Politização da religião

 Na cova dos leões

 Angela Alonso

Professora de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) 

"DANIEL NA TOCA DOS LEÕES" - tela à óleo do pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), pintura de 1614/1616 - está exposta na National Gallery of Art (Washington - DC)

Religiosização da política só interessa a um lado, o da direita

O pastor pregava numa igreja Batista: “Neemias agiu. Se nós queremos mudar o sistema, precisamos orar, agir e apoiar medidas contra a corrupção”. 

Era 2015, e Neemias foi do Velho Testamento ao sermão para justificar o avanço religioso sobre a política. Ao murar a cidade sagrada de Jerusalém, servira a dois senhores, o estado terreno (governou a Judeia) e o reino divino. Quem buscou o exemplo foi Deltan Dallagnon, que tinha 35 anos e uma missão. 

Como a missão lava-jatista se cumpriu, é prudente atentar para suas profecias. A mais recente veio em reação ao tuíste digno das narrativas bíblicas, quando o moralizador foi pego de moral curta. Legítima ou espúria, a cassação deu-lhe outro púlpito, o de perseguido. 

Em meio a cartazes de “Perseguição política não é justiça”, discursou no estilo em que fez carreira, com a Bíblia e a Constituição confundidas

A retórica cristã tem sido seu trunfo na trajetória curta entre a obscuridade paranaense e a luminosidade de Brasília. Daí equiparar sua sina às de José [Gn 37] e Daniel [Dn 6]. 

O primeiro, vendido pelos irmãos como escravo, permitiu-lhe sintonizar com o grande mote contemporâneo da direita, o da primazia da liberdade. 

O segundo lhe deu a camisa do crente, salvo da pena injusta pelo poder da fé. Trata-se de Daniel, acusado de traição ao rei por orar a Deus. O soberano pôs a divindade concorrente à prova, trancando o infiel numa cova com leões. O salvamento foi por graça divina. 

Já os acusadores provaram a inclemência terrena, devorados pelos felinos. Uma mensagem de revanche: Dallagnol está na cova, mas quando sair, condenará os inimigos ao suplício

À diferença de Daniel, vai comboiado à vingança. O protesto contra sua cassação ajuntou do:

* 03 [Deputado Federal Eduardo Nantes Bolsonaro, PL-SP] à

* deputada de tiara de florzinha [Julia Pedroso Zanatta, PL-SC], a que votou contra a equiparação salarial entre os gêneros e insinuou usar metralhadora contra Lula. 

Deltan Dallagnol no centro, ao microfone, ao seu lado direito, usando uma tiara de florzinha, a deputada Julia Zanatta e, atrás de Dallagnol, à sua direita, com o rosto meio escondido, o deputado federal Eduardo Bolsonaro

O ato de desagravo exibiu uma arca da aliança, que o pastor chamou de “a direita unida contra a arbitrariedade”. Nela cabem muitos pecadores. 

A cruzada moral é para salvar um mundo corrompido desde a expulsão do Paraíso. 

Exemplos religiosos e ações políticas se embaralham, enraizando a moralidade pública em uma moral privada particular, de tipo religioso. Avoca o monopólio da honra e da correção à sua igreja política, já os adversários seriam todos corrompidos

Os últimos anos mostraram o poder político desta retórica moralizadora, que opõe impolutos e conspurcados. Suscitou nada menos que paixão nacional. Por isso o “tombo”, palavra do caído, serviu para regar o terreno laico da política partidária com os valores de uma seita. 

Dallagnol, como [o profeta] Daniel, vive uma provação, mas promete voltar fortalecido, graças à fé em Deus e nas “344 mil vozes caladas”, as dos eleitores que o sufragaram. Não na Constituição

A língua religiosa da oposição acabou na boca do governo, que devia ser laico. O ministro da Justiça [Flávio Dino] se saiu com o evangelho de Mateus:Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!” 

Ao adotar a linguagem do inimigo, aceita-se o debate político nos seus termos. E se cai na armadilha de falar mais de moral que dos problemas do país. 

A religiosização (com perdão do neologismo) da política só interessa a um lado. A direita se move desenvolta nesse léxico. E, ao fundamentar seus atos em citações sagradas, prossegue a política nos termos de seu velho Messias [Jair Messias Bolsonaro, o ex-presidente da República]. 

Fonte: Folha de S. Paulo – Política / colunas e blogs – Segunda-feira, 22 de maio de 2023 – Pág. A8 – Internet: clique aqui (Acesso em: 22/05/2023).

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