33º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 21,5-19
Frei Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Com
a nossa perseverança salvaremos a nossa vida
Para compreender a passagem do Evangelho que vamos examinar agora, é necessário recorrer a um episódio ocorrido cerca de sete séculos antes, quando Senaqueribe, o poderoso rei da Assíria em 701 a.C., depois de ter incendiado 46 cidades, também sitiou Jerusalém e a cidade se viu perdida! Para grande surpresa, pela manhã, quando a batalha deveria começar, o acampamento de Senaqueribe estava deserto. O que tinha acontecido? Provavelmente o rei Ezequias havia pagado o seu tributo, mas a tradição pensava que Deus havia intervido. Então isso levou os judeus a acreditarem que, no momento de maior perigo para Jerusalém, haveria uma intervenção divina que a salvaria. Isso também foi celebrado nos Salmos, por exemplo no Salmo 46,6, onde lemos: “Deus está em seu meio”, de Jerusalém, “ela não se abalará”.
Bem, a passagem do evangelho que agora examinamos é o capítulo 21 de Lucas, dos versículos 5 ao 19; o contexto é posterior ao episódio da viúva (Lc 21,1-4), que oferece tudo o que tinha para viver ao Templo. E Deus não tolera uma instituição religiosa, em vez de socorrer os mais pobres, se faz manter pelos mais pobres, sugando realmente o sangue das suas veias.
Lucas
21,5-6: «Naquele tempo, algumas pessoas comentavam a respeito do
Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: “Vós
admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo
será destruído”.»
O Templo era uma das magnificências da época, havia começado a ser construído por Herodes, o Grande, com um esplendor inimaginável. O verbo grego usado significa “admirar”; portanto, os discípulos ainda não romperam com esta instituição, a qual admiram! No entanto, Jesus havia denunciado o Templo como um covil de ladrões (Lc 19,46). É o que acontecerá, então, em 70 d.C., com o cerco dos romanos que vão minar toda esta maravilhosa construção.
Lucas
21,7-8: «Mas
eles perguntaram: “Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de
que estas coisas estão para acontecer?” Jesus respondeu: “Cuidado para não
serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O
tempo está próximo’. Não sigais essa gente!»
Assim,
diante do anúncio da destruição do templo de Jerusalém, os discípulos não só
não parecem assustados, mas quase excitados! Exatamente por quê? Porque eles
sabiam que no momento de maior perigo Deus interviria em defesa. Mas, para
Jesus, Deus não intervém. Qualquer instituição que, em vez de ajudar a pessoa,
a demole, a destrói, não está no plano de Deus e, portanto, só merece
desaparecer. E Jesus responde, empregando o imperativo: “Cuidado para não
serdes enganados!” Haverá um tempo em que muitos alegarão ter mensagens
divinas, ser um messias, para fazer o quê? Para restaurar o reino de Israel. O
reino de Israel está extinto.
Jesus não veio para reviver o reino de Israel, mas para inaugurar o Reino de Deus.
Lucas
21,9: «Quando
ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que
estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim.”»
E Jesus, usando a linguagem típica dos profetas ao descrever as grandes convulsões de época, fala: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados”. A mensagem de Jesus não é, de forma alguma, uma mensagem que cause medo; tanto que no versículo 28, que não consta da passagem evangélica deste domingo, o evangelista escreve que Jesus diz: “Quando essas coisas começarem a acontecer, reerguei-vos e levantai a cabeça, porque está próxima a vossa libertação”. Portanto, não é uma mensagem que pretenda aterrorizar, mas é o anúncio de uma libertação, uma libertação que, no entanto, infelizmente não será indolor: “É preciso que essas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”.
Lucas
21,10-11: «E
Jesus continuou: “Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro
país. Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão
coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu.»
É a
imagem do que vem de repente, o terremoto e toda guerra traz a fome, a peste.
Jesus diz: “acontecerão coisas pavorosas, e haverá grandes sinais do céu”,
não no céu, “do céu”; todos os fenômenos do céu, dos relâmpagos ao
granizo, foram vistos e interpretados como sinais divinos. Pois bem, tudo isso
fará parte desse processo de libertação por parte da humanidade.
Todo poder, baseado na dominação, na exploração das pessoas, especialmente em nome de Deus, está destinado a desaparecer.
Lucas
21,12-19: «Antes,
porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis
entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e
governadores por causa do meu nome. Esta será a ocasião em que testemunhareis a
vossa fé. Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria
defesa; porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos
poderá resistir ou rebater. Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos,
parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. Todos vos odiarão por causa do
meu nome. Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. É
permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”»
Por
que a adesão a Jesus por parte dos seus discípulos com a radical subversão de
valores é um crime tão grave que consegue atrair o ódio de alguém? Daquelas
instituições sagradas que foram a base da sociedade: Deus, pátria e família.
Pois bem, Jesus denuncia que estes, que eram considerados valores sagrados, são
na realidade valores diabólicos porque são contrários e inimigos do plano do
Criador para a humanidade. E, aqui, está Jesus que diz: “vos entregarão às
sinagogas”, portanto à religião; “aos cárceres e sereis conduzidos à
presença de reis e governadores”, isto é, à nação, à pátria. Mas Jesus
chega a dizer: “Sereis entregues até pelos próprios pais, irmãos, parentes e
amigos. A alguns de vós matarão. Sereis odiados por todos, por causa de meu
nome”. O que isso significa? Deus, pátria e família são os três âmbitos
onde o poder absoluto é exercido:
*
o poder de Deus através da instituição religiosa,
*
o poder do rei ou governantes na pátria e
*
também na família, onde o homem/macho era o senhor absoluto dos membros, da
esposa aos filhos.
Pois
bem, Jesus veio para denunciar esses valores que não são sagrados, mas são
satânicos e os substituiu. Em vez de Deus falará de Pai, se em nome de Deus se
pode tirar a vida de alguém, em nome do Pai só se pode dar a própria; invés de
pátria a substituirá pelo Reino de Deus, ou seja, aquele espaço sem fronteiras,
sem muros, sem limites, onde todos podem ser acolhidos. E mesmo a família será
substituída por Jesus por uma comunidade de ideais, não mais ligada pelo valor
do sangue, mas pelo próprio ideal do amor.
Portanto, ao poder, Jesus substitui os três valores sagrados que são distintos pelo amor generoso que se coloca ao serviço dos outros.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Quando o poder do
amor superar o amor pelo poder, o mundo conhecerá a paz.”
(Jimi Hendrix [1942-1970] – guitarrista, cantor e
compositor norte-americano)
Uma coisa é certa: Jesus sempre foi um crítico do sistema religioso israelita fundamentado, sobretudo, no templo de Jerusalém, para onde acorriam os fiéis, ao menos uma vez por ano, a fim de fazer realizar os seus sacrifícios, penitenciar-se e ficarem “de bem” com Deus. Por que Jesus era crítico desse tipo de religião? Muito simples, porque toda a religiosidade israelita era centrada no bom relacionamento com o templo, fundamentado em rituais e tradições. Enquanto, Jesus veio inaugurar um novo modo de relacionar-se com Deus, o seu Pai, precisamente, a boa relação com os demais seres humanos: “todas as vezes que fizestes isso [matar a fome, saciar a sede, acolher o forasteiro, vestir o maltrapilho, cuidar dos doentes e visitar os prisioneiros] a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40).
O que é fundamental para Jesus não é se as pessoas são fiéis aos ritos, às tradições religiosas, à visita ao templo e aos seus sacrifícios! O tratamento, o cuidado, o amor e atenção que dispensamos uns aos outros, fazendo-nos próximos àqueles que necessitam é o que mais conta para Jesus! Por isso, as autoridades que dirigiam o templo e dele se aproveitavam não podiam tolerar essa atitude de Jesus. No julgamento religioso que ele sofreu no Sinédrio, a acusação mais grave era sobre a sua pretensa intenção de destruir o templo (Mc 14,58). Na realidade, o que Jesus anunciou não foi a destruição da religião, simbolizada pelo templo de Jerusalém, mas a transformação dela!
Essa passagem do Evangelho é, para nós, motivo de esperança! Sim, Jesus não deseja assustar e amedrontar os seus seguidores de ontem e de hoje! As crises que o mundo enfrenta são ocasiões especiais para o testemunho dos cristãos (cf.: Lc 21,13). No entanto, Jesus é realista! Ele constata que os cristãos sofrerão perseguições, calúnias, julgamentos, prisões e, até mesmo, morte (cf.: Lc 21,12.16-17). Porém, tudo isso faz parte de um processo de libertação! Libertação dos poderes deste mundo que não comungam com o Reino de Deus!
A
sociedade atual é pródiga em:
*
concentrar as riquezas em pouquíssimas mãos;
*
privilegiar e premiar mais o dinheiro especulativo aplicado em bolsas de
valores, títulos bancários, papéis, criptomoedas etc., do que o capital
produtivo, aplicado na geração de empregos e conhecimento;
*
contribuir para produzir um exército de desocupados, fomentando um desemprego
crônico, que frustra a vida de milhões de pessoas;
*
produzir uma massa imensa de seres humanos famintos, miseráveis e sem o mínimo
de dignidade;
*
destruir a natureza a fim de manter uma produção, cada vez mais, intensa e
supérflua;
*
gerar a emergência climática que vivemos, ameaçando a sobrevivência de bilhões
de seres humanos e espécies animais e vegetais por todo o planeta;
*
provocar guerras, conflitos e violência que obriga milhões de famílias a se
deslocarem e deixarem suas terras, casas e, até mesmo, países;
*
alienar as pessoas, estimulando o consumo de álcool, drogas, jogos eletrônicos,
fumo e tudo aquilo que vicia e serve para distrair a mente daquelas pessoas
deprimidas pela vida que levam; a lista é longa e poderia prosseguir, mas isso
já basta!
Diante
dessa realidade, interroguemo-nos sobre as nossas atitudes:
a)
“Assumimos posições responsáveis, despertando em nós um sentido básico de
solidariedade, ou estamos vivendo de costas a tudo aquilo que possa disturbar a
nossa tranquilidade?
b)
O que fazemos a partir de nossos grupos e comunidades cristãs?
c) Estabelecemos uma linha de ação generosa ou vivemos celebrando nossa fé à margem do que está acontecendo?” (José Antonio Pagola)
«Bom Deus, cujo reino é todo amor e paz,
cria em nossa alma aquele silêncio que é necessário para que tu te comuniques a
ela. Agir com calma, desejo sem paixão, zelo sem agitação: tudo isso só pode
vir de ti, sabedoria eterna, atividade infinita, repouso inalterável, princípio
e modelo de verdadeira paz. Tu nos prometeste esta paz pela boca dos profetas,
tu a fizeste vir por meio de Jesus Cristo, tu nos deste a garantia com o
derramamento do teu Espírito. Não permitas que a inveja do inimigo, a perturbação
das paixões, os escrúpulos da consciência nos façam perder este dom celeste,
que é o penhor do teu amor, o objeto das tuas promessas, a recompensa do sangue
do teu Filho. Amém.»
(Fonte: Santa Teresa de Jesus, Vida 38,9-10)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – XXXIII Domenica del Tempo Ordinario – Anno C – 17 novembre 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 08/11/2022).

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