30º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 18,9-14
Alberto Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
A humildade salva
Jesus, em seu ensinamento, apresentou Deus como um Pai cujo amor não é atraído pelos méritos das pessoas, mas por suas necessidades. É isso que o evangelista Lucas expressa no capítulo 18, versículos 9 a14. Vamos ler.
Lucas 18,9:** «Naquele tempo, Jesus contou esta parábola para alguns que
confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros:»
E a parábola tem um endereço bem específico! Jesus dirige esta mensagem àqueles que se sentem justos. Justo significa – do ponto de vista religioso – aqueles que se consideram completamente corretos com Deus de acordo com sua prática religiosa, de acordo com sua situação, e por isso desprezam os outros. É típico de pessoas religiosas. Quando alguém se sente tão bem com Deus, então se permite julgar, condenar e desprezar os outros. E é a este tipo de pessoas, portanto às pessoas muito piedosas, muito religiosas, que Jesus dirige esta parábola.
Lucas 18,10: «“Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu,
o outro cobrador de impostos.»
Jesus
apresenta os opostos da sociedade religiosa e civil da época. O termo fariseu
significa separado. Quem eram os fariseus? Eram leigos que se encarregavam de
observar em sua vida cotidiana todos os preceitos, leis e observâncias
prescritas na lei.
Chegaram
até a extrapolar 613 regras (hebraico: mitzvot). Tinham o cuidado de não
comer nada impuro, eram escrupulosos observadores do descanso sabático. Eles
eram os santos por excelência. Assim, o fariseu é a pessoa que se acredita – e
da qual se crê – o mais próximo de Deus.
Por
outro lado, o cobrador de impostos ou publicano. Publicano vem de publicum,
a coisa pública. Eles eram os cobradores de impostos; eram considerados ladrões
profissionais, muitas vezes a serviço de governantes pagãos, eram considerados
transgressores de todos os mandamentos e tinham como que uma marca de impureza
para a qual não havia esperança de salvação para eles.
Mesmo
que um dia um cobrador de impostos se convertesse, ele não poderia mais mudar
de emprego e, então, não havia esperança de salvação para ele.
Então Jesus apresenta os dois opostos. O mais próximo de Deus, e não o mais distante, mas, inclusive, o excluído por Deus.
Lucas 18,11: «O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu
te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos,
adúlteros, nem como este cobrador de impostos.»
Literalmente o evangelista escreve “ele orou para si mesmo”. A oração do fariseu não é dirigida a Deus, mas ele se fez seu próprio deus, seu próprio ídolo. A sua oração é um inútil jorro das virtudes inúteis que Jesus não exige, que Deus não exige. Eis a oração desta pessoa que se considera justa, que se considera modelo de santidade, leva imediatamente ao julgamento e ao desprezo dos outros seres humanos. Aqui há apenas uma pitada de desprezo: “ladrões, desonestos, adúlteros”!
Lucas 18,12: «Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a
minha renda’.»
O
que o faz se sentir tão bem com Deus, o que o faz se sentir tão santo, tão
correto? O que Deus não exige. Coisas inúteis. De fato, veremos, agora, que
este fariseu lista todas as ações supérfluas, inúteis e, portanto,
prejudiciais.
O
jejum era ordenado uma vez por ano, no Dia do Perdão [hebraico: Yom Kipur],
mas pessoas piedosas, como os fariseus, jejuavam duas vezes por semana, às
segundas e quintas-feiras, em memória da subida de Moisés ao Monte Sinai e
depois de sua descida. Aqueles eram os dias de jejum.
O dízimo era um imposto pago sobre certos
alimentos, mas não sobre tudo. Ele, por escrúpulo, oferece tudo e paga tudo.
Notemos
que ele não lista nenhuma atitude benevolente e favorável às necessidades dos
outros, tudo é voltado para si mesmo e para Deus.
Há
um fariseu, São Paulo de Tarso, que diz que como ele ninguém observava a lei e
que quando se arrependeu, ele dirá que “Todas essas prescrições têm uma
aparência de sabedoria com sua falsa religiosidade, e humildade e mortificação
do corpo, mas na realidade não tem outro valor senão o de satisfazer o egoísmo,
a carne” (Cl 2,23). São Paulo, que também experimentou isso, diz que são
inúteis. Todas essas devoções, todas essas práticas religiosas, não são apenas
inúteis, mas são prejudiciais porque não fazem nada além de satisfazer o eu.
Na carta aos Filipenses, São Paulo chega a dizer que, quando conheceu a mensagem de Jesus, todas essas devoções e práticas que lhe pareciam tão importantes, ele as considerava um excremento (3,8)!
Lucas 18,13: «O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se
atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus,
tem piedade de mim que sou pecador!’
Ele se sente culpado, sabe que está excluído de Deus, literalmente ele diz “seja gentil, mostra-me sua misericórdia”. O cobrador de impostos demonstra que tem fé. Ele sabe que está numa situação desesperadora, para ele não há perdão, para ele não há salvação, mas apesar disso – e aqui parece que ouvimos o eco do Salmo 23 onde o salmista diz: “Mesmo se eu tiver de andar por um vale de sombra mortal, não temerei os males, porque estás comigo” (Sl 23,4). O publicano diz: “mostra-me tua misericórdia”. É como se o publicano dissesse: “Tu vês, Senhor, que vida eu levo, não posso mudar, esta é a minha situação, tu sabes disso. Bem, apesar disso, mostra-me o teu amor e a tua misericórdia”.
Lucas 18,14a: «Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o
outro não.»
A
conclusão de Jesus é desconcertante. No início, o evangelista apresentou
aquelas pessoas que se consideravam “justas” e agora fala de “justificados”,
isto é, justos com Deus, em harmonia com Deus, mas o que ele fez? O publicano
não se arrependeu. Ele não disse que seu comportamento muda, não disse nada
disso, mas pediu ao Senhor que lhe mostrasse sua misericórdia.
O Deus de Jesus é assim: o seu amor não o dirige a quem o merece, mas a quem dele necessita.
Lucas 18,14b: «Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será
elevado”.»
Então
Jesus derruba os paradigmas da sociedade, aquele que se acreditava mais próximo
de Deus por suas práticas religiosas, para Jesus é o mais distante, porque não
faz nada pelos outros. O que importa para Jesus não é o que ele dirige à
divindade, mas as atitudes de bem, de bem-estar que são feitas para com os
outros.
Para concluir, Jesus recorda que, sobretudo, o amor de Deus não é concedido como recompensa pelos próprios méritos, mas como dom para as próprias necessidades.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Nada encoraja tanto
ao pecador como o perdão.”
(William Shakespeare [1564-1616]: dramaturgo
e poeta inglês)
Neste domingo, estamos na companhia do Evangelho Segundo Lucas, o qual colocou Jesus em uma longa caminhada em direção à cidade santa de Jerusalém. Nessa caminhada, Jesus tem a oportunidade de ensinar e demonstrar aos seus seguidores o tipo de vida que ele deseja para todos.
É importante destacar, logo no início, que os
cristãos para os quais o autor escreveu seu evangelho não estavam acostumados a
rezar! Isso mesmo! Pois, a maioria era de origem pagã, recentemente
convertidos. Por isso, Lucas dedicou-se, em seu Evangelho, a motivar seus
leitores/ouvintes para essa prática tão fundamental da oração. Vejamos:
a) Isabel, Maria, os anjos, Zacarias e
Simeão, no Evangelho da Infância (Lc 1,5 – 2,52), aparecem pronunciando
diversas formas de louvor e ação de graças.
b) Sob o pedido dos seus discípulos, Jesus os
ensina a orar a grande oração de petição: o Pai-nosso. E, aproveita a ocasião,
para animá-los a ser constantes na oração, pois a “todo aquele que pede,
recebe; quem procura, encontra; e para quem bate, a porta será aberta” (Lc
11,10).
c) Sem falar que, em todos os momentos
decisivos e fundamentais de sua vida, Jesus ora, ele dialoga com seu Pai:
* no momento de seu batismo: Lc 3,21;
* antes de escolher os apóstolos: Lc 6,12-16;
* antes da profissão de fé de Pedro: Lc
9,18-21;
* durante a sua transfiguração: Lc 9,28-36;
* na agonia antes de sua morte, na cruz: Lc 22,39-40 e 23,34.46.
Depois de contar uma parábola que ilustra a importância da insistência, da perseverança na oração (a viúva e o juiz – Lc 18,1-8), Jesus chama a atenção para a existência de dois tipos, bem diferentes, de oração.
O fariseu comporta-se com orgulho! O fariseu
deixou transparecer todo o seu ódio e desprezo pelas pessoas que ele considera,
generalizando, pecadoras/inferiores: ladrões, injustos, adúlteros. Somente ele
é bom, segundo o seu julgamento, e Deus está, completamente, de seu lado!
Qualquer semelhança com tantas pessoas que conhecemos, hoje, em nossa vida, não é mera coincidência! São muitos, infelizmente, que, por frequentarem uma igreja, seguirem certos preceitos religiosos, se comportarem de uma maneira um tanto puritana, ler a Bíblia com certa frequência... consideram-se “pessoas de bem”, pessoas boas, pessoas justas e que merecem a salvação!
O cobrador de impostos, por outro lado, é humilde! Ele, próprio, se reconhece pecador e necessitado da misericórdia de Deus!
A sentença final, aquela do próprio Deus, é desconcertante para aqueles que se consideram justos, piedosos, “santos”, puros e religiosos: o piedoso fariseu é condenado, enquanto que o pecador é declarado inocente, justificado!
Como bem observa o teólogo espanhol José
María Castillo:
«[...] todos levamos
incorporado em nossa intimidade um bom fariseu. Um fariseu que teríamos que
matá-lo. Porém, seguramente, uma das coisas mais duras que há na vida é “matar
o fariseu”, que cada um leva em si mesmo e consigo mesmo».
Será que o Evangelho deste domingo não está a nos propor uma radical mudança em nossa maneira de encarar quem são os bons e quem são os maus??? Será que esse Evangelho não está nos pedindo para mudar a imagem de deus que temos em nossa mente???
«Tende piedade, ó meu
Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo
inteiro do pecado, e apagai completamente a minha culpa! Eu reconheço toda a
minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente. Foi contra vós, só
contra vós, que eu pequei, e pratiquei o que é mau aos vossos olhos! Mostrais
assim quanto sois justo na sentença, e quanto é reto o julgamento que fazeis. Vede,
Senhor, que eu nasci na iniquidade e pecador já minha mãe me concebeu. Mas vós
amais os corações que são sinceros, na intimidade me ensinais sabedoria. Aspergi-me
e serei puro do pecado, e mais branco do que a neve ficarei. Fazei-me ouvir
cantos de festa e de alegria, e exultarão estes meus ossos que esmagastes. Desviai
o vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas transgressões! Criai em
mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor,
não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito! Dai-me
de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso! Ensinarei
vosso caminho aos pecadores, e para vós se voltarão os transviados. Da morte
como pena, libertai-me, e minha língua exaltará vossa justiça! Abri meus
lábios, ó Senhor, para cantar, e minha boca anunciará vosso louvor! Pois não
são de vosso agrado os sacrifícios, e, se oferto um holocausto, o rejeitais. Meu
sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido! Sede
benigno com Sião, por vossa graça, reconstruí Jerusalém e os seus muros! E
aceitareis o verdadeiro sacrifício, os holocaustos e oblações em vosso altar!»
(Fonte: Salmo 51,3-21 – Trad.: Liturgia das Horas)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – XXX Domenica del Tempo Ordinario – Anno C – 27 ottobre 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 18/10/2022).

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