Solenidade da Santa Mãe de Deus – Homilia
Evangelho: Lucas 2,16-21
Frei Alberto Maggi*
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
A
ternura e a bondade dominaram a escuridão e conquistaram o coração humano
O primeiro dia do ano novo se abre com uma Boa Notícia. E qual é essa Boa Notícia? Aqueles que a religião considera os mais afastados e distantes de Deus, para Jesus, são os mais próximos. Vejamos o que o evangelista Lucas nos diz no capítulo 2, versículos de 16 a 21. Para compreender melhor aquilo que o evangelista nos diz, é necessário dar um passo atrás. Os pastores eram considerados pessoas impuras, marginalizadas devido à sua atividade. Eram excluídos como pecadores, porque viviam em um modo fora da lei religiosa, por isso, não podiam participar das funções religiosas do templo e da sinagoga. Acreditava-se, então, que quando o Messias viesse, os castigaria, os puniria. No entanto, quando o anjo do Senhor, que é o próprio Deus, entra em contato com eles, não os incinera em sua ira, mas os envolve com a sua luz, isto é, com o seu amor! Com isso, o evangelista desmente a doutrina tradicional, a qual dizia que Deus recompensa os bons e castiga os maus! Quando Deus se encontra com os pecadores, não os repreende, não os pune, mas os circunda com o seu amor.
Portanto, esse é o fato que precede a passagem do Evangelho deste domingo.
Lucas
2,16:**
«Naquele tempo, os pastores foram às pressas a Belém e
encontraram Maria e José, e o recém-nascido, deitado na manjedoura.»
O Filho de Deus, que lhes foi anunciado, não nasceu em um palácio ou em um templo, mas na condição que eles conhecem.
Lucas
2,17: «Tendo-o
visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino.»
O que
lhes foi dito por parte do anjo do Senhor? O anjo do Senhor lhes tinha
comunicado uma grande alegria pelo nascimento do Salvador. Portanto, não a
chegada do justiceiro, aquele que premiaria os bons e castigaria os malvados, mas
do Salvador. Essa Boa Notícia seria para todo o povo!
Lucas
2,18: «E
todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam.»
É estranho que, da parte daqueles que escutam os pastores, não há alguma reação de alegria diante dessa notícia, mas, apenas, perplexidade! Há algo que não está certo! Porque na doutrina tradicional, Deus castiga os pecadores. Então, como essas pessoas que são pecadoras e impuras (os pastores) têm a coragem de dizer que Deus os circundou e envolveu-os com o seu amor?! Portanto, os que escutam estão chocados com as notícias trazidas pelos pastores. Desaba aquilo que a religião ensinava. A novidade é o escândalo da misericórdia de Deus para com os pecadores, que será o fio condutor de todo o Evangelho de Lucas!
Lucas
2,19-21: «Quanto
a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração. Os
pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e
ouvido, conforme lhes tinha sido dito. Quando se completaram os oito dias para
a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo
antes de ser concebido.»
O Natal ensina-nos a procurar o futuro na história dos pequeninos deste mundo,
entre os invisíveis, os rejeitados, os descartados. Ali está o verdadeiro
laboratório do qual depende o destino da humanidade. E é nesses mundos
paralelos que devemos buscar nossas alianças.
Então o
Natal nos ensina que o verdadeiro poder está sempre desarmado. A difusão de episódios
de protesto cada vez mais belicosos e violentos volta a encher as páginas dos
noticiários:
* grupos
de militantes neonazistas;
* grupos
de ataque aos membros da comunidade LGBTQIAP+;***
*
feminicídios;
*
estudantes que disparam e matam nas escolas;
*
grupos racistas que atacam, ferem e matam moradores em condição de rua,
indígenas etc.
Na web
(= internet), nas redes sociais e nos jornais, as linguagens estão cada vez
mais ferozes. Assim, acabamos nos dilacerando, talvez em nome de uma
reivindicação extrema de liberdade. Se olharmos de perto. O exército dos
indignados muitas vezes descarrega apenas uma raiva surda, mais filha do vazio
do que da injustiça.
Também
de Belém começa uma revolução, mas construtiva, que acredita na força da
mansidão, na dignidade da pessoa e na onipotência dos sentimentos que, se
cultivados, podem habitar o seu coração.
E aqui
está o segundo milagre: no meio da noite, figura de todas as noites da história
da humanidade, a ternura se manifesta. Ternura precisamente onde poderiam ter
surgido a arrogância, a violência, a indiferença e a maldade. Lucas nos conta
não só o cumprimento do mistério de Deus, mas também o cumprimento do mistério
do homem nas atitudes de Maria e José. Assim, o nascimento do Salvador molda um
modo de vida, dá forma à humanidade.
Em
Maria, o acolhimento do Filho torna-se uma série de gestos simples, mas
inequívocos: deita-o na manjedoura, envolve-o em panos, oferece-o ao mundo no
encontro de quem quer aproximar-se dela.
Somos
levados a pensar que esta ternura instintiva se torna o fundamento da
humanidade de Jesus e, se pensarmos bem, o fundamento de todo o seu Evangelho.
Assim é o milagre humano que ilumina a noite de Belém, a força silenciosa que permite que o milagre divino permaneça na história e não se perca na noite.
Se
isso for verdade, então entendemos que celebrar o Natal do Evangelho nos educa
a sermos mais humanos, a evitar a indiferença e a praticar a mansidão. E se
aqueles que vão se cumprimentar nestas horas realmente o celebrassem sob esta
luz, talvez houvesse menos desespero ao nosso redor.
Sim,
porque a mansidão e a ternura evangélica se opõem a qualquer sentimentalismo
vazio, pois pedem para se tornar um gesto no cuidado da vida, na sensibilidade
por tudo o que é frágil e vulnerável.
Tenha
cuidado para não ceder à poesia novamente, no entanto. A ternura não é apenas a
atitude de uma mãe para com seu filho. A ternura é constitutiva do amor adulto
e maduro. É o aspecto visível daquele amor que – como diz São Paulo – não
inveja, não busca os próprios interesses, não mente, não falta com o respeito,
não se vangloria, não se orgulha, não humilha, não despreza, pelo contrário,
tudo lamenta, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta (cf. 1Cor 13,4-7).
A
ternura é o destilado desse amor que nunca vai acabar. Mas é um destilado
poderoso. Em Belém cumpriu-se a palavra da Escritura:
«18,14 De fato, quando um
tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu
curso, 18,15 a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono
real, precipitou-se... ao meio de uma terra condenada ao extermínio. 19,6
Então, a criação inteira, obediente às tuas ordens, foi remodelada em cada
espécie de seres, como no princípio, para que teus filhos fossem preservados
ilesos.» (Sb 18,14-15; 19,6)
E assim continuará a acontecer em cada geração, até ao fim dos tempos, onde a Palavra mansa, mas poderosa será acolhida e vivida com inevitável ternura.
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os
textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto
Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São
Paulo: Paulus, 1994.
*** A sigla LGBTQIAP+ significa: L = lésbica; G = gay; B = bissexual; T = transgênero, travesti e transexuais; Q = queer; I = intersexual; A = assexual; P = pansexual; + = o sinal de mais está aqui para indicar que a comunidade inclui mais expressões de gênero e de sexualidade, como o arromantismo (não ter desejo de viver um romance) e o poliamor (cultivar vários relacionamentos amorosos ao mesmo tempo).
«Senhor Jesus, nesta noite santa
contemplamos o rosto de Deus no teu rosto, o teu esplendor recorda-nos o nosso
antigo esplendor e antecipa e assegura-nos que, pela tua paixão, morte e
ressurreição, também nós, um dia, teremos parte nesse brilho e graça. Pelo teu
dom. E hoje nós, inconscientes como os pastores, chegamos à gruta para
observar, para querer compreender, para tocar com as mãos o anúncio do anjo...
Diante de tanta bondade e luz, fica muito claro para nós o que devemos fazer:
tirar os sapatos, vestir a veste branca da graça, converter-nos e depois...
comportar-nos como Maria: contemplar-te com os olhos em adoração, alimentar-nos
com os olhos e o coração do teu Corpo santo que alimenta e dá vida, e... parar
para apreciar todas essas coisas, ponderando-as em nossos corações. Depois e só
depois de nos teres fortalecido por te teres feito nosso dom, dom da graça e
instrumento de vida nova, também nós somos chamados, com os pastores, a
regressar à nossa pálida vida quotidiana "glorificando e louvando a Deus
por tudo o que eles tinham ouvido e visto”. Amém.»
(Fonte: Marino Gobbin. Natale
del Signore: orazione finale. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina sui
vangeli festivi: per l’anno liturgico A. Leumann [TO]: Elledici, 2010, p. 73-74.)
Fonte: Collaborazione Pastorale di Codroipo – Omelia nella Notte di Natale – Duomo di Codroipo, 24 dicembre 2018 – Internet: clique aqui (Acesso em: 15/12/2022).
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