Dedicação da Basílica do Latrão – Homilia

 Evangelho: João 2,13-22 

Frei Alberto Maggi *

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

O verdadeiro santuário é Jesus

A nova relação proposta por Jesus entre Deus e o ser humano comporta o desaparecimento das estruturas da Antiga Aliança e, entre essas, a primeira que João evangelista nos apresenta, no seu Evangelho, é o Templo. Enquanto os profetas denunciavam um culto hipócrita e desejavam uma purificação do Templo, Jesus vai além, Jesus o abole! É o que lemos em João capítulo 2, versículos de 13 a 22. 

João 2,13**: «Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém.»

O evangelista é polêmico, porque a Páscoa no Antigo Testamento é definida sempre como “a Páscoa do Senhor”, mas aqui, segundo João, é a “Páscoa dos judeus”. O termo “judeus”, nesse evangelho, não significa o povo judeu em geral, mas as autoridades judaicas, os chefes religiosos.

A Páscoa não é mais uma festa de libertação do povo, mas se tornou a festa dos dominadores desse povo. 

João 2,14: «No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados.»

No Templo, não encontra pessoas que rezam, mas encontra negócios e comércio. Os vendedores aí se instalaram. O verdadeiro deus do Templo é o dinheiro! 

João 2,15: «Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas.»

O Messias era retratado com um chicote ― o flagelo ― com que devia expulsar os excluídos do Templo, quer dizer, os pecadores. Mas aqui, pelo contrário, Jesus faz e toma o chicote, para expulsar aqueles que são a alma do templo!

Em primeiro lugar as ovelhas, que são a imagem do povo, que infelizmente é, nesse contexto, o verdadeiro animal sacrificável! Jesus não aceita um culto a Deus que seja ligado ao dinheiro. 

João 2,16: «E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”»

É estranho que Jesus se aborreça com os vendedores de pombas e não com os vendedores de bois! Por que Jesus está irritado, sobretudo, com os vendedores de pombas? Porque a pomba era o animal que os pobres podiam oferecer. Jesus não tolera que os pobres sejam explorados em nome de Deus. E, citando o profeta Zacarias (14,21), diz que a casa de seu Pai não pode ser um lugar de interesse ou de negócios. 

João 2,17: «Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”.»

Seus discípulos equivocam-se sobre o gesto de Jesus e pensam que Jesus seja uma espécie de Elias, o profeta, que, com seu zelo violento, devia preparar a estrada para o Messias.  

João 2,18-20: «Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” Ele respondeu: “Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei”. Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?”»

Para entender a resposta de Jesus é necessário distinguir os dois termos diferentes que o evangelista usa. Um termo grego é “ierós” ― templo ― que significa toda a área sagrada; mas, o outro termo grego que Jesus usa na resposta é “naós”, que significa o “santuário” desse ierós/templo, quer dizer, o lugar mais sagrado onde era permanente a presença de Deus/Javé.

E é esse último termo “naós” que aparece na resposta de Jesus. “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. Para Jesus, a morte será a máxima manifestação de Deus. Os judeus, os chefes não entendem. 

João 2,21-22: «Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.»

Com Jesus, o nosso relacionamento com Deus muda! Com Jesus, o verdadeiro santuário de onde Deus manifesta e irradia a sua misericórdia e a sua compaixão, não é um santuário construído por mãos humanas, onde as pessoas devem ir levando as ofertas. Mas o único e verdadeiro “santuário” será Jesus e as pessoas que irão recebê-lo como modelo de vida, um “santuário” que não vai esperar as pessoas, mas irá ao encontro delas. Encontrar e procurar a quem? Aos excluídos do Templo, aos marginalizados pela própria religião!

Esse novo e único “santuário” não pedirá ofertas, mas será ele que ofertará o seu amor a todos os seres humanos. 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

Acaso não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”

(1 Coríntios 3,16)

Jesus nos advertiu seriamente: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” (Mt 6,24b). No entanto, no mundo em que vivemos o centro das preocupações humanas, o objetivo que a maioria das pessoas persegue, aquilo pelo qual mais se dedica tempo é o dinheiro! Ele se tornou, de fato, o verdadeiro deus do ser humano moderno. Pelo dinheiro vidas são sacrificadas, famílias deixadas em segundo plano, descanso, lazer e tudo o mais são relativizados pela busca incessante de bens materiais.

Ao chegar ao templo de Jerusalém, o local mais sagrado e venerado pelos israelitas, Jesus se depara com uma cena deprimente e escandalosa: a casa de oração foi transformada em um centro comercial! Ao invés de ser um espaço acolhedor, tranquilo e convidativo à oração, ao culto, à meditação, o Templo havia se tornado um local de obtenção de lucro, enfim, de dinheiro. Ali todos eram explorados, especialmente, os mais pobres e humildes.

Por isso, no Evangelho de João, o lugar do encontro com Deus não será mais o Templo, com seus sacerdotes, rituais e cerimônias, mas o ser humano. Pois, para Jesus, o Templo é o ser humano. E a Igreja, em seus primórdios, soube compreender isso muito bem, confira: 1Cor 3,16-17; 6,19; 2Cor 6,16. Cada pessoa é uma pedra viva do santuário que Deus deseja (cf. Is 66,1-2; At 7,49-51; 17,24). Deus habita é em cada pessoa humana, não em templos de pedra, construídos pelas mãos humanas. O ser humano, portanto, é mais sagrado e merecedor de respeito do que qualquer templo religioso!

Infelizmente, hoje, nós restauramos aquilo que Jesus destruiu. Tanto é verdade, que se respeita mais os templos que muitos seres humanos! E nas igrejas ― não importando a qual denominação religiosa pertença ― há uma grande preocupação com o dinheiro, com aquilo que se arrecada. As celebrações e rituais são, muitas vezes, pesados e cansativos, não favoráveis à verdadeira oração e encontro com Deus.

Há de se perguntar o que é mais importante para nós: a religião ou o Evangelho?

Pois, nem sempre, ambos são conciliáveis! 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Ó Deus, o universo inteiro é o teu templo e o coração de cada homem é o teu santuário: que toda a humanidade, animada pelo amor, torne-se a tua Igreja, Senhor. Jesus, luz do povo, faz que a tua Igreja resplandeça da própria luz da tua Palavra e da força do teu amor: que ao menos, nós, tua Igreja, não o desapontemos. Dá-nos, Espírito Santo, de sermos discípulos dóceis ao ensinamento da Igreja, operários incansáveis em tua vinha, servos fiéis do Evangelho, prontos a dar tudo de nós mesmos para a difusão da tua Palavra. Amém!»

(Fonte: PAGLIARA, Cosimo, O.Carm. Orazione finale. In: Anthony Cilia, O.Carm. [Org.] Lectio Divina sui vangeli festivi per l’anno litúrgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 689.)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – Dedicazione della Basilica Lateranense – 9 novembre 2014 – Internet: clique aqui (Acesso em: 05/11/2025).

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