Páscoa do Senhor – Ano C – Homilia

 Evangelho: João 20,1-9 

Alberto Maggi *

Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano 

Na misericórdia, somos divinos!


João 20,1:** «No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.»

Se Maria Madalena tivesse ido ao túmulo um dia antes, teríamos celebrado a Páscoa um dia antes. João escreve no capítulo 20: “No primeiro dia da semana”, literalmente “o primeiro dia depois do sábado”.  Por que Maria Madalena não foi ao túmulo imediatamente após o sepultamento de Jesus, mas esperou até o primeiro dia depois do sábado? Porque ainda está condicionado à observância da lei, o descanso sabático. E assim a observância da lei impediu de experimentar imediatamente o poder da vida que estava em Jesus, uma vida capaz de vencer a morte.

O evangelista, por meio desta indicação, quer salientar aos seus leitores que a observância da lei atrasa a experiência da nova criação que é inaugurada por Jesus. A expressão “o primeiro dia da semana” de fato recorda o primeiro dia da criação, em Jesus está a nova criação, aquela que é verdadeiramente criada por Deus e como tal não conhece a morte, não conhece o fim.

Mas a comunidade, representada por Maria Madalena, ainda está condicionada pela observância da lei. Isso atrasa a experiência da ressurreição. Maria Madalena “foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro”. A escuridão é uma imagem da falta de compreensão da comunidade de Jesus, o qual se definia: a “luz do mundo”. A sua mensagem, sua verdade, ainda não era compreendida. 

João 20,2: «Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.»

Bem, a primeira reação de Maria Madalena é correr até Simão Pedro e o outro discípulo. Jesus disse: “Eis que vem a hora, e já chegou, em que vos dispersareis, cada um para seu lado, e me deixareis só” (Jo 16,32a). Pois bem, o evangelista atribui a esta mulher, Maria Madalena, o papel de pastora que reúne as ovelhas que se haviam dispersado. E ela anunciou-lhes: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram”. Ela não fala de um corpo, mas fala do Senhor, então já há a alusão de que esse Jesus está vivo. 

João 20,3: «Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo.»

Então o que Pedro e o outro discípulo fazem? “Eles foram ao túmulo”. O único lugar onde eles não deveriam ir! No Evangelho de Lucas será expresso muito claramente pelos homens que reprimem as mulheres que vão ao túmulo: “Por que buscais entre os mortos o vivente?” (Lc 24,5). Pedro e o outro discípulo vão em busca do Senhor no único lugar onde ele não está, ou seja, no lugar da morte. Assim como Maria Madalena, por meio da observância do sábado, adiou a experiência de uma vida mais forte que a morte, porque Jesus não pode ser retido no túmulo, o lugar da morte – ele é o vivente – assim os discípulos vão ao túmulo, o único lugar onde Jesus não pode ser encontrado. 

João 20,4-7: «Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.»

Se alguém lamenta a morte de uma pessoa, isto é, se alguém se volta para o túmulo, não pode senti-la viva e vivificante em sua existência. Os dois discípulos correm, mas o discípulo amado chega primeiro, ele é aquele que experimentou o amor de Jesus. Pedro, que se recusou a ter os pés lavados e, portanto, não quis aceitar o amor que Jesus expressou no serviço, chega depois.

Mas o outro discípulo para e permite que Pedro seja o primeiro a entrar. Por quê? É importante que o discípulo que traiu Jesus e para quem a morte é o fim de tudo – e esta foi a razão da traição – seja o primeiro a experimentar a vida. 

João 20,8-9: «Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.»

E, então, o outro discípulo também entra. “Ele viu, e acreditou”. Mas há uma advertência fundamental do evangelista: “eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. A preocupação de João é que só se pode crer na ressurreição de Jesus vendo os sinais de sua vitória sobre a morte. Não!

A ressurreição de Jesus não é um privilégio concedido a algum personagem há dois mil anos, mas uma possibilidade para todos os crentes. Como? O evangelista diz isso. “Eles não compreenderam a Escritura, que dizia que ele devia ressuscitar dos mortos.” A aceitação da Escritura, da palavra do Senhor, no discípulo, a radicalização desta mensagem na sua vida, transformação de sua vida, permitem ao discípulo ter uma vida de tal qualidade que ele, então, experimenta o Ressuscitado na sua existência.

Não se acredita que Jesus ressuscitou porque há um túmulo vazio, mas somente se o encontramos vivo e vivificante em nossa própria vida! 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

“A Páscoa, irmãos e irmãs, é a festa da remoção das pedras.”

(Papa Francisco: homilia da Vigília Pascal)

As palavras desconsoladas de Maria Madalena aos discípulos de Jesus ― “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2b) ― refletem bem o estado de ânimo e espírito de não poucas pessoas e comunidades cristãs nos dias atuais! Afinal: Onde está esse Cristo vivo? Como podemos encontrá-lo? Rezamos tanto, mas o Senhor Jesus parece distante, indiferente, não nos atende, não nos responde! Onde está aquela Paz, aquele Amor, que deveríamos sentir na Eucaristia, nas celebrações, nas novenas, nas reuniões e encontros de nossa comunidade? 

Será que não deveríamos nos colocar algumas outras questões além dessas? Tais como: Por que o meu modo de ter fé é tão triste, tão sem vida? Qual seria o motivo da falta de alegria? O que, de verdade, nós cristãos estamos buscando hoje? Quais são os nossos anseios e desejos verdadeiros? 

Se prosseguirmos a leitura do Santo Evangelho deste domingo, nos depararemos com a passagem na qual a mesma Maria Madalena retorna ao túmulo e fica chorando e lamentando a morte de seu Senhor, a ponto de pensar que houvessem levado embora o seu corpo (cf. Jo 20,11-13). E, quando ela se encontra diante do Ressuscitado, não consegue reconhecê-lo, pensa tratar-se do jardineiro e que o mesmo poderia, inclusive, ter levado o corpo de Jesus (cf. Jo 20,14-15). O que faz ela abrir os olhos, enxergar e reconhecer Jesus foi quando ela se sentiu chamada, pessoalmente, por ele: “Maria!” (Jo 20,16a). Aqui está o segredo! Somente podemos encontrar o Ressuscitado, a alegria de viver, o sentido de nossa existência e o ânimo para construirmos um mundo novo, quando nos encontramos com Jesus dentro de nós! Quando nos sentimos chamados pelo nosso próprio nome e ouvimos o convite que ele faz a cada um de nós! 

É no contato interior com o Cristo, com o Vivente, que poderemos reavivar a nossa fé, a nossa esperança, enfim, o nosso amor. Isso se dá, sobretudo, conhecendo profundamente Jesus nos Evangelhos e nos alimentando pela oração e pela Eucaristia. Madalena deixou-se surpreender por Jesus e você, e eu, e nós? Será que temos o coração aberto às surpresas que Deus tem para nós? Ou será que estamos sempre adiando o nosso encontro com ele: “Quem sabe, amanhã!”

Vamos, também nós, correr ao encontro do Cristo, não no lugar dos mortos, mas entre os vivos, pois o Cristo se deixa encontrar em cada irmão e irmã nosso! 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

« Agradeço-te, Pai, por este primeiro dia da semana que fizeste amanhecer para mim, por esta nova manhã em que queres encontrar-me! Obrigado pelo sepulcro aberto, pela pedra removida, que me permite ver o interior e entrar. Acolhe-me, eu te peço, no seio da tua Palavra, do teu mistério, da tua Vida. Eu sei que me esperas, nesta Páscoa, na ressurreição do teu Filho Jesus, na sua vitória sobre a morte; por isso, juntamente com Madalena, juntamente com Pedro e João, também eu corro, saio de mim mesmo e venho ao teu encontro. Que o teu Espírito seja o sopro forte que me impulsiona, que me sustenta e me guia em cada passo: até que eu também tenha entrado em ti, o Deus vivo, para ver e crer. Amém.»

(Maria Anastasia di Gerusalemme Cucca, O.Carm. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi per l’anno litúrgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 226)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – Pasqua – 5 aprile 2015 – Internet: clique aqui (Acesso em: 02/04/2025).

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