Por que Francisco não foi mais longe?

 Carlos Eduardo Sell

Doutor em Sociologia e Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) 

Ao buscar reformar a Igreja de forma cautelosa, Papa Francisco deixa legado ambivalente: abriu portas, mas são muitos os impasses para o seu sucessor

Primeiro pontífice jesuíta, latino-americano e oriundo da periferia do sistema eclesiástico romano, Francisco assumiu a liderança de uma instituição em crise, abalada por escândalos, estagnada institucionalmente e desafiada por um mundo cada vez mais secularizado e polarizado. Seu objetivo?

* Atualizar o funcionamento da Igreja Católica,

* reaproximá-la das pessoas comuns e

* torná-la mais sensível às dores do mundo contemporâneo. 

O projeto de Francisco se desenvolveu em quatro grandes eixos: a reforma administrativa do Vaticano, a promoção da sinodalidade (uma espécie de democratização interna da Igreja), a reinterpretação da moral sexual e familiar e uma nova atuação geopolítica do catolicismo no cenário global. 

Na esfera institucional, seu primeiro passo foi enfrentar a má gestão e os casos de abusos sexuais. A nova “Constituição Apostólica Praedicate Evangelium”, promulgada em 2022, reorganizou a Cúria Romana, ampliou mecanismos de responsabilização e buscou dar mais transparência à máquina vaticana. 

Mas talvez sua mudança mais profunda tenha sido no modo de conceber a própria Igreja. Inspirado no princípio da sinodalidade, Francisco desafiou a estrutura piramidal tradicional, insistindo que todos os batizados — e não apenas o clero — compartilham a responsabilidade pela missão da igreja. Isso abriu espaço para escuta e participação de mulheres, leigos e grupos historicamente marginalizados. 

Na moral, o pontífice não mudou doutrinas centrais, mas flexibilizou sua aplicação. Com a “Amoris Laetitia” (2016), admitiu que casais em segunda união poderiam comungar, após discernimento pastoral. Em 2023, com o documento “Fiducia Supplicans”, autorizou a bênção individual para casais do mesmo sexo —um gesto que provocou aplausos e críticas em igual medida. 

No campo geopolítico, rompeu com o discurso centrado prioritariamente na bioética e se engajou em temas como desigualdade, ecologia, migração e paz. Suas encíclicas “Laudato Si (2015) e “Fratelli Tutti” (2020) propõe um modelo de fraternidade planetária. 

Essas iniciativas provocaram reações contraditórias: setores ultraconservadores da Igreja chegaram a questionar a legitimidade de seu pontificado. Já os setores progressistas ficaram frustrados com os limites de suas reformas. Mas por que, afinal, Francisco não foi mais longe? A resposta talvez esteja no seu próprio estilo: ele não foi um revolucionário, mas um reformador cauteloso. Buscou mudanças consistentes, mas sempre ancoradas nas diretrizes do Concílio Vaticano 2º e no respeito à tradição. Ao longo de mais de uma década, Francisco empurrou a Igreja até os seus limites institucionais — mas sem rompê-los. Seu legado é ambivalente: abriu novas portas, mas também deixou muitos impasses em aberto. 

A sucessão que se aproxima poderá tanto consolidar essas iniciativas quanto orientar ajustes em seu ritmo e alcance. 

Opinião de um leitor:

Alberto Melis Bianconi

Não vejo nada de ambivalente. O Papa devia saber, como ninguém, o pouco que poderia fazer para mover um mamute de dois mil anos. Se desgostou a progressistas e a conservadores, mais estes que aqueles, e manteve a coisa funcionando, então fez o dever de casa. E apoiar pautas progressistas é vital para a sobrevivência da Igreja, se Roma não avançar, perde. Pouco importa se estamos num momento de retrocesso temporário no mundo, que o Reino Unido tenha decretado que só existem dois sexos. É do jogo.

Fonte: Folha de S. Paulo – TENDÊNCIAS / DEBATES – Terça-feira, 22 de abril de 2025 – Internet: clique aqui – Acesso em: 23/05/2025.

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