Cristãos em autoanálise
Trazer a Igreja de volta ao seu primeiro amor
Mariano
Borgognoni
Revista «Rocca», nº. 9, 01-05-2023
Entrevista com: Paolo Ricca
Teólogo, pastor valdense italiano e professor emérito da Faculdade Valdense de Teologia (Roma – Itália)
PAOLO RICCA |
A
única “escolha evangélica profética” a fazer é aquela da não-violência
Encontrar-se com o pastor Paolo Ricca, figura eminente do mundo evangélico não só italiano, é sempre uma experiência que enriquece, não só pela força do seu pensamento e pela envergadura teológica do mestre, a clareza absoluta da exposição sinal de um forte rigor intelectual e de um grande respeito por todos que o ouvem e leem, mas, eu diria, antes mesmo disso, porque se percebe a paixão do homem e a grande fé que acolheu e transmitiu durante a sua intensa vida de homem da igreja e de estudo. Em poucos outros senti essa força evangélica contagiosa como em Paolo Ricca.
Às vezes, em homens e mulheres menos conhecidos, mas cheios de fé, nos simples que estão salvando o mundo sem o perceber como escreve Borges na esplêndida lírica Los Justos. Por outro lado, e peço desculpas por esta pouco jornalística confissão pessoal, o mundo evangélico foi para mim, nascido no ambiente católico, lugar de amizade com pastores e com irmãos e irmãs que sempre senti como uma extraordinária riqueza na minha tentativa de me tornar um cristão e em cujos lugares de culto e vida sempre me senti em casa.
Eis, abaixo, a entrevista:
Gostaria de começar, professor Ricca, da crua realidade que estamos vivendo
com uma feroz guerra justamente no nosso continente, aquele em cuja
Constituição, posteriormente abortada, desejaríamos ter escrito a referência às
raízes cristãs em letras garrafais. Em seu belíssimo texto “Dio. Apologia”
fala-nos das muitas imagens de Deus e das críticas que lhe são dirigidas. Mas
que imagem de Deus e dos cristãos emerge desse conflito?
Paolo
Ricca: Infelizmente, emerge a pior imagem de Deus e dos cristãos
que se possa imaginar. Emerge o exato contrário do Deus anunciado pelos
profetas de Israel, um Deus “árbitro entre muitos povos” (Isaías 2,4), ou
“árbitro entre nações poderosas” (Miqueias 4,3), enquanto na guerra
russo-ucraniana voltamos a ver um Deus que não é de forma alguma um “árbitro”,
mas, ao contrário, nacional, para não dizer nacionalista, um Deus russo de
acordo com a Igreja Ortodoxa Russa e ucraniano de acordo com a Igreja Ortodoxa
Ucraniana.
Assistimos impotentes a uma
dupla nacionalização de Deus, um Deus “dos exércitos” no sentido literal da
palavra, um Deus guerreiro e beligerante que – repito – é exatamente
o oposto do Deus de Jesus, que declara “bem-aventurados” e “filhos de Deus”
os “pacificadores”, ou seja, aqueles que não falam da paz, mas promovem a
paz (Mateus 5,9), que também é o Deus do apóstolo Paulo que
surpreendentemente nos descreve a “armadura de Deus” (como se Deus fosse um
guerreiro!), a partir da qual o apóstolo monta um verdadeiro strip-tease
do legionário romano, que ele idealmente despoja de cada “pedaço” de sua
armadura bem testada, para depois revesti-lo com armas completamente
diferentes, ou seja, com a verdade como um cinto, a justiça
como uma couraça, o zelo dado pelo evangelho da paz como calçados,
a fé como escudo, a salvação como elmo, o Espírito
que é a palavra de Deus como espada (Efésios 6,14-17).
De tudo isso, ou seja, do Deus acreditado e confessado por Jesus, por Paulo e – até prova em contrário - pela fé todos os cristãos, não vimos nem mesmo a sombra. Tanto que se Deus tivesse realmente que ser assim como aparece neste conflito, um Deus nacionalista e belicista – a única opção possível seria o ateísmo absoluto. Se até agora não abandonamos a fé cristã, é porque estamos profundamente convencidos de que Deus é completamente diferente do que emerge deste infeliz conflito.
Livro publicado pela Claudiana, na Itália, em agosto de 2022. Não há tradução em português, até o presente momento. Tradução do título: "Deus: apologia". |
O que acontece com a dimensão do ecumenismo nessa imagem?
Paolo
Ricca: Quanto aos cristãos, um discurso semelhante deve ser feito,
em duas frentes: aquela ecumênica e aquela da paz (afinal intimamente ligadas
entre si).
Na frente ecumênica, o
conflito revelou que Igrejas irmãs no sentido próprio e pleno do termo,
porque professam e vivem a mesma fé cristã segundo a mesma tradição ortodoxa, não
foram capazes de fazer valer a sua fraternidade (ou sororidade) fundamental
e vital, e dramaticamente se separaram: a sua pertença a duas nações diferentes
sufocou em ambas a pertença comum à única Igreja, ou seja, ao único povo de
Deus.
Uma derrota inesperada, que suscita infinita tristeza e é motivo de
confusão e humilhação para todo o cristianismo.
Na frente do serviço à paz,
registrou-se o enésimo, completo fracasso cristão: a impotência da Igreja
para ser o que deveria ser, mas nunca foi em vinte séculos de história: um
corpo de paz entre os povos.
Se a Igreja (quando digo
“Igreja”, quero dizer todas as Igrejas vistas como uma única, grande Comunidade
espalhada no mundo) é, como afirma ser, o “corpo de Cristo” na terra, e
Cristo é acreditado e confessado como “príncipe da paz”, a Igreja só
pode ser o “corpo” do príncipe da paz, portanto, “corpo de paz”. A palavra “corpo”
deve ser levada muito a sério: não “corpo místico” (do qual a Escritura nunca
fala), nem mesmo “corpo espiritual” que será o da ressurreição (1 Coríntios
15,44), mas “corpo”, entendido simples e fisicamente, como físico era aquele
do filho de Maria.
Assim são as almas e corpos físicos dos cristãos e das cristãs (não as almas sem os corpos!) que constituem o “corpo de Cristo” como “corpo de paz”. Mas como pode o corpo de Cristo ser concretamente entre os povos um corpo de paz?
Qual poderia ser uma proposta profética e evangélica para
fazer e implementar?
Paolo
Ricca: A única “escolha evangélica profética” a fazer é — a
meu ver obrigatória — aquela da não-violência.
Seria uma revolução, porque
essa escolha a Igreja nunca fez. Seria uma virada de época, nasceria uma
Igreja bastante diferente. Cada paróquia ou comunidade deveria tornar-se uma escola de não-violência, na qual se ensina a teoria dessa disciplina e
se aprendem as técnicas pelas quais é praticada. Todas essas coisas são
desconhecidas dos cristãos e não é certo uma lição que possa ser aprendida em
pouco tempo.
Mestres podem ser, nesse
âmbito, Gandhi e Martin
Luther King, e na Itália também podemos pensar em Dom Lorenzo Milani com seu discurso aos capelães
militares, de muitas décadas atrás. Se a Igreja realmente quer ser um “corpo de
paz” e assim superar a sua impotência crônica para impedir a guerra, ou seja, o
homicídio coletivo planejado e praticado (homicídio que, espiritualmente, é ao
mesmo tempo também suicídio!), não há outro caminho senão escolher a
não-violência. A diplomacia é importante, mas nunca foi capaz de impedir as
guerras.
Isso só pode ser obtido por um
“corpo de paz”, que é algo diferente de um corpo diplomático.
Adotando a não-violência, a Igreja arrebata as armas das mãos de
seus filhos e, sobretudo, os impede de atirar, matar e destruir.
Em segundo lugar, a Igreja apresenta-se como “corpo de paz” no meio de exércitos postos em campo e os impede de se enfrentar, justamente como fez aquele homem usando apenas uma camisa que com o próprio corpo se colocou diante de quatro tanques gigantescos na praça Tiananmen na China, e os deteve. Aquele homem é o ícone (como se fala hoje) da Igreja “corpo de paz”. Ou a Igreja se torna isso ou continuará sendo a enfermeira que cuida dos feridos e enterra os mortos, mas não impede nem uns nem os outros.
Neste fechamento étnico, nacionalista das Igrejas (não há
apenas o patriarca russo-ortodoxo Kirill)
não haverá necessidade de redescobrir o caráter constitutivamente católico do
cristianismo? Eu lhe pergunto isso também porque o ouvi falar (no Vaticano!) do
carisma da universalidade, de alguma forma guardado pela Igreja de Roma. É
possível imaginar uma forma de serviço à unidade dos cristãos, no
reconhecimento das diversidades? Também porque a sua divisão enfraquece sua
credibilidade em uma fase já marcada por uma crescente marginalidade.
Paolo
Ricca: A catolicidade é até mais que um carisma, é uma estrutura
permanente e sustentadora da Igreja cristã, que desde seus primórdios é “una,
sancta, catholica, apostolica”. E realmente é surpreendente constatar que
sua consciência de ser uma comunidade universal estava presente na Igreja do
primeiro século que, numericamente, era muito pequena: uma vasta diáspora de
pequenos grupos espalhados por todo o imenso Império Romano.
Agora me parece evidente que
não seja casual que aquela de Roma seja a única grande Igreja que manteve em
seu nome oficial o adjetivo “católica” e também que seja a única que fez
do papado — que desde sempre declarou estar a serviço da unidade cristã — o
pivô institucional de todo o edifício católico romano, inclusive fazendo
dele, com o Vaticano I, um dogma, isto é, um artigo de fé.
Mas aconteceu, na história da Igreja, que justamente o papado tenha se tornado ocasião e até mesmo artífice ou concausa de divisão entre cristãos nos séculos XI, XVI e novamente no século XIX; e seja ainda hoje um dos maiores obstáculos para a recomposição da unidade cristã, independentemente das pessoas que desempenham aquele papel. Precisamente porque a Igreja de Roma manteve mais do que todas as outras a consciência de sua universalidade e sempre considerou que o papado fosse uma instituição “a serviço da unidade cristã” (e não apenas a serviço da unidade católica romana), parece-me que a ela cabe a tarefa repensar radicalmente o papado — tratar-se-ia realmente de refundá-lo — para realmente fazer dele um instrumento a serviço da unidade dos cristãos, e não só daquela católica, como tem sido até agora, há mais de mil anos.
Papas João Paulo II (à esquerda) e Francisco (à direita) |
Como imaginar uma tarefa tão árdua?
Paolo Ricca: Não é fácil imaginar se e como essa refundação poderia ser possível. Mas é fato que dois papas, João Paulo II e Francisco, falaram publicamente em documentos oficiais de uma necessária e desejável “conversão de Pedro”, referindo-se obviamente não à pessoa dos pontífices, mas à instituição que eles representam. Se essa “conversão” (palavra extremamente exigente!) realmente acontecesse, sem dúvida abriria novas perspectivas inéditas na história do papado.
Já que estamos no tema do ecumenismo, para o
desenvolvimento do qual o senhor muito contribuiu, permita-me uma pergunta que
espero não ser apenas uma curiosidade. O que o Pastor Ricca aprecia
particularmente na tradição católica e na ortodoxa e qual considera o dom mais
precioso que a tradição protestante pode oferecer aos cristãos do nosso tempo?
Paolo
Ricca: Da tradição católica aprecio o esforço para
manter unidas universalidade e unidade herdada do Império Romano (mas sem
recorrer ao exército!) dois grandes valores humanos e cristãos, porque a
humanidade é uma só apesar de ser diferente, e é a mesma em todos os lugares,
mesmo com todas as diferenças que a distinguem.
Também no âmbito do Conselho Ecumênico das Igrejas se vivem esses dois valores, mas a Igreja Católica persegue-os de maneira sistemática, embora dentro da sua parcialidade confessional. Da tradição ortodoxa, sobretudo a liturgia que parece ter sido composta no limiar entre a terra e o céu, entre tempo e eternidade, e que na sua celebração empenha admiravelmente todos os cinco sentidos humanos, envolvendo, juntamente com a alma, também o corpo, “templo do Espírito” (1 Coríntios 6,19). Da tradição protestante, o dom mais precioso é, sem dúvida, a centralidade e autoridade superior reconhecida à Escritura para a vida da Igreja e da fé. Mas também uma sinodalidade não episódica, mas congênita à própria Igreja, que a vive em estruturas permanentes de governo e de tomada de decisões.
Que passos foram dados especialmente depois do Concílio e
quais são os principais nós a desatar para ter uma partilha mais plena entre
cristãos de diferentes confissões? Também uma hospitalidade da Eucaristia que
para tantos batizados certamente não seria um problema?
Paolo Ricca: Depois do Concílio, além do clima geral de relação entre as Igrejas, melhorou enormemente a qualidade das relações também e precisamente no nível de base. A hospitalidade eucarística é uma possibilidade real que, no entanto, ainda é proibida pelas autoridades católicas e está completamente excluída – eu diria quase execrada! – pelas Igrejas Ortodoxas que a consideram uma prática herética. No entanto, como explica a bela palavra “hospitalidade”, no fundo nada mais é do que reconhecermos juntos que, à mesa do Senhor, todos somos convidados por Ele! E, como diz a liturgia católica, nenhum de nós é digno de aproximar-se daquela mesa, nem ousaria aproximar-se se não tivesse ouvido o convite que Jesus dirige a todos, até a Judas! Talvez nenhuma Igreja tenha ainda refletido o suficiente sobre o fato, testemunhado por todos os Evangelhos, que Jesus quis celebrar a Última Ceia também com Judas. É provável que se essa reflexão acontecesse, tantas barreiras não poderiam deixar de desaparecer.
Vou me manter sobre a atualidade. No país onde governa
uma mãe cristã [a
primeira-ministra Giorgia Meloni], acontece que a 100 metros da costa de
Cutro afunda um barco e com ele a vida de tantas pessoas, sobretudo meninas e
meninos. Fome, guerras, mudanças climáticas e regimes opressivos empurram
milhões de pessoas a migrações justamente bíblicas. Existe uma palavra que não
soe retórica e que como cristãos, podemos dizer com credibilidade?
Paolo Ricca: A única palavra que poderia não soar retórica na situação ilustrada pela tragédia de Cutro é uma confissão de pecado por parte do povo italiano cuja maioria ainda se declara cristã e que confiou a direção do país a um governo incapaz de reconhecer seus próprios erros ou suas próprias deficiências que, indubitavelmente, contribuíram para a ocorrência daquela tragédia.
GIORGIA MELONI é primeira-ministra da Itália desde 22 de outubro de 2022 |
Em seu texto
[Dio. Una apologia = Deus: uma apologia], o senhor aborda desde o
início todas as principais objeções do pensamento moderno à fé em Deus. Quantas
delas contribuíram para purificar a imagem de Deus que dominou por séculos no
ambiente cristão? Depois disso, permaneceu o mistério da existência, também
para a filosofia (por que o ser e não o nada?), que legitima a razoabilidade do
desafio teológico. Mas a tarefa da teologia não seria talvez eliminar as falsas
imagens de Deus mais que as construir em positivo? Nesse sentido, não é uma
espécie de “gaia ciência”?
Paolo
Ricca: Que eu saiba, a Europa é o único continente do mundo no
qual, aproximadamente a partir do século XVII em diante, houve uma crítica à
religião, portanto sobretudo ao cristianismo, que não é excessivo definir
implacável ou feroz, mesmo que uma parte das críticas objetivassem mais as
Igrejas do que a Deus. A contestação foi, em certo sentido, benéfica porque geralmente
tratou-se de críticas sérias e, em parte, fundadas. No entanto, elas
documentavam um desafeto crescente e generalizado pelo cristianismo e obrigaram
os cristãos a iniciar um processo de autocrítica duplo:
*
aquele da distância entre a mensagem cristã e a vivência cristã, e
* aquele da coerência (ou não!) entre a atual doutrina e práxis cristãs e o ensinamento e a vida de Jesus de Nazaré, em cujo nome ainda hoje a Igreja fala e age.
E é também tarefa da teologia?
Paolo
Ricca: Essa é também, em todas as épocas, a tarefa da teologia:
não a de fazer a apologia da Igreja assim como é, independentemente do que
diga ou faça, à insígnia de um fatal “a Igreja tem sempre razão”, que seria uma
espécie de suicídio da teologia; sua função é ser uma sentinela, que
incansavelmente esforça-se por reconduzir a Igreja ao seu “primeiro amor”, tão
fácil de abandonar, como já aconteceu no século I à Igreja de Éfeso
(Apocalipse 2,4), ou seja, reconduzi-la àquela Palavra evangélica da qual
nasceu e graças à qual vive e sempre de novo revive. Tota vita et
substantia ecclesiae est in verbo Dei (Lutero): “Toda a vida e substância
da Igreja está na palavra de Deus”.
Nesse sentido, a teologia que
vive na Palavra e a seu serviço, não pode deixar de ser também uma “gaia
ciência” [= corresponde à habilidade técnica e ao espírito livre, portanto
ao saber alegre, o conhecimento que ri], na esteira desta bela afirmação de Karl Barth (1934):
“Entre todas as ciências, a teologia é a mais bela, aquela que põe a mente e o coração em movimento no maior número de direções; aquela que mais se aproxima da realidade humana e proporciona o olhar mais claro sobre a verdade que toda ciência busca; aquela que mais se aproxima daquilo que o nobre e profundo nome de ‘Faculdade’ significa: uma paisagem com as perspectivas mais distantes ainda nítidas como as da Úmbria ou da Toscana, e uma obra de arte tão superior e tão bizarra como a catedral de Colônia ou Milão. Pobres teólogos ou pobres tempos na teologia aqueles que não tivessem notado nada de tudo isso!”
Deus é uma palavra que os homens carregaram de muitos
significados, sobre os quais projetaram tantos desejos, que tentaram capturar
fazendo dela um ídolo. E, por outro lado, dentro da mesma Escritura existem
diferentes imagens de Deus. Como se regular como cristãos? E como ler de forma
madura e inteligente a Bíblia?
Paolo
Ricca: É verdade que na Bíblia existem várias imagens de Deus, mas no
final só existe uma: Jesus. É ele “a imagem do Deus invisível”
(Colossenses 1,15; 2 Coríntios 4,4). “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho
unigênito [...] é quem o deu a conhecer” (João 1,18). Jesus, a sua
história, a sua vida e o seu ensinamento, são o espelho no
qual vemos refletida a realidade profunda de Deus.
Não é por acaso que o segundo dos
Dez Mandamentos é a proibição de se fazer uma imagem de Deus (seja que for),
justamente porque o Deus que imaginamos é sempre um Deus imaginário, uma
construção de nossos desejos ou das nossas frustrações ou medos:
*
Nenhum de nós jamais teria imaginado um Deus humano, teríamos desejado que ele
fosse o mais divino possível;
*
não teríamos imaginado um Deus que nunca é tão divino como quando se torna
homem;
*
nunca poderíamos ter pensado que Deus pudesse e quisesse ser homem mortal;
*
que o Criador quisesse se tornar criatura.
Mas é o que aconteceu e nos leva a dizer que a única imagem de Deus é Jesus.
TRAGÉDIA DE CUTRO, costa da Calábria, na Itália: cerca de 200 pessoas morreram, dentre elas, várias crianças e mulheres (fevereiro de 2023) |
Na fase que alguém definiu como “agnosma” difusa,
indiferença, colocação de Deus em stand by, onde não há mais
contraposição militante em relação à religião (neste sentido penso que se possa
dizer que o ateísmo também está em crise, para usar uma brincadeira: não existem
mais os ateus de antigamente) por onde recomeçar a proclamar o Evangelho? Qual
é o específico cristão que o subtrai à única dimensão ética, em relação à qual
o cristianismo pode também ser útil, mas certamente não é necessário? Eu ouvi o
senhor falar sobre a crise da fé de um abandono por parte de muitos daquilo que
não conhecem. Achei uma expressão muito interessante. Pode explicar o que quer
dizer?
Paolo
Ricca: É verdade que muitos pensam que Deus é tão insignificante que
nem vale a pena se esforçar para negar sua existência: o fato dele existir ou
não existir, não mudaria nada. Em vez disso, tudo muda. Aliás, na primeira
década do século XXI assistimos a um ressurgimento do ateísmo militante,
com o qual não estamos acostumados há muito tempo. Richard
Dawkins, ilustre homem da ciência, escreveu em 2006 um grande livro de
400 páginas intitulado The God Delusion (Deus, um Delírio –
Companhia das Letras, 2007), e publicou-o com uma expectativa que o próprio
autor formula nestes termos: “Se este livro funcionar do modo como espero, os
leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem”. Quem
conhece a língua inglesa sabe que delusion é, sim, parente de ilusão,
mas também significa, além de “ilusão”, também “mania”, “fixação”.
O autor especifica ainda mais sua
ideia dizendo que, de acordo com o dicionário Microsoft Word, delusion
indica uma crença falsa que persiste apesar das fortes evidências contrárias,
particularmente como um sintoma de transtorno psiquiátrico, e concorda com um
escritor estadunidense que diz: “A ilusão de que uma pessoa é vítima chama-se
doença mental; a ilusão de que muitos são vítimas chama-se Religião”. Lendo
esses discursos de nem vinte anos atrás, não parece que o ateísmo esteja em
crise ou tenha parado de procurar prosélitos.
Mas qual Deus (deus) combatem
esses “ateólogos”? Precisamente esse livro, como tantos outros do mesmo
teor publicados depois de 2000 (por exemplo: Christopher Hitchens, Deus não
é grande. Como a religião envenena tudo, Globo Livros, 2016. Daniel C.
Dennett, Quebrando o Encanto. A religião como fenômeno natural, Globo,
2012.) portanto, em nosso século, demonstram que esses autores combatem
contra um Deus que tem pouco ou nada a ver com o Deus que aprendemos a conhecer
pelo menos “em parte” (1 Coríntios 13,9), através de sua história
narrada na Bíblia e, mais do que nunca, através de Jesus de Nazaré.
Richard Dawkins declara expressamente que combate o Deus do Antigo Testamento, definido como “um valentão misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, nocivo, megalomaníaco, sadomasoquista e maligno segundo o seu capricho” (p. 38). Inútil dizer que um Deus desse tipo não tem nada a ver com o Deus do Antigo Testamento, que foi também aquele de Jesus. O Deus como Dawkins o vê e descreve está tão longe da realidade de Deus que não consegue nem mesmo ser uma sua grotesca caricatura.
Mas, os cristãos, eles também conhecem bem, tanto quanto
é possível, o que eles chamam de Deus?
Paolo
Ricca: Infelizmente, também no âmbito cristão há uma grande
ignorância sobre Deus, até porque a própria Igreja pouco fala sobre esse
tema. Assume que é conhecido e, portanto, não o ensina. A própria
instrução catequética, em geral, é insuficiente. Contentamo-nos com um
conhecimento superficial. Prega-se mais o amor ao próximo do que o amor a Deus,
de modo que nem um nem outro é obtido; segundo Jesus, o amor a Deus é o
fundamento e a razão do amor ao próximo.
Hoje reina na Igreja a Diaconia [=
o serviço aos outros, especialmente aos mais necessitados]. Grande importância
é dada ao imposto de 8/1000 repassado das declarações de renda. A diaconia é
necessária e indispensável, mas não é o tema da pregação cristã. Jesus fez
diaconia de manhã à noite, todos os dias, incluindo o sábado (transgredindo
a Lei!). Mas nunca fala sobre isso. Fala do Reino de Deus próximo, conta as
parábolas do Reino.
A Igreja deve falar sobre isso: FAZER muita diaconia, mas FALAR
sobre reino de Deus próximo. É esse, somente esse, o tema da pregação
cristã.
Alguém falou anos atrás de uma amnésia escatológica do cristianismo. De um desvio da balança para o “já” que gradualmente se livrou do “ainda não”, a dimensão do além meta-histórico e também metafísico.
O que pensa sobre isso? E não é possível que a remoção progressiva
do além meta-histórico tenha enfraquecido o empenho em realizar outros além
históricos na direção da justiça? Afinal, a fé na ressurreição não é uma
espécie de continuação da luta pela justiça por outros meios?
Paolo
Ricca: O problema levantado por essa questão agudizou-se na
Modernidade, mas começou muito antes. Já no grande Credo
niceno-constantinopolitano (325 e 381), chamado ecumênico (e em certo
sentido o é), fala-se de um “Reino que virá” (sabe-se lá quando, num
futuro indeterminado), mas Jesus falava do Reino “que vem”, no presente.
Seu aparecimento, segundo Jesus, não estava longe, mas iminente. No entanto, ainda
é uma vida após a morte que se aproxima, mas ainda está por vir e por isso,
no Pai Nosso (única oração ensinada por Jesus) é invocado.
Na consciência do cristão europeu
médio de hoje, a vida após a morte não existe: aparece na sua consciência
apenas por ocasião dos funerais. É verdade, e também significativo, que a
Bíblia é muito sóbria em seu discurso sobre a vida após a morte, e
também Jesus insistiu muito, especialmente no Evangelho de João, no aqui e
agora do juízo final individual na escolha entre fé e descrença (João 3,18-19.36);
a vida eterna começa aqui, com as três “coisas que duram”: fé,
esperança, amor (1 Coríntios 13,13). E Bonhoeffer
falou com autoridade de “transcendência da vida aquém a morte”.
Mas é um fato — para retomar o pensamento formulado na pergunta — que hoje a balança cristã está toda “desequilibrada” para o “aquém/já” e a dimensão do “ainda não” é amplamente ignorada e talvez secretamente considerada alienante.
O silêncio sobre a vida após a
morte é um aspecto do silêncio mais amplo sobre Deus, que paradoxalmente
caracteriza a cristandade de hoje que fala de tudo menos de Deus. O silêncio
sobre a vida após a morte é um grande empobrecimento da proclamação cristã,
uma atrofia da esperança que animava os primeiros cristãos e em particular os
mártires da fé, uma sufocante contração do horizonte que Jesus e Paulo
revelaram precisamente com a mensagem da ressurreição.
A vida após a morte é
efetivamente o mundo da ressurreição. Não saberia dizer se a fé na
ressurreição também possa ser vista “como uma espécie de continuação da luta
pela justiça por outros meios”, porque a ressurreição é a obra suprema de
Deus que supera toda nossa imaginação e capacidade, é a “possibilidade
impossível” exclusiva de Deus.
Aquilo de que estou certo é que a ressurreição é a conclusão vitoriosa da luta de Deus contra a morte e as milhares de sombras que lança sobre o nosso mundo e sobre as nossas vidas e, portanto, é a vitória da justiça de Deus, que não condena o ímpio, mas o redime, não o abandona na morte, mas lhe abre as portas da vida eterna.
Prezado Pastor, ao final desta entrevista, na qual muito
se falou sobre o silêncio sobre Deus, gostaria de lhe perguntar como é possível
treinar ouvidos, olhos e coração para a escuta de Deus, visto que, como o
senhor escreve, a questão não é tanto que Deus exista, mas que Deus fala,
busca, faz história conosco, é força vital.
Paolo
Ricca: Respondo a essa pergunta com Dietrich
Bonhoeffer que em uma de suas últimas cartas da prisão – a de 21 de
agosto de 1944 – na qual, comentando o versículo bíblico de 2 Coríntios 1,20,
escreve: “Efetivamente, tudo depende do ‘estar nele’ [isto é, em Jesus Cristo].
Tudo o que nos é lícito esperar e implorar a Deus, encontra-se em Jesus
Cristo. O Deus de Jesus Cristo não tem nada a ver com tudo o que um Deus
como nós o imaginamos deveria ou poderia fazer. Temos que mergulhar sempre
de novo, por longo tempo e com muita serenidade na vida, na palavra, na ação”.
A resposta, portanto, à pergunta é: ouvidos, olhos e coração são treinados para a escuta de Deus, imergindo-se na história de Jesus, que é “o caminho” (João 14,6): tanto o caminho de Deus para nos alcançar quanto o nosso caminho para chegar a Deus.
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini. Editado e corrigido por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo. A versão original está disponível aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 5 de junho de 2023 – Internet: clique aqui (Acesso em: 05/06/2023).
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