1º Domingo do Advento – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 24,37-44
Frei Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
O
Reino de Deus é uma salvação para todos, mas não é de todos
A passagem que a liturgia apresenta no primeiro domingo do Advento do Evangelho de Mateus, capítulo 24, versículos 37-44, deve ser contextualizada, sob pena de correr o risco de incompreensão e deturpação do sentido daquilo que o evangelista escreve. E qual é o contexto? No Templo, Jesus expulsou a todos e denunciou as mais altas autoridades religiosas por terem transformado a casa do Pai em “um covil de ladrões e bandidos” (Mt 21,12-13).
E
depois, Jesus queixou-se, chorou por Jerusalém, uma instituição que, em vez de
reconhecer, acolher e apoiar os enviados de Deus, sempre os matou (Mt 23,37).
Por quê? Para seu próprio lucro, para sua própria conveniência. E Jesus tinha
anunciado: “Esta casa ficará deserta” (Mt 23,38) e tinha dito aos seus
discípulos que o Templo que eles admiravam seria destruído (Mt 24,1-2). Por
quê?
Uma
instituição religiosa que, em vez de ser a favor do povo, o explora para seu
próprio interesse, para sua própria comodidade, não tem direito de existir.
Mas
isso não será uma coisa ruim. Será o início de uma série de desmoronamentos de
todas aquelas formas de poder que dominam o ser humano, até que surja o reino
do humano, o reino do Filho de Deus. Isso acontece com a proclamação da Boa
Nova que, garante Jesus, fará obscurecer a luz do sol, da lua, das falsas
divindades, torná-las tais, e das estrelas, isto é, daqueles principados,
daquelas potestades que se apoiaram nessas divindades, uma após a outra cairão.
Naturalmente
tudo isto não será indolor, mas Jesus garante estar sempre ao lado dos seus
discípulos. E Jesus havia assegurado que o céu e a terra poderão passar, mas
suas palavras não passarão. Assim, Jesus nos assegura a vitória do humano sobre
tudo o que é desumano.
E no versículo 36, antes da passagem litúrgica, Jesus tinha dito: “Ora, quanto àquele dia e hora”, aqui fala do fim individual dos discípulos, “ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas somente o Pai”. Essa é uma mensagem de grande serenidade e de grande segurança: o fim pessoal do discípulo, de cada indivíduo, o Pai conhece, não diz “Deus sabe”, mas “o Pai sabe”, isto é, destaca essa relação afetuosa, terna, por parte do Pai diante de seus filhos. Por isso convida à máxima serenidade e máxima tranquilidade.
Mateus
24,37: «Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: “A vinda do
Filho do Homem será como no tempo de Noé.»
Os dias de Noé são os dias da arca, ou seja, o lugar da salvação, onde poucos perceberam a iminência do desastre e foram salvos. Assim, a vinda do Filho do homem, que inaugura o Reino de Deus, será a nova salvação, mas Jesus anuncia que poucos se darão conta. O dilúvio não foi o fim do mundo, mas o início de uma nova humanidade que foi renovada, uma mudança de época que salvará a humanidade.
Mateus
24,38-39: «Pois
nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em
casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam até que
veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do
Homem.»
Jesus se refere à rotina normal que, no entanto, nos impede de perceber que algo extraordinário está prestes a acontecer. Portanto, é um convite à vigilância porque, assim como o dilúvio foi algo imediato e poucos o perceberam, assim a vinda do Reino de Deus é uma oportunidade para ser pega no ar, mas é uma ocasião que é condicional, e em todo o evangelho o evangelista tratou disso, desde a mudança de vida, desde a rejeição dos falsos valores da sociedade para acolher os novos, que são: a partilha, o serviço e a descida ao nível dos últimos da sociedade.
Mateus
24,40-41: «Dois
homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas
mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada.»
Aqui a
tradução põe “um será levado, e outro será deixado”, mas não é “levado
[embora]”. O verbo usado pelo evangelista é o mesmo que usou no primeiro
capítulo, no momento da Anunciação, quando o anjo diz a José: “Não temas
receber Maria, tua mulher” (Mt 1,20). É “tomar” no sentido de
acolher/receber. Então esta frase se traduz assim: “Dois homens estarão
trabalhando no campo, um será acolhido [recebido], e o outro será
deixado”. O mesmo para o exemplo feminino: “Duas mulheres estarão moendo
no moinho, uma será acolhida [recebida], e a outra será deixada”. O
que isso quer dizer?
O Reino de Deus é uma proposta para
todos, mas não é de todos, porque somente aqueles que acolhem os seus valores,
somente os que aceitam mudar de vida, nele entrarão e dele farão parte.
O Reino de Deus não é o reino do além, mas uma sociedade alternativa, onde, em vez de acumular egoisticamente para si, se compartilha generosamente com os outros, onde, em vez de dominar, se serve aos outros.
Mateus
24,42: «Portanto,
ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor.»
E aqui está o convite premente de Jesus: “Vigiai”. É o mesmo convite que Jesus fará depois no Getsêmani, no momento da dificuldade, quando todos os discípulos fugirão. “Vigiai”, isto é, “Aderi a mim/Juntai-vos a mim”. O dia do Senhor pode ser repentino, porque Jesus diz que o momento será violento, inesperado, pois os próprios familiares podem se voltar contra os discípulos, pois se trata de ir contra a correnteza. É uma questão de acolher essa novidade, desafiando a tradição, desafiando a moral, e claro que isso não será indolor!
Mateus
24,43-44: «Compreendei
bem isso: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente
vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós
ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.»
Assim como a arca de Noé não acolheu todos, mas apenas aqueles que perceberam o desastre iminente, o Reino de Deus é uma salvação para todos, mas não é de todos; então devemos estar atentos à vinda do Filho do Homem. O homem que tem a condição divina, que não é um privilégio exclusivo de Jesus, mas uma possibilidade para todos os crentes. Mas ter a condição divina torna as pessoas livres e o sistema e o poder não toleram os livres, mas Deus sempre estará do lado dos pobres e perseguidos.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Com efeito, muitos
são chamados, mas poucos são escolhidos.”
(Mateus 22,14)
Primeiramente, é preciso ficar claro que o Evangelho deste domingo não pretende transmitir-nos medo, apreensão e angústia, absolutamente! As palavras de Jesus vêm até nós para nos encorajar a fazer já, agora, aquilo que se deve, não postergar, não perder tempo na vida, pois tudo pode mudar de uma hora para outra! Devemos aproveitar o tempo presente, pois não temos mais acesso ao passado e, ainda, não alcançamos o futuro! O que Jesus deseja é a mesma atitude que solicitou a alguns de seus discípulos no horto do Getsêmani, na noite trágica de sua paixão: “Mantende-vos despertos comigo!” (= Vigiai comigo! – Mt 26,38.40.41). Isso não significa viver assustado, temeroso diante de uma possível desgraça ou tragédia!
A vigilância e a oração são necessárias para não “cairmos em tentação”, uma vez que: “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41b). E a pior tentação na qual podemos cair é abandonar e desprezar os valores do Reino de Deus: partilha de bens e de dons, serviço aos outros, dedicação aos últimos e marginalizados da sociedade, promoção da justiça acima de tudo. Isso a fim de abraçarmos os falsos valores do mundo: riqueza, poder, fama, beleza exterior.
Como
bem nos recorda o teólogo espanhol José María Castillo:
«É viver com tanta honestidade, no lugar e no
trabalho em que cada um está, que se vive na constante disposição de fazer o
que tenho que fazer, e dizer o que tenho a dizer, mesmo que isso represente uma
séria ameaça para mim, um perigo que pode ser fatal».
Infelizmente, a maioria dos cristãos pensa que sua principal preocupação, como pessoa que se diz seguidora de Cristo, deve ser com as “obrigações religiosas”, entendendo-se com isso: a frequência aos sacramentos, a observância das normas doutrinais da Igreja e assim por diante. Esquece-se que o principal para um(a) cristão(ã) é: vivenciar os valores do Reino de Deus no mundo e nos ambientes em que vive (família, profissão, estudo etc.). Por isso, em nossa sociedade, ainda hoje, após quase dois milênios de cristianismo, não se respira um ar cristão e não se encontra uma sociedade, verdadeiramente, cristã!
Nossa
fé não muda, não incide, não altera a triste realidade deste mundo! Isso é
gravíssimo, pois demonstra que temos uma fé morta, segundo o que nos diz a Carta
de Tiago (2,14-17.26):
«Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé, se não tem obras? A fé seria capaz de salvá-lo? Imaginai que um irmão ou uma irmã não têm o que vestir e que lhes falta a comida de cada dia; se então algum de vós disser a eles: “Ide em paz, aquecei-vos” e “Comei à vontade”, sem lhes dar o necessário para o corpo, que adianta isso? Assim também a fé: se não se traduz em ações, por si só está morta. [...] Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé, sem as obras, é morta.»
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«São muitas as perguntas sobre o nosso
futuro que continuamente surgem na mente: o que será de nós e deste mundo? Onde
estamos indo? Não nos faltam, nem mesmo, perguntas sobre o nosso presente: por
que tantos desastres, por que tantas doenças que parecem se multiplicar, por
que os crimes brutais cometidos pelos poderosos permanecem impunes, por que os
inocentes sofrem e são mortos? Quando tudo isso vai acabar? A única resposta
que nos dás, Senhor, é que ninguém sabe o dia e a hora em que tudo isso vai
acabar. Nossa única certeza é a tua palavra, palavra de verdade, palavra de
vida, palavra de eternidade. É confiar-nos a ti, trabalhando incansavelmente,
continuando a dar testemunho do teu evangelho, confiantes de que virás
surpreender-nos. Amém.»
(Fonte: VENTURI, Gianfranco. 1ª
Domenica di Avvento. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli
festivi: per l’anno liturgico A. Leumann [TO]: Elledici, 2010, p. 32)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – I Domenica di Avvento – Anno A – 1º dicembre 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 23/11/2022).
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