Solenidade de N. S. Jesus Cristo, Rei do Universo – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 23,35-43
Frei Alberto Maggi *
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus, um rei que olha para as necessidades das pessoas
O episódio das tentações no deserto terminou com estas palavras: “o diabo afastou-se dele até o tempo oportuno” (Lc 4,13) E aqui está o momento oportuno, isto é, o momento de máxima debilidade de Jesus: Jesus é crucificado, já está em agonia, na cruz, e no momento de máxima fragilidade, surgem novamente as tentações de força, as tentações de poder. Vamos ler o que Lucas escreve para nós, no capítulo 23 versículos 35 a 43.
Lucas 23,35a:** «Naquele tempo, o povo
permanecia lá, observando.»
No Lecionário Dominical da CNBB,
o texto omite este início.
Jesus, que tinha como única missão trazer a vida, salvar as pessoas, já pronunciou as palavras dirigidas ao Pai, uma oração de perdão: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34a). O evangelista escreve que “as pessoas estavam assistindo”. Esse povo que o seguiu, essa multidão que se encantou com sua mensagem, agora, está sujeita às decisões dos líderes, não toma iniciativa, apenas observa, assiste.
Lucas
23,35b: «Os chefes zombavam de Jesus dizendo: “A outros ele salvou. Salve-se a si
mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!”»
O evangelista diz que,
inclusive, os líderes zombavam de Jesus; aqui sem um mínimo de humanidade, sem
um pouco de compaixão. Afinal, Jesus, mesmo que aos olhos deles seja culpado, é
um homem agonizando na cruz, esta terrível tortura, mas eles são implacáveis,
eles zombam dele dizendo: “A outros ele salvou”, e aqui há um eco do que
Jesus disse no episódio da Sinagoga de Nazaré quando citou um provérbio: “Médico,
cura-te a ti mesmo” (Lc 4,23). Aqui, as tentações retornam.
Esta expressão “se, de fato, é o Cristo de Deus”, retornará três vezes e sabemos que o número três na simbologia numérica hebraica significa aquilo que está completo, portanto, o diabo volta com força, com suas tentações no momento de maior fraqueza de Jesus. O eleito de Deus é abandonado. Uma das provas de que Jesus não era o Messias, o Cristo de Israel, é que o Messias não poderia morrer.
Lucas
23,36-37: «Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre,
e diziam: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”»
Até os soldados, os soldados romanos, ridicularizam ele, literalmente “escarneciam dele”, zombavam dele, faziam piada, eles se aproximavam dele para lhe entregar um pouco de vinagre. Enquanto o vinho é a imagem do amor, o seu oposto, o vinagre, é a imagem do ódio. Há um salmo, o salmo 69, versículo 22 que diz: “na minha sede me deram vinagre”, e disseram “se és o rei dos judeus”, esta tentação volta novamente, “salva-te a ti mesmo”.
Lucas 23,38-39:
«Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. Um dos
malfeitores crucificados o insultava, dizendo: “Tu não és o Cristo? Salva-te a
ti mesmo e a nós!”»
No entanto, Jesus veio salvar quem está perdido, Jesus não veio se salvar, mas salvar os outros, e o evangelista comenta: “Acima dele havia um letreiro: ‘Este é o Rei dos Judeus’”, literalmente “o Rei do Judeus é este”. É uma escrita muito irônica, e é a única escrita conhecida de Jesus em sua vida e é um escárnio. Portanto, é uma expressão que indica o máximo desprezo para esse povo que os romanos submetiam; mas eis onde o evangelista nos quer conduzir: “Um dos malfeitores crucificados o insultava...”. É a terceira vez que há tentação: “salva-te a ti mesmo”: é a tentação do diabo, de usar o poder para si mesmo. Mas Jesus não usa a força do seu amor para si mesmo, mas para os outros.
Lucas 23,40-41:
«Mas o outro o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que
sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que
merecemos; mas ele não fez nada de mal”.»
Então este indivíduo crucificado com Jesus é um criminoso, ele é um delinquente. Aqui, ele reconhece, este bandido, este criminoso crucificado com Jesus, reconhece a realidade de Jesus, aquela realidade que os Atos dos Apóstolos, pelas palavras de Pedro, nos apresentam: “Por toda a parte, ele [Jesus de Nazaré] andou fazendo o bem, e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo; pois Deus estava com ele” (At 10,38).
Lucas 23,42:
«E acrescentou: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu
reinado."»
Então este criminoso reconhece que Jesus é inocente, e se volta para Jesus e lhe pede: “Jesus, lembra-te”, este verbo lembrar faz parte da linguagem da oração hebraica. Recordar, lembrar significa pedir a Deus que lance um olhar de bondade, que intervenha em favor de quem ora, portanto é um pedido: “lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” – ou melhor, segundo uma variante deste versículo – “quando vieres no teu reino”, isto é, quando vieres como Rei, lembra-te de mim.
Lucas 23,43:
«Jesus lhe respondeu: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo
no Paraíso”.»
Pois bem, a resposta de Jesus
desloca a todos. Desloca ouvintes, leitores da época e nos desloca também,
porque, repito, não é como a história, posteriormente, vai tentar diluir esse
episódio falando do “bom ladrão”. Este é um delinquente, um criminoso, que,
como ele diz, merecia com razão este terrível castigo. Pois bem, a resposta de
Jesus “em verdade” – portanto é uma afirmação solene – “te digo: hoje
estarás comigo no paraíso”. Enquanto o bandido havia pedido “lembra-te
de mim, quando entrares no teu reino”, então não imediatamente, a resposta
de Jesus é imediata, hoje. Então não amanhã, não no tempo, mas hoje,
imediatamente, “tu estarás comigo no paraíso”. É a única vez que o termo
“paraíso” aparece no Evangelho de Lucas. Quando Jesus tem que falar de vida que
continua além da morte, ele fala de vida eterna, de vida indestrutível, mas ele
nunca usa esse termo “paraíso”. “Paraíso” é um termo persa, que significa
simplesmente “jardim”; era o lugar intermediário onde as almas esperavam a
ressurreição.
Por que Jesus fala precisamente
de paraíso? O evangelista quer contrastar a ação de Jesus com a descrita no
livro de Gênesis. No livro de Gênesis, Deus expulsa do paraíso o homem pecador;
com Jesus o primeiro a entrar no paraíso com ele é precisamente o homem
pecador.
O que o evangelista quer dizer é o que ele seguiu ao longo de seu evangelho: o amor de Deus não é dirigido às pessoas por seus méritos, mas por suas necessidades. Que mérito esse bandido tem para entrar no paraíso? Ele não tem mérito, mas tem necessidade, o amor de Deus olha para as necessidades das pessoas. Para Jesus, pela força do seu amor, não existem casos impossíveis que o amor de Deus, o amor de Jesus, não possa vencer.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Nenhum
pecador jamais foi salvo por entregar seu coração a Deus. Não somos salvos por
nossa entrega, somos salvos pelo que Deus entregou.”
(Arthur Walkington Pink [1886-1952] – estudioso da
Bíblia, evangelista e escritor britânico)
O Evangelho deste domingo nos oferece uma explicação da figura de Jesus mediante um forte contraste entre os seguintes personagens:
* de
um lado, os líderes do povo judeu, os soldados romanos e um dos malfeitores (em
grego: lestaí = rebelde político) crucificado ao lado de Jesus, que
debocham, zombam, ironizam a triste e terrível situação do Filho de Deus
agonizante na cruz! Aqui, não há alguma piedade, sensibilidade e empatia para
com o sofredor!
De
outro lado, a misericórdia, o amor, o perdão agindo na pessoa de Jesus que,
mesmo agonizante, sabe dirigir uma palavra de esperança a um dos criminosos
condenado ao seu lado. Aqui, temos a empatia em pessoa! Jesus de Nazaré soube,
a vida toda, colocar-se na carne, nas vestes, no lugar das outras pessoas,
especialmente dos pecadores e marginalizados pela sociedade israelita da época.
Por
ironia da história, o motivo da condenação de Jesus é de natureza política! Ele
foi condenado como tendo cometido o delito de seditio, ou seja,
subversão da ordem estabelecida por Roma. Logo, Jesus de Nazaré que jamais
promoveu alguma revolta política, nem proferiu juízos contra Roma, contra a
ocupação romana, contra a crueldade dos legionários romanos, contra os abusos
fiscais ou a repressão militar exercida pelo império romano! Mesmo assim, foi
condenado como “rei dos judeus”.
É
preciso ficar bem claro que Jesus nunca buscou esse título de rei! Jamais
favoreceu que o povo o tratasse como tal, antes, escapava de situações desse
tipo (cf.: Jo 6,15). Mas é verdade que a pregação e prática de Jesus
contrariavam os dois pilares sobre os quais se assentavam o direito romano e a
ideologia do império:
1º)
Defesa absoluta do “direito de propriedade”.
2º)
A defesa do “poder dos poderosos”.
O
reino que Jesus pregava encontrava-se na contramão da ideologia dessa sociedade
desigual e injusta! Assim, como está na contramão da sociedade atual! Como
expõe, muito bem, J. M. Castillo:
«O
que Jesus queria era afirmar que “outro mundo é possível”. Um mundo não
edificado sobre o poder e o capital, mas sobre a ética da honradez, do
respeito, da igualdade de direitos e garantias de todos os seres humanos, a
bondade acima de tudo e a ajuda a todo o que sofre. Nisso consiste o reinado de
Cristo.»
Portanto,
celebrar Cristo, rei no universo, significa aderir, encampar, optar por
instaurar o seu reinado neste mundo, aqui e agora!
Esse
desafio do Reino de Deus, obviamente, coloca em xeque o comodismo, a
insensibilidade, o egoísmo, a apatia e o conformismo de uma parcela de nossa
sociedade que vive no conforto, no bem-estar, na segurança e na abundância! Bem
como, desinstala cada um de nós!
Afinal, como Igreja, como comunidade, como indivíduos o que estamos realizando, concretamente, para que esse “outro mundo” desejado por Jesus Cristo aconteça?
«Senhor, parece-me estranho
dar-te o nome de rei. Um rei não se aproxima facilmente... E hoje te encontro
sentado ao meu lado, na covinha do meu pecado, aqui onde eu nunca teria pensado
em encontrar-te. Os reis estão nos palácios, longe da vida dos pobres. Tu, por
outro lado, vives tua senhoria vestindo as roupas gastas de nossa pobreza. Que
festa, para mim, ver-te aqui onde fui me esconder para não sentir sobre mim os
olhares indiscretos do julgamento humano. À beira dos meus fracassos, quem
encontrei senão tu? O único que poderia censurar minhas incoerências vem me
procurar para sustentar minha angústia e minha humilhação! Quanta ilusão quando
pensamos que temos que vir até ti apenas quando alcançamos a perfeição... Tu
não gostas de quem eu sou, eu pensaria, mas talvez não seja exatamente assim:
não me agrada aquilo que eu sou! Para ti estou bem de qualquer maneira, porque
teu amor é algo especial que respeita tudo em mim e faz de cada momento um
espaço de encontro e doação. Senhor, ensina-me a não descer da cruz na absurda
pretensão de me salvar! Concede-me saber esperar, ao teu lado, o hoje do teu Reino
na minha vida. Amém.»
(Fonte: BOSCHI, Maria
Teresa della Croce, O.Carm. 34ª Domenica: Gesù Cristo Re dell’Universo. In:
CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi: per l’anno
liturgico C. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 647)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – XXXIII Domenica del Tempo Ordinario – Anno C – 17 novembre 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 08/11/2022).

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