Solenidade de N. Sra. da Conceição Aparecida – Homilia
Evangelho: João 2,1-11
Alberto Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Maria traz o “vinho novo” ao mundo
Os evangelhos não foram escritos para serem lidos pelo povo. Por quê? Porque a grande maioria das pessoas era analfabeta. Os Evangelhos são obras literárias, teológicas, espirituais, muito, muito complexas, densas, ricas de significados e foram enviadas a uma comunidade onde o leitor, ou seja, o teólogo daquela comunidade, não se limitava a lê-lo para os outros, mas interpretava-o.
E para interpretá-lo ele seguia aquelas chaves de leitura, aquelas indicações que o evangelista, o autor colocava no texto. É isso que tentamos fazer, fazer florescer a passagem de hoje, capítulo 2 do Evangelho de João, os onze primeiros versículos, conhecido como as bodas de Caná. Faremos este texto florescer e veremos o que o evangelista quer nos dizer.
João 2,1a:** «Naquele tempo, houve um casamento em Caná da Galileia.»
Vejamos
imediatamente a primeira indicação que o evangelista nos apresenta. No
Lecionário da CNBB não comparece, porém, a expressão inicial: “terceiro dia”.
Essa indicação de tempo, para um judeu da época, lembrava imediatamente o dia
da aliança, o dia em que Deus deu a Moisés, no Sinai, a aliança com seu povo.
Então, o evangelista quer dizer: atentos, toda essa passagem está na chave da
aliança com Deus.
São as bodas! Essa aliança de Deus, nos profetas, foi representada por meio de um casamento; Deus era o noivo e o povo, Israel, a noiva.
João 2,1b: «A mãe
de Jesus estava presente.»
Também nesta passagem todos os personagens são anônimos. Quando um personagem é anônimo, como já o vimos em outras partes do evangelho, significa que ele é um personagem representativo. A única pessoa que tem um nome nesta passagem é Jesus.
João 2,2-3a: «Também
Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. Como o vinho
veio a faltar...»
Na cerimônia de casamento, o momento culminante é quando o noivo e a noiva bebem de uma única taça de vinho, o vinho representa o amor. Bem, aqui está um matrimônio onde falta o elemento mais importante, o vinho.
João 2,3b: «... a
mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”.»
A mãe de Jesus que também pertencia ao casamento, não diz, como seria de esperar: “Não temos vinho”, mas diz “Eles não têm vinho”, a mãe de Jesus representa aquele Israel fiel que sempre guardou este amor com Deus. E a resposta de Jesus pode parecer estranha, até rude, se pensarmos que é dirigida por um filho à sua mãe.
João 2,4: «Jesus
respondeu-lhe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não
chegou”.»
Mas aqui
também vejamos o que o evangelista quer expressar. “Mulher” significa
“esposa, mulher casada”. Há três personagens femininas a quem Jesus se dirige,
neste Evangelho, com esta denominação. Elas são as imagens das esposas de Deus.
Portanto, a
mãe de Jesus representa a esposa fiel do Antigo Testamento; a outra personagem
feminina a quem Jesus se dirigirá chamando-a de “mulher”, isto é, “esposa,
mulher casada”, é a mulher samaritana, isto é, o Israel adúltero que o
marido reconquista com uma oferta ainda maior de amor. E, finalmente, neste
evangelho, a última pessoa a quem Jesus se dirigirá chamando-a de “mulher”
será Maria de Magdala, que representa a esposa da nova aliança.
Então Jesus, lembrando sua característica de noiva fiel, diz: “O que você quer de mim?” Isto é, o que isso nos importa? A mãe de Jesus acredita que o messias vai anunciar uma nova vida às antigas instituições. Mas Jesus não veio para dar nova vida às velhas instituições, mas para formular uma nova, que veremos agora.
João 2,5: «Sua mãe
disse aos que estavam servindo: “Fazei o que ele vos disser”.»
Então Jesus diz: “Nós não nos importamos com isso”. Mas sua mãe “disse aos que estavam servindo”. O termo empregado pela mãe de Jesus é “diáconos”, isto é, aqueles que livremente, voluntariamente, por amor, se colocam a serviço. E, aqui, o evangelista coloca na boca da mãe o que, no livro do Êxodo, o povo respondeu a Moisés aos pés do monte Sinai: “Quanto o Senhor disse, nós o faremos” (Ex 19,8; 24,3.7). Assim, Maria vê em Jesus o novo legislador, o novo Moisés que deve ser ouvido. Em seguida, a descrição vai para o ambiente.
João 2,6: «Estavam
seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam
fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros.»
Não ânforas
(talhas) de barro, como os pintores, às vezes, nos mostram nas representações,
mas seis ânforas de pedra, portanto grandes e inamovíveis, feitas de pedra como
as tábuas da lei. Para que serviam? Para a purificação ritual dos judeus.
Portanto, neste ambiente familiar existem essas ânforas que devem conter
seiscentos litros de água para purificação.
É por isso que eles não têm vinho. Uma religião que inculca um sentimento de culpa, de indignidade, que faz o homem sentir sempre a necessidade de pedir perdão, de purificar-se, sempre impuro, é uma religião que impede de descobrir e aceitar o amor de Deus. Por isso, a necessidade de purificar-se sempre!
João 2,7-8: «Jesus
disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”. Encheram-nas até a
boca. Jesus disse: “Agora tirai e levai ao mestre-sala”. E eles levaram.»
Havia um responsável. Essas festividades de casamento duravam dias, às vezes, até uma semana. E havia um responsável que tinha que dar atenção à organização, para que não faltasse comida e, principalmente, vinho. No entanto, esse responsável não cuida disso. Aqui, ele representa os líderes religiosos que não se ocupam e não se importam que as pessoas não tenham esse relacionamento com Deus (vinho = amor).
João 2,9: «O
mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não
sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que
tinham tirado a água.»
As ânforas
nunca conterão o vinho de Jesus, mas a água se torna vinho quando é derramada
das ânforas. Portanto, as ânforas jamais contêm o vinho de Jesus, mas contêm
água.
Mas vamos entender, primeiramente, o que essa mudança significa. É a nova aliança que Jesus nos propõe. Uma nova relação com Deus, não mais baseada na obediência à lei, que sempre nos faz sentir indignos e impuros, mas na aceitação do seu amor. Com Jesus, o amor de Deus não é mais concedido pelos méritos das pessoas, apenas para aquelas que o merecem, mas pelas necessidades, portanto é concedido a todos.
João 2,10: «O
mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: “Todo mundo serve primeiro o
vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos
bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!”»
É normal. Em uma refeição que dura várias horas, ou mesmo, vários dias, serve-se primeiro o bom vinho e depois o pior. Para as autoridades, o vinho novo pertence ao passado. As autoridades são incapazes de compreender que o belo e o bom, ainda, estão por vir.
João 2,11: «Este
foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e
manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.»
No final desse episódio, o evangelista está nos dizendo: “Cuidado! Não estou contando uma historinha, mas algo mais profundo”. É a única vez em que está escrito que “Jesus manifestou sua glória”. Não se diz isso quando Jesus ressuscita Lázaro, que está morto há quatro dias, mas aqui o evangelista nos diz: “Atenção! Esta não é uma história de água transformada em vinho para convidados que já estão embriagados, mas nos fala sobre a mudança da aliança. Não existe mais a necessidade de se purificar para acolher o amor de Deus, mas simplesmente deve-se acolher o amor de Deus, que é o que purifica o homem”.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Permanecei na escola de Maria, escutai a sua voz, segui
os seus exemplos. Como ouvimos no Evangelho, ela nos orienta para Jesus: “Fazei
o que ele vos disser” (Jo 2,5). E, como outrora em Caná da Galileia, encaminha
ao Filho as dificuldades dos homens, obtendo d’Ele as graças desejadas.»
(São João Paulo II
– 1920-2005: 264º Papa da Igreja Católica)
Na Festa de hoje celebramos, não tanto a Imaculada Conceição de Maria, mas o fato dela ser a padroeira, mediadora e protetora de nosso país, bem como, é claro, de toda a humanidade. Como sempre ocorre na maioria dos países, Nossa Senhora, no Brasil também se manifesta aos mais pobres e humildes. A sua imagem foi colhida do rio Paraíba, na segunda quinzena de outubro de 1717, por três pescadores, conhecidos pelo nome de: Felipe Pedrosa, Domingos Garcia e João Alves. A imagem, aliás, estava escurecida, fazendo Nossa Senhora se identificar com as pessoas negras que eram escravizadas, no Brasil, naquela época!
A devoção começou com a ereção de um pequeno oratório. Em
1745, foi construída a primeira capela dedicada a acolher essa imagem
encontrada no rio Paraíba, interior do Estado de São Paulo. O primeiro templo
dedicado a ela foi concluído em 1888. Finalmente, em 16 de julho de 1930, o
papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
É importante ressaltar que Maria, na vida de Jesus, foi
aquela que percebeu a novidade e força da proposta de seu Filho. Ele não veio
para reformar uma religião que não tinha mais “vinho”, ou seja, não tinha mais
sabor, alegria, entusiasmo. Uma religião fria como aquelas seis talhas de
pedra, representando as seis grandes festas religiosas de Israel e as antigas
tábuas da Lei. A novidade trazida por seu Filho exigia um vinho novo, uma nova
atitude, por isso ela nos diz, ainda hoje: “Fazei o que ele vos disser”.
O nosso povo se identifica muito facilmente com Nossa
Senhora Aparecida. Que essa devoção faça-nos perceber que Maria sempre esteve
próxima ao projeto de Jesus: a instauração do Reino de Deus nesta terra.
Portanto, a espiritualidade mariana deve ser, como destacou bem José Bortolini:
“Uma espiritualidade de resistência, ancorada na confiança em Deus, em vista da
solidariedade com o povo”.
Ao chamá-la de “rainha”, mediadora nossa junto a Deus, nós relativizamos os chefes e governantes deste mundo, os quais, em sua maioria, são insensíveis às dores, aos problemas e necessidades do povo mais humilde e pobre! A sensibilidade e preocupação de Maria com a “falta de vinho”, provocou o início da atuação de Jesus, seu Filho, neste mundo. Que Maria nos provoque e nos desinstale de toda posição comodista e egoísta que não nos deixa fazer algo para que este mundo seja, de fato, o Reino de Deus!
«Dai-nos
a benção, ó Mãe querida! Nossa Senhora Aparecida. Dai-nos a benção, ó Mãe
querida, Nossa Senhora Aparecida.
1. Sob este
manto azul do céu, guardai-nos sempre no amor de Deus. (Bis)
2. Eu me
consagro ao vosso amor, ó Mãe querida do Salvador! (Bis)
3. Sois
nossa vida, sois nossa luz, ó Mãe querida, do meu Jesus! (Bis)»
(Autoria desconhecida)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – III Domenica del Tempo Ordinario – 27 Gennaio 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 22/01/2022).

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