Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 2,13-15.19-23
Frei Alberto Maggi*
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Deus está
sempre ao lado de sua família
O evangelista Mateus é um grande teólogo e provavelmente é ele o escriba que, como Jesus disse, “tira coisas novas e antigas de seu tesouro”. Ao apresentar a figura de José, pai de Jesus, com grande habilidade o evangelista funde, neste personagem, grandes libertadores da história de Israel: José, filho de Jacó, que havia sido vendido pelos irmãos, mas que salvou sua família trazendo-a para o Egito; Moisés, o grande libertador, que salvou seu povo, levando-o para longe do Egito.
Mateus 2,13a:** «Depois que os magos
partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse:»
Mas
vamos ver o que o evangelista nos escreve, no capítulo 2 de seu evangelho, do versículo
13 em diante. No texto grego, literalmente se diz: “Eles haviam acabado de
sair” ― são os Magos ― “quando um anjo do Senhor” ― eis aqui entra em ação
o anjo do Senhor: uma fórmula que indica não um anjo enviado pelo Senhor, mas o
próprio Deus quando ele se comunica com os seres humanos. Neste evangelho, ele
aparece em três momentos importantes: para anunciar a vida de Jesus, para defendê-la
― como vemos agora ― das conspirações assassinas do rei Herodes e, no momento
da Ressurreição, a fim de confirmar que a vida, quando vem de Deus, é
indestrutível!
Aqui o evangelista fala dos sonhos de José como os sonhos do Patriarca Jacó, o homem dos sonhos, como está escrito no livro de Gênesis.
Mateus 2,13b: «“Levanta-te, pega
o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque
Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.»
Por que isso? Herodes era um rei ilegítimo, não tinha sangue judeu nas veias e estava obcecado de qualquer um que tivesse poder de tirá-lo do seu trono, a ponto de chegar a matar uma dúzia de membros da família dele e até três filhos, o último dos quais alguns dias antes de morrer ele próprio. Mas o evangelista, usando a figura de Herodes, quer representar a figura do Faraó que ordenou o massacre no Egito de todos os filhos do sexo masculino do povo judeu e, por intervenção divina, foi salvo só Moisés!
Mateus 2,14-15: «José levantou-se
de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. Ali ficou até a
morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Do
Egito chamei o meu Filho”.»
“Ele acordou de noite” (texto grego) ― como a noite de Páscoa, a noite da libertação ― “pegou o menino e sua mãe e partiu para o Egito”. Portanto, assim como José ― o patriarca ― salvou sua família no Egito, o mesmo fez José, pai de Jesus.
Mateus 2,19-20: «Quando Herodes
morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse: “Levanta-te,
pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que
procuravam matar o menino já estão mortos”.»
Aqui o evangelista não faz nada além de tomar literalmente a citação do livro de Êxodo, do que está escrito de Moisés, quando o Senhor disse a Moisés em Madiã ― é o quarto capítulo do livro de Gênesis ― “Vá, volte para o Egito, porque aqueles que ameaçavam sua vida estão mortos”. Moisés levou sua esposa e filhos, colocou-os no jumento e voltou para a terra do Egito. É exatamente isso que o evangelista agora escreve sobre José, esposo de Maria.
Mateus 2,21-22: «José levantou-se,
pegou o menino e sua mãe, entrou na terra de Israel. Mas, quando soube que
Arquelau reinava na Judeia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para
lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a
região da Galileia,»
De
fato, quando Herodes, o Grande, morreu, o reino foi desmembrado e dividido:
Arquelau ficou com Judéia, Samaria e Idumeia; a Herodes Antipas ― o rei que
mais tarde verá as ações de Jesus ― Galileia e Pereia; finalmente para o outro
filho, para Filipe, toda a parte ao leste e ao norte do lago de Tiberíades. “Arquelau
reinava na Judeia”, reinar no lugar de seu pai significa que ele era um
assassino como o pai. De fato, Arquelau começou seu reinado com um massacre de
três mil judeus! O poder é sempre assassino. Em face dos dons de Deus, o poder
responde sempre com o terror.
“Depois de receber um aviso em sonho”, novamente os sonhos de Giuseppe retornam.
Mateus 2,23: «e foi morar numa
cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos
profetas: “Ele será chamado Nazareno”.»
Enquanto
a Judéia deve seu nome a Judá, um dos patriarcas de Israel, esta região no Norte,
na fronteira com os pagãos, era tão desprezada que o profeta Isaías, no
capítulo 8, desejando identificá-la dizia: “O distrito dos gentios”, quer
dizer, “o distrito pagão”. O distrito em hebraico é chamado “galîl”,
daqui vem “Galileia”. Então parece uma área perdida!
“E
foi morar em uma cidade chamada Nazaré”. O povoado de Nazaré nunca é mencionado
nos textos da Bíblia, não gozava de um bom nome. No evangelho de João, conhecemos
a resposta cética de Natanael quando lhe dizem que Jesus vinha de Nazaré, ele comenta:
“Mas alguma coisa boa pode vir de Nazaré?” (Jo 1,46). Então a aventura
de Jesus nasce no mundo sombrio!
“Isso
aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: ‘Ele será chamado
Nazareno’”. Aqui vemos a grande habilidade de Mateus, o grande escriba, o
grande teólogo. Literalmente, o evangelista escreve Nazoreo; porque combina
três termos diferentes: o primeiro, é “Neser” que significa o “broto”, e
é tirado do capítulo 11 do profeta Isaías, na profecia “Um Broto brotará de
suas raízes”, das raízes de Jessé pai de Davi; o outro é o termo “Nazir”
que significa “consagrado” ― quer dizer, o homem que vive para Deus ― e,
finalmente, é claro, o nome de Nazaré.
Portanto, esta página é uma grande obra-prima da literatura, teologia e espiritualidade e o significado é: Deus está sempre ao lado de seu povo e Deus sempre desperta novos libertadores em favor de sua família.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José
Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
José María Castillo
“Minha mãe e meus irmãos são
estes: os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.”
(Lucas 8,21)
A Igreja celebra a festa da família no domingo seguinte ao Natal. A instituição familiar é de importância capital para a estabilidade da sociedade. Quando, em um país, a família se desintegra, o tecido social se decompõe. A consequência é a violência em todas as suas formas. Sobretudo, a violência contra os mais fracos: as crianças, as mulheres, os idosos, os deficientes etc.
Não existe um «modelo cristão» de família. Porque a família, antes de ser um «fato religioso», é um «fato cultural». Por isso, o modelo de família depende, sobretudo, da cultura em sua totalidade, não da dimensão religiosa da cultura. O Magistério da Igreja se empenha em defender que existe um único modelo de família, deduzido de uma pressuposta «lei natural», a família patriarcal, uma vez que, segundo os teólogos católicos, o matrimônio heterossexual e monogâmico teria sido instituído por Cristo, fiel a essa pressuposta lei natural.
Porém, não existe argumento teológico algum que possa demonstrar que isto seja assim e tenha de ser assim. No mundo, sempre tem havido tantos modelos de família quanto os modelos de cultura. Não nos esqueçamos que a família tradicional não era uma unidade religiosa, mas uma unidade econômica, que se regia e se regulava por interesses econômicos, segundo as leis usos e costumes do direito romano e, mais tarde, do direito civil. Há de se esperar até o Concílio de Latrão II (ano 1139), para se ouvir falar do «caráter religioso» do matrimônio.
Jesus foi
muito crítico com a família. Com a sua (Mc 3,21; 6,1-6 paralelos; Mt 12,46-50
paralelos; Jo 7,1-5) e, sobretudo, com a família em geral (Mt 10,34-42; Lc
12,51-53; 14,26-27; Mt 8,21-22; Lc 9,57-62). Para Jesus, as relações
comunitárias, baseadas na fé, se antepõem às relações de parentesco, baseadas
nos laços de sangue. As relações de parentesco são obrigatórias. As relações de
fé são livres e fonte de liberdade. O ideal é a «relação pura» baseada na
comunicação emocional, no respeito, na delicadeza extrema e na transparência,
que centra seus esforços em entender o ponto de vista do outro.
(Fonte: CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al evangelio diario – Ciclo A (2013-2014). Bilbao: Editorial Desclée De Brouwer, 2013, páginas 60-61.)
«Nós
te louvamos e bendizemos, Pai, porque mediante teu Filho, nascido de mulher
pelo poder do Espírito Santo, nascido sob a lei, tu nos redimiste da lei e
encheste a nossa existência de luz e de nova esperança. Que as nossas famílias
sejam acolhedoras e fiéis aos teus projetos, ajudem e apoiem os sonhos e os
novos entusiasmos dos seus filhos, envolvam-nos de ternura quando estão
frágeis, eduquem-nos a amar-te e a todas as tuas criaturas. A ti nosso Pai,
toda honra e toda glória.»
(Fonte: SECONDIN, Bruno, O.Carm. Orazione finale. In: CILIA, Anthony, O.Carm. [a cura di]. Lectio
divina sui vangeli festivi per l’anno liturgico B. Leumann [TO]: Elledici,
2009, p. 63.)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – Santa Famiglia – Anno A – 29 dicembre 2019 – Internet: clique https://www.youtube.com/watch?v=6K1BjL-L2Ag (Acesso em: 16/12/2025).
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