2º Domingo do Advento – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 3,1-12
Frei Alberto Maggi*
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
A
melhor preparação para acolher o Messias é a nossa conversão
Após o evangelho da infância de Mateus (capítulos 1 e 2), temos a parte narrativa que precede o primeiro dos cinco grandes sermões de Jesus nesse evangelho. Trata-se do Sermão da Montanha (5,1–7,29). A passagem deste domingo, é extraída dessa apresentação que João, o Batista, realiza antes de batizar Jesus.
Mateus
3,1-2:** «Naqueles dias, apareceu João
Batista, pregando no deserto da Judeia: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus
está próximo”. »
O
capítulo 3 do Evangelho de Mateus abre com a fórmula, que só aparece aqui, a
única vez em todo o Evangelho: “Naqueles dias”. Com esta fórmula, o
evangelista pretende recordar o capítulo 2 (v. 11a) do livro do Êxodo, onde se
lê: “Naqueles dias, Moisés, já adulto, saiu para junto de seus irmãos e
reparou nos trabalhos forçados deles”. Portanto, é quando Moisés começa a
tomar consciência da situação de seu povo, o que o levará a libertá-lo. Assim,
com a lembrança, repito a única vez no Evangelho de Mateus em que há esta
fórmula, “naqueles dias”, o evangelista abre a ação de João, que depois será
levada adiante e completada pela de Jesus, em chave de êxodo, na chave da
libertação e veremos de quê.
O nome
João significa “o Senhor é misericórdia”. “O Batista”, é já conhecido pela sua
atividade de batizador, cujo significado veremos mais adiante. O deserto da Judeia
é aquela área que vai de Jerusalém ao Mar Morto, não é um deserto de areia, é
um deserto montanhoso e rochoso. “Convertei-vos”. Este verbo significa
uma mudança de mentalidade que se reflete no comportamento. João refere-se ao
que já havia sido o anúncio do profeta Isaías: “Parai de praticar o mal,
aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei ao oprimido, fazei justiça
ao órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,16b-17). Assim, João Batista
convida a uma mudança de mentalidade, a orientar a própria vida para o bem dos
outros.
Pela primeira vez, no Evangelho de Mateus, aparece a fórmula “Reino dos Céus”, que é utilizada exclusivamente por este evangelista. “Reino dos Céus” não deve ser confundido com “reino nos céus”, mas significa Reino de Deus. O evangelista Mateus, que escreve para uma comunidade de judeus, está atento à sua sensibilidade e, sempre que possível, evita usar a palavra “Deus”, que, como sabemos, os judeus não escrevem nem pronunciam. Então “Reino dos Céus” não significa um reino futuro, mas o Reino de Deus, Deus que governa sobre os seus.
Mateus
3,3: «João
foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: “Esta é a voz daquele que grita
no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”»
Aqui o evangelista cita o profeta Isaías, mas modificando-o, porque no capítulo 40 do profeta Isaías, no versículo 3 lemos: “Clama uma voz: ‘Preparai no deserto o caminho do Senhor’”. Esse foi o anúncio do fim da deportação da Babilônia, com o edito de Ciro, e o início da libertação, e, portanto, “preparai no deserto o caminho do Senhor”. O evangelista modifica a passagem de Isaías: “Voz de quem clama no deserto:”, portanto do deserto, da ruptura com a sociedade, vem este anúncio: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”.
Mateus
3,4: «João
usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos
rins; comia gafanhotos e mel do campo.»
Em seguida, o evangelista passa a descrever a figura de João, dando referências claras: “ele usava roupa de pelos de camelo”, era a vestimenta típica dos profetas, mas com um detalhe: “um cinto de couro na cintura”. Os evangelistas são sempre comedidos nos exemplos, nos detalhes, quando os colocam é porque têm um sentido claramente teológico. O cinto de couro ao redor dos quadris era o distintivo daquele que foi considerado o maior dos profetas, o profeta Elias, que, acreditava-se, viria preparar o caminho para o Messias. Assim, o evangelista está identificando o profeta Elias na figura de João. “... e alimentava-se com gafanhotos e mel silvestre”, aquilo que o deserto apresentava, a dieta típica dos beduínos.
Mateus
3,5: «Os
moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de todos os lugares em volta do rio
Jordão vinham ao encontro de João.»
O que o evangelista escreve é sensacional. João pregou uma mudança de vida, e toda a expectativa do povo que se reflete nesta “Jerusalém”, “Jordão”, aflui a ele. Eles entenderam que os instrumentos que a instituição religiosa lhes oferecia não eram adequadas e acorreram a ele.
Mateus
3,6: «Confessavam
os seus pecados e João os batizava no rio Jordão.»
Batizar
era um rito conhecido, era uma imersão, que significava a morte para o passado,
para começar uma nova vida. “No rio Jordão”: é importante a indicação
que o evangelista faz, e a repete. O Jordão havia sido a etapa final do êxodo
para entrar na terra prometida, agora é a etapa inicial para sair da terra
prometida, porque a terra da liberdade, nas mãos dos sumos sacerdotes, dos
escribas, dos fariseus, de toda casta sacerdotal, havia sido transformada em
terra de opressão, da qual é preciso sair, e por isso João anuncia o êxodo ―
dessa instituição religiosa ― que, posteriormente, Jesus o concretizará.
O verbo “confessar” não deve sugerir o que queremos dizer com o sacramento da confissão. Era um gesto, o de mergulhar na água, com o qual se reconhecia pecador.
Mateus
3,7-10: «Quando
viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: “Raça de
cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi
frutos que provem a vossa conversão. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é
nosso pai’, porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer
filhos de Abraão. O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não
der bom fruto será cortada e jogada no fogo.»
À chegada da casta sacerdotal ao poder, da elite religiosa representada pelos fariseus e saduceus, João Batista não os acolhe, acolhe-os com palavras de fogo, porque sabe que eles vêm para realizar um ritual. Mas João diz: não, deveis dar “frutos dignos de conversão”, ou seja, é uma mudança de vida que deve ser vista no comportamento. Depois veremos, mais adiante no evangelho, que eles nunca acreditarão na ação de João Batista.
Mateus
3,11: «Eu
vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais
forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará
com o Espírito Santo e com fogo.»
O gesto oferecido por João é uma mudança de vida, que se consegue por meio dessa imersão, mas a força para poder, depois, levar adiante essa mudança de vida, ele não a pode dar. Ele diz que haverá alguém que será “mais forte do que eu… Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. Batismo na água significa ser imerso em um líquido que é externo ao homem. O batismo no Espírito, o Espírito é a vida de Deus, é o amor de Deus, significa ser enxarcado, impregnado da própria vida de Deus. Será isso que dará força para levar adiante essa conversão, essa mudança. Só que João Batista diz: “... e com fogo”: o Espírito Santo para quem aceita esse convite à conversão, e o fogo, segundo a mentalidade tradicional, era o castigo de Deus para quem o rejeitava.
Mateus
3,12: «Ele
está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas
a palha ele a queimará num fogo que não se apaga”.»
De fato, João conclui com esta admoestação. Assim, João Batista, herdeiro da tradição do Antigo Testamento, apresenta um julgamento de Deus, e esse julgamento de Deus será então corrigido por Jesus. Quando Jesus se referir a este batismo em Atos, ele dirá: “Sereis batizados com o Espírito Santo” (At 1,5). De Jesus, que é a presença de Deus na humanidade, há apenas um anúncio, uma oferta de plenitude de vida, nele está ausente qualquer forma de castigo.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Uma coisa morta
pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.”
(Gilbert Keith Chesterton: 1874-1936 – escritor e
ensaísta britânico)
A coragem de João, o Batista, profeta que ficou conhecido por ser o homem que preparou o caminho, a chegada do messias, é espantosa! Abrir caminhos novos jamais foi fácil! É muito mais simples seguir estradas já abertas, já batidas, já conhecidas... Porém, muitas delas não levam, mais, a lugar algum! É o que acontecia com o judaísmo do tempo de Jesus de Nazaré. Havia se tornado uma religião de muitos ritos, muitas normas, muitas tradições, porém que não conseguia mais falar ao coração das pessoas! Essa religião ao invés de conectar as pessoas a Deus, ao seu amor, à sua bondade, à sua misericórdia, havia feito habitar o medo no íntimo de cada judeu, pois Deus não se parecia a um Pai que ama, que acolhe, que perdoa, mas a um juiz que julga, condena e castiga!
Não por acaso, o
próprio nome “João” já é um programa de vida: “Deus é misericórdia”. O grito
que se ouve no deserto é o mesmo hoje: “Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas” (Mt 3,3). A Igreja, nos tempos atuais, está
sentindo falta dessa coragem em descobrir caminhos novos! Papa Francisco soube
identificar isso, muito bem, quando nos disse:
«A
novidade nos dá sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se
temos tudo sob controle, se somos nós que construímos, programamos e planejamos
nossa vida... Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de
Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em nossas estruturas caducas que
perderam capacidade de resposta?»
Sábias, proféticas e oportunas palavras, essas de Papa Francisco! Por isso, faz-se necessário um profundo e autêntico câmbio de vida! De nada servirão decretos e iniciativas de mudanças vindos de cima, do Vaticano, do Papa, se, na base, o Povo de Deus, as lideranças leigas, os presbíteros, os diáconos, as(os) religiosas(os) não se derem conta que precisamos mudar de caminhos, de direção! Precisamos nos deixar “batizar pelo Espírito Santo”, isto é, nos enxarcarmos, nos impregnarmos verdadeiramente do amor e da misericórdia do Cristo! Do contrário, seguiremos sendo uma Igreja muito bem estruturada e organizada, mas que não consegue cativar, calar fundo no coração das pessoas, especialmente, dos mais jovens de nossa sociedade!
João Batista, assim como todos os autênticos profetas de Israel, sempre viveu no limite ou, inclusive, fora dos limites impostos pela sociedade de sua época! Também hoje, se quisermos resgatar o profetismo perdido de nossa Igreja, devemos ter a coragem de não percorrer, apenas, caminhos conhecidos e batidos! Alguém que, simplesmente, vive como um “funcionário de Deus”, um “funcionário da estrutura eclesial” não será capaz de propor algo alternativo! A novidade e a salvação não vêm de onde e da maneira com que as esperamos! Elas vêm, sempre, do inesperado, do inusitado, do inusual!
A Igreja ora, com este salmo, no tempo
do Advento, para exprimir a espera de seu rei de paz, libertador dos pobres e
dos oprimidos:
«Dai ao Rei vossos poderes, Senhor Deus,
vossa justiça ao descendente da realeza! Com justiça ele governe o vosso povo,
com equidade ele julgue os vossos pobres. Nos seus dias a justiça florirá e
grande paz, até que a lua perca o brilho! De mar a mar estenderá o seu domínio,
e desde o rio até os confins de toda a terra! Libertará o indigente que
suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar. Terá pena do indigente e do
infeliz, e a vida dos humildes salvará.
Seja bendito o seu nome para sempre! E que dure como o sol sua memória! Todos
os povos serão nele abençoados, todas as gentes cantarão o seu louvor!»
(Salmo
71(72),1-2.7-8.12-13.17 – Responsorial
da liturgia do 2º Domingo do Advento, Ano Litúrgico A – tradução do Lecionário
Dominical – edição brasileira)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – II Domenica di Avvento – Anno A – 4 dicembre 2016 – Internet: clique aqui (Acesso em: 27/11/2022).
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