18º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 14,13-21
Frei Alberto Maggi *
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Fazer-nos alimento de vida para
todos
O episódio da partilha dos pães e dos peixes é tão importante que todos os evangelistas o reportam. Nesse episódio, os Evangelhos não veem apenas um sinal realizado por Jesus, mas representam e antecipam a Ceia Eucarística. Portanto, toda essa passagem é uma antecipação e uma compreensão do significado profundo da Ceia Eucarística.
Com essa narração, Mateus busca demonstrar não apenas quem é Jesus, mas também a missão confiada a cada crente. O pano de fundo é uma clara referência ao profeta Eliseu (2 Reis 4,42-44), mas com uma diferença fundamental que revela a grandeza de Cristo: Eliseu alimenta cem pessoas com vinte pães, enquanto Jesus alimenta cinco mil homens com apenas cinco pães e dois peixes. Mateus não pretende apresentar um espetáculo prodigioso para impressionar o leitor. A palavra “multiplicação”, normalmente usada para esse episódio, não aparece no texto do Evangelho e é até enganosa: os pães não são multiplicados pelo poder de uma figura divina, mas compartilhados pela generosidade dos discípulos e distribuídos ao povo.
Mateus 14,13-15:** «Naquele tempo, Quando soube
da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e
afastado. Mas, quando as multidões
souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. Ao sair do barco,
Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que
estavam doentes. Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e
disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as
multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”»
Ao receber a notícia
da morte de João Batista, Jesus se retira para um “lugar deserto, à parte”.
O deserto evoca o Êxodo e as antigas promessas: o povo aguardava um Messias
que, como Moisés, voltaria a fazer chover maná do céu. Jesus é aquele que
cumpre essas expectativas. A expressão “à parte”, no Evangelho de Mateus,
sempre acompanha momentos de incompreensão por parte dos discípulos. E desta
vez também será assim.
O evangelista coloca
indicações no texto que alertam o leitor: “Atenção eu não estou narrando, aqui,
um simples fato de crônica, mas estou transmitindo uma verdade teológica. Por
exemplo, o evangelista indica o momento da partilha dos pães do mesmo modo que
a Ceia Eucarística: “Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus”
(Mt 14,15).
Há a multidão que segue Jesus, pois ele iniciou um novo êxodo, uma nova libertação de seu povo! Porém, os discípulos não são solidários com essa gente, eles não compreendem, pedem que Jesus despeça a multidão para que comprem o que comer. Eles não acolheram, ainda, o espírito de partilha das bem-aventuranças. Os discípulos ainda pensam com a mentalidade econômica do sistema: para comer, é preciso comprar. Acreditam que a solução para o problema da fome é econômica.
Mateus 14,16: «Jesus, porém, lhes
disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!”»
Jesus replica contrapondo ao verbo “comprar”, utilizado pelos discípulos, o
verbo “dar”. Não é o caso de comprar, mas de partilhar. A forma verbal
utilizada pelo evangelista neste texto possui algo de particular, literalmente
se lê: “Dai a eles vós de comer”. É o significado da Eucaristia. Nela Jesus se
faz pão, alimento de vida, para que todos aqueles que o acolhem, por sua vez,
se façam pão, alimento de vida para os outros!
Não basta dar o pão às pessoas, mas é preciso fazer-se pão para elas! Na Eucaristia, não recebemos apenas o pão: nós nos tornamos pão para os outros!
Mateus 14,17: «Os discípulos
responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Jesus disse: “Trazei-os
aqui”.»
Os discípulos replicam que aquilo que eles possuem é muito pouco! A soma dos pães e dos peixes atinge o número sete, que, na simbologia judaica, significa tudo o que eles têm. Quando guardamos só para nós, tudo o que temos parece pouco! Porém, quando se partilha, cria-se a abundância! Por isso, Jesus ordena que tragam o que se tem.
Mateus 14,19a: «Jesus mandou que
as multidões se sentassem na grama.»
Daqui em diante, o texto nos apresenta indicações preciosas para a compreensão do significado da Eucaristia. A primeira é a ordem de Jesus para as multidões se recostarem. Ele ordena porque há resistência. E por que pede à multidão para recostar-se? As pessoas não podem comer do modo que quiserem: sentadas ou em pé? Nas refeições festivas se comia, segundo hábito greco-romano, recostado em uma espécie de divã (clínio). Porém, somente quem tinha servos podia comer desse modo. Portanto, a Eucaristia serve para fazer as pessoas se sentirem como que senhores e senhoras livres. Por isso, os discípulos se tornam servos daqueles que eram considerados os últimos e marginalizados da sociedade, para que descubram sua dignidade de senhores! Novamente, por que Jesus precisa ordenar? Porque há resistência por parte da multidão. Afinal, as pessoas amam ser submissas, mas não amam o preço da liberdade!
Mateus 14,19b: «Então pegou os
cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção.
Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os
distribuíram às multidões.»
O
evangelista, aqui, nos apresenta os mesmos gestos que Jesus realizará na última
ceia. A expressão “ergueu os olhos para o céu” significa a comunicação
com Deus. Em seguida, “pronunciou a bênção”; abençoar significa
reconhecer que aquilo que se tem é dom recebido e, como tal, deve ser dividido
para multiplicar os efeitos da Criação. O texto diz que Jesus dá aos discípulos
o pão abençoado e partido, e eles o dão à multidão. Isso significa que eles não
são os proprietários desse pão, não são os administradores, mas os servidores.
A tarefa deles é pegar esse pão e distribuir à multidão, sem impor condições e
limites.
Aqui, observa-se a omissão de um hábito judaico: a obrigatoriedade de purificação antes das refeições. Antes de comer, era costume lavar-se as mãos seguindo um rito determinado, acompanhado por orações. Jesus jamais impõe que se lave as mãos em todas as cenas de refeições das quais participa! Qual é o significado dessa atitude? Não é verdade que os seres humanos devam se purificar para participar do banquete do Senhor, mas o contrário, é o participar do banquete do Senhor que os purifica. Por isso, Jesus se faz pão e pede o mesmo aos seus discípulos, sem impor nada às multidões.
Mateus 14,20: «Todos comeram e
ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos
cheios.»
Doze é o número das tribos de Israel, indicando que a partilha, ao invés da acumulação, é capaz de saciar a fome de todo o povo.
Mateus 14,21: «E os que haviam
comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.»
Eis
aqui, enfim, um detalhe precioso: o número dos que comeram era de “cinco mil
homens”. Essa é a mesma cifra de pessoas que compunham a comunidade cristã
primitiva (cf. Atos 4,4). Mas por que, justamente, cinco mil? Os múltiplos de
cinquenta indicam a ação do Espírito de Deus, na Bíblia. Os profetas, por
exemplo, andavam em grupos de cinquenta. Pentecostes é o quinquagésimo dia após
a Páscoa, dia no qual desce o Espírito sobre a comunidade cristã.
Portanto, o evangelista com essa cifra – cinco mil – quer nos dizer que, com o pão, foi comunicado o Espírito que estava na base do dom. O detalhe “sem contar mulheres e crianças” se justifica porque no culto das sinagogas, a celebração podia iniciar-se somente quando estavam presentes, ao menos, dez varões adultos. A sinagoga poderia estar repleta de mulheres e crianças, mas se não houvesse, ao menos, dez varões adultos, o culto não se iniciava. Com essa indicação, o evangelista quer dizer que, com Jesus, iniciou-se um novo culto, o qual não mais se exerce no interior de uma sinagoga, mas em qualquer lugar que exista a prática das bem-aventuranças, ou seja, da partilha generosa. O novo culto não parte mais dos seres humanos para Deus, mas de Deus aos seres humanos. Porque o Jesus de Mateus é o “Deus-conosco” que pede para ser acolhido. Porque com ele e como ele a humanidade será alimento de vida para todos os seres humanos que têm necessidade.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Para o faminto, Deus não pode
aparecer de outra forma senão como pão.»
(Mahatma
Gandhi: 1869-1948 — advogado, estadista, líder espiritual e ativista
indiano)
A partilha dos pães em Mateus 14,13-21 deixa de ser um prodígio puramente místico para se tornar o projeto político e social do Reino de Deus. Jesus não realiza um passe de mágica para espectadores passivos; Ele organiza a multidão, denuncia a escassez e transforma os discípulos em agentes de libertação. Para a nossa vida cristã concreta hoje, essa leitura exige uma prática que une fé e compromisso histórico através de três ações estruturais:
1. Rejeitar
a omissão e organizar a comunidade
Diante da
fome da multidão, a sugestão dos discípulos é individualista: "Despede
o povo para que cada um compre o seu". Na perspectiva da libertação,
Jesus recusa essa lógica de mercado que privatiza a sobrevivência. Ele diz: "Dai-lhes
vós mesmos de comer". Ele exige que a comunidade assuma a
responsabilidade coletiva pelas vítimas do sistema. Afinal, a fome, o
desemprego e a falta de moradia não são “vontade de Deus”, mas frutos de
estruturas injustas que nós, cristãos, somos convocados a transformar de forma
organizada.
2. Romper
com a mentira da escassez através da partilha
Os
discípulos olham para a realidade com a ótica da falta: "Não temos aqui
senão cinco pães e dois peixes". O sistema opressor nos convence de
que os recursos do mundo são poucos e, por isso, devemos competir e acumular.
Jesus desmascara essa mentira. O milagre da partilha acontece quando o pouco de
cada um sai do bolso privado e vai para a mesa comum. Viver a sobriedade
solidária e audaciosa. Isso vai além de dar esmola; exige rever
nossos padrões de consumo.
3. Fazer a
“Opção Preferencial pelos Pobres” no cotidiano
Antes do
milagre, o texto diz que Jesus olhou para a multidão, “encheu-se de compaixão e
curou os seus doentes”. A compaixão no cristianismo não é um sentimento vago,
mas uma tomada de partido. Jesus interrompe seu próprio luto e descanso para
colocar as necessidades dos últimos e vulneráveis em primeiríssimo lugar. No
trabalho, na política ou na igreja, o nosso lado deve ser, incondicionalmente,
o lado de quem tem fome e sede de justiça.
Em suma, Mateus 14 nos ensina que o pão só é verdadeiramente sagrado (Eucaristia) se for partido e repartido na justiça!
«Abençoa
as nossas mãos para que saibam tomar as dores do povo, agradecer
pela força da união, partir os nossos privilégios e entregar a nossa
própria vida na luta por estruturas mais justas. Que a nossa Eucaristia
dominical não seja um rito vazio, mas a motivação espiritual que nos impulsiona
a sermos pão e portadores de dignidade a todos os nossos irmãos e irmãs.»
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Texto fornecido pelo autor.

Comentários
Postar um comentário