Perigo!!!
O colapso atual da ética
Leonardo
Boff
Teólogo, filósofo e escritor brasileiro
LEONARDO BOFF |
A
justiça não vale apenas entre os seres humanos, mas também em relação à
natureza e à Terra
Temos vivido e sofrido no Brasil tempos sombrios sob o governo de Jair Bolsonaro, onde a ética foi enviada ao limbo e tudo praticamente valia (as fake news, as mentiras, a pregação da violência e a exaltação da tortura). Nos dias atuais, assistimos, desolados, a guerra entre Rússia e Ucrânia. Esta guerra representa a negação de todos os valores civilizatórios, pois uma grande potência nuclear está literalmente destruindo uma pequena nação e seu povo.
Sem perder de vista os dois dados
acima referidos, percebo dois fatores principais, entre outros, que atingem o
coração da ética: a globalização do capitalismo depredador e a
mercantilização da sociedade.
1)
A mundialização do capitalismo, como modo de produção e sua expressão
política, o neoliberalismo, mostrou as consequências perversas da
ética capitalista:
*
seus eixos estruturantes são o lucro ilimitado, acumulado individualmente
ou por grandes corporações,
*
a concorrência desenfreada,
*
o assalto aos bens e serviços da natureza,
*
a flexibilização das leis [que protegem o trabalhador] e
*
a minimização do Estado em sua função de garantir uma sociedade
minimamente equilibrada.
Tal ética é altamente conflitiva porque não conhece a
solidariedade, mas a concorrência que faz de todos adversários, senão
inimigos a serem vencidos.
Bem diferente, por exemplo, é a ética da cultura maia. Esta coloca tudo centrado no
coração, já que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes corações, do
Céu e da Terra. O ideal ético é criar, em todas as pessoas, corações
sensíveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a ética do “bien vivir y convivir” dos andinos,
assentada no equilíbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a
natureza e com o universo.
A globalização, interrelacionando
todas as culturas, acabou também por revelar a pluralidade dos caminhos éticos.
Uma de suas consequências está sendo a relativização geral dos valores
éticos. Sabemos que a lei e a ordem, valores da prática ética fundamental,
são os pré-requisitos para qualquer civilização em qualquer parte do mundo.
O que observamos é que a humanidade está cedendo diante da barbárie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal é o descalabro ético que estamos vendo.
Edição brasileira de março de 2021, publicada pela editora Contraponto (RJ) |
2)
O segundo grande obstáculo à ética é a mercantilização da sociedade,
conforme descrito por Karl Polanyi em 1944 como
“A grande transformação”. É a transição de uma economia de mercado para uma
sociedade completamente mercantilizada.
Tudo é transformado em
mercadoria, como previsto por Karl Marx em
seu texto “A miséria da filosofia” de 1848, referindo-se ao tempo em que coisas
sagradas, como a verdade e a consciência, seriam levadas ao mercado; o “tempo
da grande corrupção e da venalidade universal”. Infelizmente, vivemos nesse
tempo.
A economia, especialmente a especulativa, dita os rumos da política e da sociedade como um todo, gerando um profundo abismo entre os poucos ricos e as grandes maiorias empobrecidas. Essa realidade revela traços de barbárie e crueldade como poucas vezes na história.
Qual ética para os tempos de hoje?
Qual é a ética que pode nos
orientar como humanidade que vive na mesma Casa Comum? É aquela ética que
se baseia em nossa especificidade enquanto seres humanos e, por isso, é
universal e pode ser adotada por todos.
CUIDADO
Acredito que, em primeiro lugar, é a ética do cuidado. De acordo com a fábula 220 do escravo Higino, bem interpretada por Martin Heidegger em “Ser e tempo” e detalhada por mim em “Saber cuidar”, ela constitui o substrato ontológico do ser humano, ou seja, o conjunto de fatores objetivos sem os quais jamais surgiriam seres humanos e outros seres vivos.
Pelo fato de o cuidado ser da
essência do humano, todos podem vivê-lo e dar-lhe formas concretas, segundo as
diferentes culturas. O cuidado pressupõe uma relação amigável e amorosa para
com a realidade, da mão estendida para a solidariedade e não do punho
cerrado para a competição.
No centro do cuidado está a vida. A civilização deverá ser
bio-sociocentrada.
SOLIDARIEDADE
Outro dado de nossa essência
humana é a solidariedade e a ética que daí deriva. Sabemos hoje pela
bioantropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antropoides que
permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os
alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e
existe um mínimo de solidariedade, começando pela família. O que foi
fundador ontem continua sendo-o ainda hoje.
RESPONSABILIDADE
UNIVERSAL
Outro caminho ético, ligado à
nossa estrita humanidade, é a ética da responsabilidade universal. Ser
responsável é dar-se conta das consequências benéficas ou maléficas de
nossos atos pessoais e sociais. Ou assumimos juntos responsavelmente o
destino de nossa Casa Comum ou então percorreremos um caminho sem retorno. Somos
responsáveis pela sustentabilidade de Gaia [nosso planeta, a mãe-Terra] e
de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a
comunidade de vida.
O filósofo Hans Jonas que, por primeiro, elaborou “O princípio
responsabilidade”, agregou a ele a importância do medo coletivo. Quando
este surge e os humanos começam a dar-se conta de que podem conhecer um fim
trágico e até de desaparecer como espécie, irrompe um medo ancestral que os
leva a uma ética de sobrevivência.
O pressuposto inconsciente é que o VALOR DA VIDA está acima de
qualquer outro valor cultural, religioso ou econômico.
JUSTIÇA PARA TODOS
Importa também resgatar a ética
da justiça para todos. A justiça é o direito mínimo que tributamos ao
outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como
pessoa: dignidade e respeito. Especialmente as instituições devem ser justas e
equitativas para evitar os privilégios e as exclusões sociais que tantas
vítimas produzem, particularmente no Brasil, um dos mais desiguais, vale dizer,
mais injustos do mundo. Daí se explica o ódio e as discriminações que
dilaceram a sociedade, vindos não do povo, mas daquelas elites
endinheiradas que não aceitam o direito para todos, mas querem preservar
seus privilégios.
A justiça não vale apenas entre
os humanos, mas também para com a natureza e a Terra, que são portadoras de
direitos e, por isso, devem ser incluídas em nosso conceito de democracia
socioecológica.
SOBRIEDADE
Por fim, devemos incorporar uma ética da sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China: “uma sociedade moderadamente abastecida”. Isso significa um ideal mínimo e alcançável.
Estes são alguns parâmetros fundamentais para uma ética válida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Caso contrário, poderemos conhecer um armagedon social e ecológico.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 12 de maio de 2023 – Internet: clique aqui (Acesso em: 05/06/2023).
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