3º Domingo da Páscoa – Ano B – Homilia
Evangelho: Lucas 24,35-48
Frei
Alberto Maggi *
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Somos testemunhas de um Cristo
vivo, que deseja a mudança de mentalidade e o perdão
Se nenhum evangelista nos descreve a ressurreição de Jesus, todos nos dão indicações preciosas sobre como experimentá-lo vivo e vivificante em nossas vidas. A experiência da ressurreição de Cristo não foi um privilégio para poucos, mas uma possibilidade para todos. Lucas, e aqui estamos no final do seu evangelho, capítulo 24, insiste no verbo “reconhecer no partir do pão”. O que Lucas nos descreve não é uma visão, mas uma experiência, um reconhecimento. São os discípulos de Emaús que regressam, encontram os outros e contam como o reconheceram ao partir o pão. Por que na fração do pão? É Jesus quem na Última Ceia, no Evangelho de Lucas, depois de ter partido o pão e oferecido aos seus seguidores, disse: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Na celebração da Eucaristia, o Senhor Jesus torna-se presente, manifesta-se. Pois nela se dá a dinâmica de amor recebido e de amor comunicado.
Lucas 24,35-36:** «Os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!”»
“Enquanto falavam destas coisas” – escreve o evangelista – “Jesus esteve entre eles” [o verbo “apareceu”, como consta na tradução do Lecionário Dominical não é a melhor opção, pois no original é empregado o verbo “ser, estar”]. É característico de Jesus ressuscitado que quando se manifesta se coloque no centro; ele não se coloca nem na frente nem acima, mas no centro para que todos tenham a mesma relação com ele; não há hierarquias de importância, de quem vem primeiro e de quem vem depois. E a primeira palavra que Jesus dirige a estes discípulos é: “Paz a vós!”. Também aqui, como no Evangelho de João, esta expressão não manifesta um desejo, pois Jesus não diz: “A paz esteja convosco!” [como consta no Lecionário Dominical], mas expressa um dom. Sabemos que a paz na cultura judaica indica tudo o que contribui para a plenitude da vida, felicidade, bem-estar, trabalho e saúde. Pois bem, Jesus ressuscitado dá esta paz, mas não é apenas um dom, é a prova do seu amor por eles; por isso o evangelista diz que Jesus, depois, mostrará as mãos e os pés que trazem os sinais da crucificação, o amor que o levou a dar a vida pelos seus.
Lucas
24,37-41a: «Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que
estavam vendo um fantasma. Mas Jesus disse: “Por que estais preocupados, e
porque tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai
em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu
tenho”. E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas eles ainda não
podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos.»
Mas os discípulos ficam chocados, acreditam que veem um “espírito”, e não é a palavra “fantasma” que está no original grego, como aparece na tradução do Lecionário Dominical. O evangelista fala “espírito” porque não conseguem acreditar que uma pessoa possa continuar viva após ter passado pela morte, e também porque imediatamente surgiu um boato de que não foi Jesus quem crucificaram, ele teria se salvado. Por isso, insiste o evangelista, e aqui há três imperativos um após o outro, “olhar, tocar” e novamente “olhar”. Jesus ordena olhar para as mãos e os pés que conservam as marcas dos cravos, sinais da sua paixão. É o mesmo Jesus que passou pela morte!
Lucas
24,41b-43: «Então Jesus disse: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe
um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles.»
O que quer dizer o evangelista com a cena em que Jesus come, ou melhor, lhes pede para comer? Que ele não é um espírito, mas sim uma pessoa com condição divina. Isto não anula a fisicalidade, mas a expande, transforma, transfigura. São Paulo, tomando esta teologia, desenvolve-a e, na Primeira Carta aos Coríntios (15,44), falará de “um corpo animal” que é sepultado e ressuscita um “corpo espiritual”; é sempre um corpo, não é uma alma, um espírito, mas é um corpo com outra dimensão.
Lucas
24,44-45: «Depois disse-lhes: “São estas as coisas que vos falei quando
ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito
sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então Jesus abriu a
inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, ...»
E
então Jesus, como fez com os discípulos de Emaús aos quais interpretou as
Escrituras, aqui abre suas mentes para o entendimento (vers. 45). Por
quê? Tal como aconteceu com os discípulos de Emaús, a Escritura não deve
apenas ser lida, mas também interpretada; é preciso abrir a mente e
colocá-la em sintonia para interpretar corretamente o que está contido na
Escritura com o mesmo Espírito que a inspirou. E qual é o Espírito que inspirou
a Escritura?
O amor incondicional do criador pelas suas criaturas, este é
o critério interpretativo de toda Sagrada Escritura.
E o que Jesus lhes faz compreender? Estes discípulos, na Escritura, tinham selecionado, apenas, aqueles aspectos que falavam do Messias triunfante, do Messias glorioso, do Messias vitorioso e negligenciaram aqueles que falavam do Messias desprezado, do Messias perseguido.
Lucas
24,46-48: «... e lhes disse: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e
ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome, serão anunciados a
conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. Vós
sereis testemunhas de tudo isso”.»
E, aqui, está o mandato final de Jesus, que pede que “no seu nome sejam anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todos as nações”, portanto também às nações pagãs. A conversão não é uma conversão ao Senhor, mas uma mudança de mentalidade que, em seguida, coincide com uma mudança de comportamento, uma mudança de vida. E quando fala de “perdão dos pecados”, não se trata de culpa, mas de passado injusto. Há um acréscimo muito significativo da parte de Jesus: “começando por Jerusalém”. É Jerusalém, sede da instituição religiosa que matou Jesus por conveniência e interesse, a que mais necessita de conversão e perdão dos pecados!
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Não
é bastante amar, é preciso prová-lo!»
(Santa Teresa do Menino Jesus: 1873-1897 ― religiosa
carmelita francesa e Doutora da Igreja)
A grande mensagem que nos propõe o Evangelho deste domingo é que Jesus nos quer e necessita que sejamos suas “testemunhas” neste mundo, contagiando a todos com a sua Boa Notícia, o seu Evangelho! No entanto, o contraste com a atitude de seus discípulos neste texto evangélico é gritante:
a) os discípulos permanecem calados em toda a
cena;
b) em seu íntimo, eles sentem medo,
incompreensão e possuem muitas dúvidas;
c) tudo parece muito lindo, mas estão
incrédulos diante do Ressuscitado.
A falta de fé e a ausência de uma verdadeira experiência com Jesus ressuscitado são os motivos para tantas preocupações e dúvidas em seus corações! Porém, isto não é algo que se passou, apenas, com os primeiros discípulos de Jesus. Este segue sendo o motivo para que tantas pessoas que se dizem cristãs, batizadas e membros da Igreja não manifestem ao mundo o Evangelho, a Boa Nova de Cristo! Afinal, ninguém pode dar aquilo que não tem! Se muitos de nós, cristãos, não possuímos uma fé forte e bem alicerçada, não fizemos uma experiência pessoal viva e profunda com o Cristo, não podemos ser suas testemunhas neste mundo, como ele nos pede ao final do Evangelho deste domingo.
E
qual é o segredo para não cairmos no mesmo equívoco de seus primeiros
discípulos? O Evangelho nos fornece as respostas, vejamos:
* Ter certeza de que o Ressuscitado está
sempre em meio à sua comunidade reunida: “o próprio Jesus apareceu no
meio deles” (vers. 6).
* Jesus somente pode ser reconhecido
pela sua comunidade se esta “olhar” suas mãos e seus pés. Isto significa que não
podemos jamais nos esquecer de que o nosso Salvador, o nosso Senhor, o nosso
Messias é um Deus crucificado! Portanto, termos sempre a memória do amor
doado até a morte e da comunhão com os sofridos e crucificados do mundo:
“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (vers. 39a)
* Jesus não é, apenas, um espírito, um ser
espiritual, mas alguém em carne e osso, alguém presente, vivo entre os seus
seguidores. A comunidade se torna o seu corpo, a sua presença, como já nos
recordava São Paulo (cf. 1Cor 12,27): “Um fantasma não tem carne, nem ossos,
como estais vendo que eu tenho” (vers. 39b).
* Outra maneira de reconhecê-lo e manter
viva a memória do que ele quer de nós é revisitando as Sagradas Escrituras,
orando-as e meditando-as: “era preciso que se cumprisse tudo o que está
escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então Jesus
abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (vers.
44b-45).
O tempo pascal é uma oportunidade privilegiada para nos libertarmos do pessimismo, da tristeza, da incredulidade, da falta de iniciativa, do medo paralisante. Pois, afinal de contas, o próprio Cristo confia em nós! O Filho do Homem, em pessoa, envia o Espírito Santo para sustentar sua comunidade e lhe dá a principal missão de todas: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (vers. 48). Não decepcionemos o Cristo!
«Senhor, nós te buscamos e desejamos a
tua face: um dia, retirado o véu, poderemos contemplar-te. Procuramos-te nas
Escrituras que nos falam de ti: sob o véu da sabedoria acolhemos a cruz, o teu
dom aos povos. Procuramos-te nos rostos radiantes dos irmãos e irmãs: vemos-te
nas marcas da tua paixão nos seus corpos sofredores. Não os olhos, mas o
coração tem a visão de ti: à luz da esperança esperamos encontrar-te para
conversar contigo.»
(Fonte: BOSCHI, Maria Teresa Della Croce. O.Carm.
Oratio. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi:
per l’anno liturgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 224)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – III Domenica di Pasqua – 18 aprile 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 07/04/2024).
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