Solenidade da Santíssima Trindade – Ano A – Homilia
Evangelho: João 3,16-18
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus: expressão do amor de Deus pela
humanidade
A imagem de um Deus que julga e depois condena é típica de todas as religiões, um Deus que recompensa os bons, mas pune os maus. Esta imagem de Deus está completamente ausente em Jesus; realmente Jesus desmente a imagem de um Deus que julga e condena. Vamos ouvir o que João nos escreve, no capítulo 3, versículos 16 a 18. O contexto é o do discurso com o fariseu Nicodemos — os fariseus estavam esperando que o messias fosse uma expressão do julgamento divino — Jesus diz que não.
João 3,16:
«Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho
unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.»
Jesus se declara uma expressão do amor de Deus pela humanidade — Deus expressa seu amor dando seu filho. Crer não significa aderir a uma doutrina, mas significa aderir a uma pessoa, à sua mensagem, neste caso a Jesus. Pela segunda vez, neste capítulo, aparece um tema muito caro ao evangelista, o da vida eterna. Os fariseus pensavam na vida eterna como uma recompensa a ser obtida no futuro, pelo bom comportamento na vida presente; para Jesus, ao contrário, é uma condição no presente. A vida é chamada de eterna não tanto por sua duração indefinida, mas por sua qualidade indestrutível.
João 3,17: «De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.»
O verbo não é julgar (condenar), o verbo grego
usado pelo evangelista significa: proferir uma sentença, portanto não
é condenar.
Jesus veio oferecer
ao homem uma alternativa de vida, uma possibilidade de crescimento, de plena
realização da sua existência.
João 3,18: «Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está
condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.»
“Quem nele crê” — continua Jesus —
“não é condenado/julgado”, portanto a imagem de um julgamento
da parte de Deus está ausente na mensagem de Jesus: não se enfrenta nenhum
julgamento e, portanto, nenhuma condenação, “mas quem não crê, já está
condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito”. E aqui precisamos
acrescentar dois versículos que, na versão litúrgica, não existem, senão
não se entende o que Jesus quer dizer, parece uma contradição.
«Ora, o julgamento consiste nisso: a luz veio
ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras
eram más. Com efeito, todo o que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da
luz, para que suas obras não sejam denunciadas (Jo 3,19-20).»
Jesus continua dizendo que o julgamento é este: “a luz veio ao mundo”, e então conclui “todo o que pratica o mal odeia a luz”. Não há julgamento de Deus, há oferta de vida, aqui retratada como a luz, cabe ao homem sentir-se atraído por essa luz e fazer parte do cone do amor e da salvação, mas quem faz o mal, já se sabe, odeia a luz. Quem faz o mal quer a escuridão e por isso se esconde ainda mais na escuridão, a imagem da morte. Então não é um julgamento da parte de Deus que rejeita a pessoa, mas é a pessoa que, por seu próprio interesse, por sua conveniência — isso é o mal — rejeita a oferta de plenitude de vida de Deus. Deus não pode fazer outra coisa que fazer brilhar, ainda mais, a sua luz, porém para quem cria a escuridão isso é uma ameaça, é algo que o cega, é algo que ele odeia. Assim, o convite do evangelista é realizar diariamente ações de luz para poder entrar em plena harmonia e comunhão com aquele Deus que é luz e que é amor.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão PessoalPe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Deus
é mistério em si mesmo e para si mesmo. Para os cristãos trata-se de um
mistério de comunhão e não de solidão. É a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho
e o Espírito Santo.»
(Leonardo Boff — teólogo, filósofo e escritor
brasileiro)
A melhor e maior notícia que a solenidade de hoje — Santíssima Trindade — nos traz é justamente esta: Deus é Trindade, por isso, ele é um mistério de amor. Em sua mais profunda intimidade, Deus é amor, acolhida e ternura! Isso, à primeira vista, pode parecer óbvio e já sabido!
No entanto, retrocedendo aos tempos antigos, antes de Cristo, o Deus ou os deuses que eram venerados e cultuados não tinham quase nada a ver com amor, acolhimento, ternura e misericórdia. Pelo contrário, o costume era ressaltar as qualidades de “todo-poderoso” e “eterno”. A descrição da divindade, muitas vezes, se identificava com autoritarismo, tirania, castigo, violência etc. No entanto, o Deus de Jesus, o Deus que ele nos revela não tem nada a ver com essas imagens divinas!
A mudança que Jesus realiza é imensa: de um Deus considerado como PODER, a um Deus adorado alegremente como Amor! Isso tudo é consequência de nosso Deus ser Trino e não Uno e não sozinho! Sendo Trino, Deus se revela como comunhão: Deus, o Pai, nos ama tanto, que nos enviou seu Filho, Jesus, para que, pela força do Espírito Santo, possamos alcançar nossa própria humanidade, a qual reside na bondade, na ternura na fraternidade! Conforme observa José María Castillo, “necessitamos de Deus. Necessitamos desse Deus... No carinho mútuo, nós o encontramos”. Uma fé fundamentada nesse Deus Uno e Trino muda tudo! Muda a pessoa que crê e, por conseguinte, mediante o seu testemunho de amor e misericórdia, muda o ambiente ao seu redor, também.
Mas Deus não é
onipotente? Ele não tem o máximo poder? Ele não é o senhor de tudo e de todos?
A essas interrogações somente cabe uma resposta, aquela dada pela vida e pregação
de Jesus de Nazaré:
«É o amor de Deus que é onipotente. Deus não pode fazer
tudo. Deus só pode fazer o que o amor infinito pode. E sempre que
esquecemos disso e saímos da esfera do amor, criamos um Deus falso, uma espécie
de ídolo estranho que não existe» (J. A. Pagola).
Deus é só Amor e não pode fazer outra coisa a não ser amar-nos! Nisso se resume o mistério da Trindade.
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Senhor, Deus todo-poderoso, eterno e
inefável, sem fim nem princípio, Deus que confessamos uno na Trindade e trino
na unidade, só a ti adoro, louvo, bendigo, glorifico. A ti, misericordioso e
bondoso, dou graças por me libertares da noite da infidelidade e do erro e me
permitires tornar-me participante da tua graça. Por favor, Senhor, completa a
obra de tua misericórdia que começaste em mim. Concede-me sempre pensar, falar
e agir como quiseres; guarda-me em todos os lugares com seu amor gratuito e
deixe-me, embora indigno e miserável, chegar à tua visão. Amém.»
(Fonte: Alcuino, De psalmorum usu liber I;
PL 101, 468. In: Santissima Trinità: orazione finale. In: CILIA, Anthony O.Carm
[a cura di]. Lectio Divina sui vangeli festivi: per l’anno liturgico A. Leumann
[TO]: Elledici, 2010, p. 316)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni –Santissima Trinità – Anno A – 7 giugno 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 31/05/2023).
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