do ser humano de ser filho de Deus,
realizando em si o projeto do Criador.
“Todo aquele que vê o
Filho e crê”, isto é, faz sua adesão a ele, “possa ter nele a vida
eterna”, sem o artigo como está traduzido. Por que essa definição do
evangelista? Por que a omissão do artigo? Porque a vida eterna poderia ter sido
pensada como a da crença judaica, ou seja, uma vida que começa após a morte,
como recompensa pela boa conduta na vida presente. Não, Jesus diz: “Que ele
tenha vida eterna”, uma vida que já é eterna, não tanto por sua duração
indefinida, mas por sua qualidade, que é divina e, portanto, indestrutível.
O dom do Espírito, Jesus nos assegura, traz consigo o dom da ressurreição já nesta vida. Jesus dirá mais tarde que todo aquele que nele crê jamais experimentará a morte.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos do comentário de Frei Alberto Maggi.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Temam menos a morte e mais a
vida insuficiente.”
(Bertolt Brecht – 1898-1956: dramaturgo, poeta e
encenador alemão)
Diante da inevitabilidade da morte, somente podemos ter as seguintes atitudes:
a)
ateus e agnósticos: a morte encerra definitivamente a existência humana, pois
não há um “pós vida”, não há “vida eterna”, não há esperança para o ser humano,
tudo se acaba aqui, no morrer. O ser humano está sozinho no universo, não há
nada ou ninguém por ele.
b)
Aqueles que creem em Cristo: a morte não é o nosso fim, mas a passagem para uma
vida eterna junto a Deus, junto ao Amor por excelência. A vida se transforma
com a morte, mas não desaparece, ao contrário, o ser humano restará com o seu
“eu”, com a sua identidade.
Desde
o Antigo Testamento, o ser humano já havia percebido que não há sentido em o
ser humano, ao morrer, desaparecer por completo! Diante daqueles que tinham
coragem de entregar sua vida em testemunho pela sua fé, por amor a Deus, em
meio às perseguições, torturas e execuções, o livro de Daniel (12,2) é o
primeiro a sinalizar que “muitos daqueles que dormem no solo poeirento
acordarão: uns para a vida eterna, outros para a opróbio eterno”. A vida eterna
é certa, segundo a crença expressa em Daniel, porém, há dois caminhos: a
felicidade ou a desonra, a degradação.
Algo
que devemos ter claro é que Deus não julga-nos, não condena-nos, mas ele quer
que todos se salvem. Essa é a sua vontade expressa de maneira clara e
inequívoca no Evangelho de hoje, bem como, em uma passagem anterior: “De tal
modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele
crer não pereça, mas tenha a vida eterna, pois Deus enviou o seu Filho ao
mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo
3,16-17). O próprio Jesus, segundo o Evangelho de João, suplicou ao Pai: “Pai,
eu quero que os que me deste estejam comigo, onde eu estou, para que contemplem
a minha glória, a glória que me deste, porque me amaste antes da criação do
mundo” (16,24).
No
fundo, cada pessoa, segundo as escolhas que realiza em sua vida terrena já está
se colocando do lado da vida eterna feliz e realizada ou do lado da tristeza e
da infelicidade eternas, como o próprio Cristo constatou: “Quem me rejeita e
não acolhe as minhas palavras, tem quem o julgue: a palavra que eu falei o
julgará no último dia... Eu sei que o seu mandamento [do Pai] é vida eterna”
(Jo 12,48.50a).
Portanto,
há uma estreitíssima ligação entre a vida presente e a vida eterna! Esta última
será consequência do tipo de vida que escolhemos ou conseguimos levar nesta
terra. É claro que todos nós podemos contar com a misericórdia de nosso Pai
Celestial que nos conhece melhor que nós mesmos. Ele não nos toma pela
aparência nem por aquilo que outros dizem de nós, mas pela justiça (cf. Is 11,3
> referindo-se ao rei-messias; Jo 7,24 > recomendação de Jesus).
Por isso, hoje é dia de glorificarmos a Deus que, mediante seu Filho Jesus, não permite que a morte seja a palavra final sobre a vida humana, mas uma “irmã”, como dizia São Francisco de Assis, que nos conduz à eternidade!
«Espírito, vem dos quatro
ventos e sopra sobre estes mortos para que revivam (Ez 37,9); vem Espírito
Santo, sopra em nossa mente, em nosso coração, em nossa alma, a fim de que nos
tornemos em Cristo uma criação nova, primícia da vida eterna. Amém.»
(Fonte: CAMILLERI, Charlò, O.Carm. Orazione iniziale. In: Anthony Cilia, O.Carm. [Org.] Lectio Divina sui vangeli festivi per
l’anno litúrgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 690)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – Commemorazione dei Defunti – 2 novembre 2014 – Internet: clique aqui (Acesso em: 16/10/2025).

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