Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 28,16-20
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Eis a nossa missão: mergulhar os seres
humanos na realidade profunda de Deus
Encontramos o episódio da ascensão de Jesus apenas no Evangelho de Lucas (24,50-53), e depois na adição final ao Evangelho de Marcos (16,19), mas não nos demais evangelistas, nem em Mateus nem em João. Mas a mensagem do evangelista, no caso, Lucas, é idêntica à dos outros: a ascensão de Jesus não é uma separação, mas uma proximidade, não é um distanciamento, mas uma presença ainda mais intensa, porque Jesus está na plenitude da condição divina. O final do Evangelho de Mateus é constituído de cinco versículos, nos quais o evangelista encerra, resume todo o seu evangelho, vejamos.
Mateus
28,16a: «Os onze discípulos partiram para a Galileia... »
Os discípulos não são mais doze, e o número, neste evangelho, não é reconstituído. Os doze significavam o novo Israel, os onze significam que o novo Israel não é reconstituído, portanto a mensagem de Jesus é universal, é para toda a humanidade. “Partiram para a Galileia”, eles vão para lá porque três vezes houve um convite para encontrar Jesus na Galileia (Mt 26,32; 28,7.10). Jesus, ressuscitado neste evangelho, nunca aparecerá em Jerusalém.
Mateus
28,16b: «...
à montanha que Jesus lhes havia indicado.»
O evangelista escreve “para a montanha”, temos o artigo definido, indicando, portanto, uma montanha específica. Prossegue: “que Jesus lhes havia indicado”, mas Jesus não indicou nenhuma montanha neste Evangelho. Por que os discípulos vão para “a” montanha? O significado não é topográfico, mas teológico: a montanha, neste Evangelho, é a montanha das bem-aventuranças, onde Jesus proclamou a sua mensagem, bem-aventuranças que são oito, e o número oito é a figura da ressurreição no cristianismo primitivo, porque Jesus ressuscitou no primeiro dia após a semana. Assim, os discípulos vão claramente para “a” montanha: o evangelista quer dizer que a experiência de Jesus ressuscitado não é um privilégio concedido há dois mil anos a algumas pessoas, mas uma possibilidade para todos os crentes de todos os tempos, basta situar-se “no” monte das bem-aventuranças, isto é, acolher a sua mensagem, formulada e sintetizada nas bem-aventuranças.
Mateus
28,17: «Quando
o viram, prostraram-se, mas alguns duvidaram.»
O verbo “ver” usado pelo
evangelista não indica a visão física, mas uma profunda experiência interior,
“prostraram-se”, então reconhecem em Jesus uma condição divina, e
então, estranhamente, o evangelista diz “mas alguns duvidaram”, mas do
que eles duvidam? Não que Jesus tenha ressuscitado, eles o veem, não que
ele esteja na condição divina, eles se prostram; então por que eles duvidam? O
evangelista usou este verbo “duvidar” apenas uma vez, no episódio conhecido,
quando Jesus caminha sobre as águas (cf. Mt 14,22-33), o que indica a
condição divina, e Pedro, o discípulo, também quis caminhar sobre as águas,
ou seja, também ele quis a condição divina. Jesus diz que ele pode ir, mas ao
ver a dificuldade, Pedro começa a se afogar e pede ajuda.
Ele acreditava que o status divino seria concedido
como um presente do alto e não sabia por quais dificuldades passava.
Pois bem, Jesus repreendeu Pedro daquela vez com as palavras: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31b). Então aqui está essa dúvida sobre a qual o evangelista escreve! O que é? Eles viram Jesus na condição divina, mas agora sabem pelo que Jesus passou: a morte mais infame, mais desprezada para um judeu, a maldição da cruz. Então, de quem eles duvidam? Duvidam de si mesmos, pois são convidados a alcançar a condição divina, mas não sabem se conseguirão enfrentar as perseguições e, até mesmo, a morte. É por isso que eles duvidam.
Mateus
28,18: «Jesus aproximou-se deles e
disse: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.»
Enquanto as mulheres se aproximaram de Jesus ― como nos mostrou Mateus neste capítulo 28, nos versículos 1 a 10 ―, aqui é Jesus quem deve se aproximar dos discípulos. As palavras de Jesus, tais como o evangelista escreve, se referem ao profeta Daniel, onde o Filho do Homem recebeu todo o poder no céu e na terra (cf. Dn 7,14). No entanto, Jesus não usa esse poder para ser servido, mas, como ele dirá: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28), portanto é um poder para servir.
Mateus
28,19-20a: «Ide,
pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo. Ensinai-os a observar tudo o que vos mandei.»
E aí vem a
ordem imperativa: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos”, o
termo povos indica as nações pagãs, “batizando-os”, o verbo
batizar significa imergir, embeber, “em nome”, o nome indica a realidade
profunda de um ser, “do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ou seja, mergulhai-os
na realidade profunda de Deus, fazei-os experimentar quem é Deus. “Ensinai-os”,
e é a única vez que Jesus autoriza seus discípulos a ensinar, “a
observar tudo o que vos mandei”, a única vez que o verbo mandar aparece,
neste Evangelho, é justamente em referência às bem-aventuranças.
Então, qual
é o significado desta ordem de Jesus? Jesus tinha convidado os seus
discípulos a segui-lo para serem pescadores de homens: pescar homens
significa tirá-los da água, que pode dar-lhes a morte, portanto, sair da
condição mortal, para dar-lhes a vida.
Pois bem, Jesus indica agora como e onde: como vos tornareis
pescadores de homens? Imergindo-os no Espírito do Senhor, na realidade mais
profunda do amor divino, e onde? Onde o espaço é toda a humanidade.
Mateus
28,20b: «Eis
que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”.»
E, depois,
a garantia final de Jesus: “eis que estou convosco”, este é o tema, o
fio condutor (leitmotiv) de todo o evangelho. No primeiro
capítulo, versículo 23, o evangelista havia indicado Jesus como “Deus
conosco”; mais ou menos na metade do seu Evangelho, Jesus disse que estava
com seus discípulos: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali
eu estarei” (Mt 18,20); e, agora, conclui as palavras de Jesus com a
certeza da sua presença: “estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”.
Não há fim do mundo, é um fim dos tempos, como diz o evangelista, que
não indica um prazo, mas a qualidade de uma presença, daí as últimas
palavras de Jesus: “eis que estou entre vós para sempre”.
E o
evangelista, que abriu o seu evangelho referindo-se ao livro do Gênesis —
começa o Evangelho escrevendo: “livro da origem (= gênesis)” (Mt 1,1) —,
fecha-o com uma referência ao último livro da Bíblia Hebraica, o Segundo
Livro das Crônicas, onde há o convite de Ciro, rei da Pérsia, que diz ao
povo judeu: “O Senhor, Deus do Céu, me deu todos os reinos da terra e me
encarregou de lhe construir uma Casa em Jerusalém, em Judá. Quem de vós
pertence a todo o seu povo, que o Senhor, seu Deus, esteja com ele. E suba!”
(36,23). É o convite de Ciro aos judeus para que deixem seu reino e voltem para
Israel, e construam um templo para o Senhor. Jesus convida também os seus
discípulos a ir, a deixar a instituição religiosa, mas não a construir um
templo, porque...
... a comunidade dos discípulos será o novo templo onde se manifesta
o amor e a misericórdia do Senhor.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Cristãos
à apenas vinte séculos da Ascensão. O que vocês fizeram com a esperança cristã?»
(Pierre Teilhard de Chardin: 1881-1955 — padre francês
jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo)
A festa da Ascensão do Senhor é algo que ultrapassa aquela visão ingênua e falsa de que Jesus deslocou-se da Terra, portanto, daquilo que era humano, para o celestial, ou seja, para aquilo que é divino. A elevação ao céu — tal como está em Atos 1,9-11, primeira leitura da liturgia deste domingo — é interpretada como uma partida deste mundo, como se Jesus tivesse se retirado de nossa presença! Porém, o Evangelho de Mateus opera uma mudança significativa nesse tipo de visão. E isso, em duas maneiras:
1ª) Da “elevação ao
divino” à “universalização do cristão”, como observa José María
Castillo. Afinal, o Jesus de Mateus assume, plenamente a identidade do Filho do
Homem, tal como em Daniel 7,14:
«Foi-lhe dado o poder, a honra e o
reino; e todos os povos, tribos e línguas o serviram. Seu poder é um poder
eterno, que não lhe será tirado, e seu reino jamais será destruído!»
Se a aliança de Deus
com Moisés, no monte Sinai, revelava Israel como sendo uma “propriedade entre
todos os povos” (Ex 19,5) — portanto, um povo privilegiado —, agora, no monte
das bem-aventuranças, “todos os povos” devem se tornar discípulos de
Cristo (Mt 28,19). Não há mais privilegiados (cf. Mt 8,11; 21,41;
22,8-10; 24,14.30-31; 25,32; 26,13).
2ª) A garantia de que Jesus/Deus está com os seus até o fim dos tempos (Mt 28,20), ele é o Deus conosco e não o Deus-nas-nuvens, o Deus-altíssimo!
A Ascensão, então,
marca o início da missão dos seguidores de Jesus. A comunidade formada
por Jesus deverá ser, eminentemente, missionária! O imperativo “ide” (Mt 28,19)
deixa isso muito claro! E essa missão possui uma pauta, um roteiro claro
(inspiro-me, em parte aqui, em Jaldemir Vitório):
a) Os discípulos são enviados
pelo Ressuscitado! Portanto, o poder e a autoridade deles depende,
diretamente, de Jesus, pois, apenas e tão somente a ele foi “dada toda a
autoridade no céu e na terra” (Mt 28,18 — cf. Mt 6,10; Jo 17,2; Fl 2,10; Ap
12,10). Portanto, o centro da missão, o conteúdo da missão, o sentido
da missão é, sempre, Jesus Cristo! Tudo aquilo que o discípulo fala, faz
e vive deve apontar na direção do Cristo, não de si mesmo!
b) A missão é “fazer
discípulos e discípulas”. Isso, somente, pode se dar apresentando Jesus,
o único e verdadeiro Mestre (cf. Mt 23,8), e a sua proposta de Reino de Deus,
o qual é o projeto de vida centrado na vontade do Pai. Portanto, deve-se evitar
todo o risco de idolatria, que seria apresentar algo diferente disso às
pessoas, somente para conquistá-las, mas sem convertê-las, de fato!
c) O batismo em nome da Trindade. Somente mergulhando as pessoas na intimidade de Deus e de seu mistério, pode-se esperar delas uma adesão de corpo e alma ao projeto de Reino proposto por Jesus! O batismo deveria ser para as pessoas dispostas a orientar suas vidas pela pessoa de Jesus. Diferentemente daquilo que acontece há vários séculos de cristianismo, em que o batismo tornou-se um mero rito cultural, como é o caso de registrar uma criança no cartório, não trazendo consequências práticas e profundas para a sua vida.
A Ascensão torna-se,
então, uma fonte de esperança e inspiração para nós, cristãos e cristãs, pois,
como bem afirma José Antonio Pagola:
«Quando
parece que a vida se fecha ou se extingue, Deus permanece. O mistério último
da realidade é um mistério de Amor salvador. Deus é uma Porta aberta à vida
eterna. Ninguém a pode fechar».
«Senhor Jesus! Aqui estamos prontos para
partir a fim de anunciar, mais uma vez, o teu Evangelho ao mundo, no qual a tua
arcana providência nos colocou para viver! Senhor, roga ao Pai, como
prometeste, para que por ti nos envie o Espírito de consolação, que torne o
nosso testemunho aberto, bom e eficaz. Fica conosco, Senhor, para que todos
sejamos um em ti e aptos, pelo teu poder, a transmitir ao mundo a tua paz e a
tua salvação. Amém.»
(Fonte: Papa Paulo VI. In: CILIA, Anthony O.Carm
[a cura di]. Lectio Divina sui vangeli festivi: per l’anno liturgico B.
Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 268)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –Ascensione del Signore – Anno A – 24 maggio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 17/05/2023).
Comentários
Postar um comentário