Solenidade do Natal de N. S. Jesus Cristo – Anos A, B e C – Homilia (Missa do dia de Natal)
Evangelho: João 1,1-18
Frei Alberto Maggi*
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Jesus
não é como Deus, mas Deus é como Jesus
A liturgia deste dia de Natal apresenta-nos o prólogo do Evangelho de João. O prólogo são os primeiros 18 versículos de seu evangelho, nos quais o evangelista resume e antecipa todo aquilo que escreverá, cada palavra deste prólogo será posteriormente desenvolvida.
João
1,1-3.18:** «No princípio era a Palavra,
e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com
Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. [...]
A Deus, ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do
Pai, ele no-lo deu a conhecer.»
Bem, o
evangelista começa corrigindo a Escritura e termina negando-a. Na verdade, ele
começa o seu evangelho escrevendo: “No princípio era o Verbo”, o verbo
significa a palavra, é uma palavra criativa, que realiza o plano de Deus na
criação, “era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. O
evangelista corrige a interpretação bíblica no livro do Gênesis, primeiro livro
com o qual a Bíblia abre, onde está escrito: “No princípio Deus criou o céu
e a terra”. Para o evangelista, Deus, antes mesmo de criar o céu e a terra,
já tinha esse plano, que queria concretizar. Mas não só: ao usar a palavra, o
termo “Verbo”, ou seja, palavra, o evangelista contrasta a tradição bíblica,
que dizia que o mundo foi criado em vista das dez palavras, ou seja, do decálogo,
não, existe uma única palavra que se manifestará neste evangelho, num único
mandamento, o de Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo
13,34).
Se o
evangelista começa corrigindo a Escritura, ele conclui seu prólogo negando-a.
Na verdade, ele escreve no versículo 18, de forma peremptória: “Ninguém
jamais viu a Deus”. Mas como pode o evangelista afirmar tal coisa? No
entanto, na Bíblia lemos que Moisés, Aarão e outros 70 anciãos viram Deus (cf.
Ex 24,9-11). O evangelista não concorda: eles tiveram experiências parciais e,
portanto, a lei que eles expressam, que Moisés expressa, não pode manifestar a
plenitude da vontade de Deus. Por isso, o evangelista é lapidar: “Ninguém
jamais viu a Deus”.
“O Filho unigênito que é Deus e está no seio” (Jo 1,18b), no seio significa em plena intimidade, “do Pai, foi ele quem o revelou”. Esta afirmação é importante: para o evangelista, Jesus não é como Deus, mas Deus é como Jesus. Tudo o que pensávamos saber, que nos ensinaram sobre Deus, deve agora ser verificado com o que vemos em Jesus neste evangelho. Tudo o que corresponde, coincide, deve ser mantido, mas tudo o que se distancia ou mesmo é contraditório deve ser eliminado. Quando, neste evangelho, no capítulo 14, um dos discípulos, Filipe, pergunta a Jesus: “mostra-nos o Pai e isso nos basta”, Jesus responderá: “quem me viu, viu o Pai”. Portanto, Jesus não é como Deus, mas Deus é como Jesus. Assim, o evangelista conclui o seu prólogo com um convite a concentrar toda a nossa atenção na figura de Jesus.
João
1,17: «Pois
por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através
de Jesus Cristo.»
Pois bem, faremos uma leitura e análise desse prólogo de João indo do final ao começo. No penúltimo versículo, o evangelista afirma: “Porque a lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus”, a expressão “graça e verdade” que indica o amor generoso, o amor fiel que se faz dom. Jesus, que é a única manifestação verdadeira de Deus, inaugura uma nova relação com Deus: enquanto Moisés, o servo de Deus, havia imposto uma lei entre os servos e seu senhor, baseada na obediência da lei, Jesus, que não o é servo de Deus, ele é filho de Deus, propõe uma aliança entre os filhos e o seu pai, não mais baseada na obediência da lei, mas na aceitação e na prática do seu amor.
João
1,16: «De
sua plenitude todos nós recebemos graça por graça.»
E, sempre retrocedendo neste prólogo para compreendê-lo, lemos “De sua plenitude”, da realização desta palavra em Jesus, “todos nós recebemos: graça sobre graça”. Eis a dinâmica da vida do crente, da comunidade cristã: é um amor que alimenta o amor, um amor comunicado, que depois se transforma em amor doado.
João
1,11-15: «Veio
para o que era seu, e os seus não a acolheram. Mas, a todos que a receberam, deu-lhes
capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu
nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade
do varão, mas de Deus mesmo. E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E
nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como filho unigênito, cheio
de graça e de verdade. Dele, João dá testemunho, clamando: “Este é aquele de
quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele
existia antes de mim”.»
E o versículo mais importante, colocado bem no centro
deste prólogo, é o versículo 12, onde o evangelista já havia escrito no
versículo precedente: “Veio para o que era seu”, ou seja, este projeto,
esta realidade veio entre os seus, “e os seus não a acolheram”. Essa não
é uma polêmica com um mundo do qual a comunidade cristã já se distanciou, mas é
um aviso para ter cuidado para não cometer os mesmos erros, que, quando Deus se
apresenta, e ele se apresenta sempre em novas formas, em nome do Deus do
passado não se reconheça o Deus que vem!
Mas façamos atenção ao versículo mais importante colocado
no centro: “Mas, a todos que a receberam”, este plano de Deus que se
manifesta em Jesus, “deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus”.
Não nascemos filhos de Deus, mas nos tornamos um, nos tornamos um, acolhendo
Jesus em nossa existência e imitando-o em seu amor. Com Jesus, Deus já não deve
ser procurado, mas acolhido. Com Jesus, o homem já não vive para Deus, mas vive
de Deus, e com Ele e como Ele vai em direção aos outros.
No versículo 14, o evangelista afirma que este desígnio “se fez carne”, se realizou na fraqueza da humanidade, “e veio habitar em nós”, não significa apenas que veio habitar entre nós, mas em nós. Com Jesus, Deus pede a cada pessoa que seja acolhido em sua vida, que ela se funda com Ele, amplie a sua capacidade de amar e faça dele o único verdadeiro santuário de onde irradia o seu amor e a sua misericórdia. Enquanto no antigo santuário era o povo que tinha que ir, e nem todos tinham acesso, no novo santuário, é este santuário que vai em direção aos últimos, que vai em direção aos excluídos. O fato de este plano de Deus se manifestar na carne, na fraqueza da carne, indica que não há dom de Deus que não passe pela humanidade: quanto mais humanos somos, mais se manifesta o divino que está em nós.
João 1,4-10: «Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano. A Palavra estava no mundo – e o mundo foi feito por meio dela – mas o mundo não quis conhecê-la.»
Então,
voltando ao início do prólogo, ziguezagueamos um pouco porque é muito longo,
mas foi para entendermos o seu significado, agora compreendemos o que o
evangelista queria dizer: desde o início havia este projeto, este plano de
Deus, uma palavra que se encarna, manifesta a condição divina. E, neste plano,
escreve o evangelista, “estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a
luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la”. Eis o grande
encorajamento que o evangelista nos dá: devemos acolher este amor de Deus e
manifestá-lo. Não é necessário lutar contra as trevas, não precisamos
desperdiçar energia lutando, mas a luz deve expandir-se. Na medida em que a luz
se expande, a escuridão desaparece.
Esta ideia, que depois circulará por todo o evangelho, será então formulada por Jesus, poucos momentos antes de ser preso, quando Jesus dirá: “Coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Aqueles que se colocam ao lado da verdade da luz, do amor, serão sempre os vencedores das trevas, do ódio e da morte!
* Traduzido e
editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Onde a luz é mais
forte, as sombras são mais visíveis.»
(Amy Fogaça)
Que belo exemplo o próprio Deus nos dá! Sim, ele o Senhor do Universo, o Altíssimo, o Todo-Poderoso, o Criador! Ao assumir a “carne” humana, como nos diz o Evangelho de João, hoje, se despoja de todo seu poder e autoridade! É o Deus que se esvazia (verbo grego: kenoô) de si mesmo (cf. Fl 2,7). Ele se funde, se une ao ser humano. Portanto, Deus salva a humanidade mediante sua “descida” até nós, seu despojamento, sua privação de meios, poderes e dignidade! Isso contradiz tudo aquilo que o mundo em que vivemos divulga e promove. Afinal, para a nossa sociedade, o que importa é ter dinheiro, bens, poder, aparência e fama. Tudo se resume a isto!
No entanto, Deus se encarna com uma outra mensagem, com uma outra proposta: eu vos amo e, por isso, vós deveis amar-vos uns aos outros, pois eu sou AMOR! Jesus rompe a separação Deus-humanidade, rompe o dualismo carne-espírito, a separação transcendente-imanente! Como exprime, muito bem, Johan Konings: “O ser divino de Jesus não está à parte, mas está exatamente em seu ser carne... Jesus é em pessoa o que Deus nos quer comunicar, desde sempre”.
O Natal vem nos
recordar algo de fundamental, ou seja:
«Há
futuro e esperança, não no crescimento do poder, mas na convivência e comunhão
com o humano, com o mais humano que há em todo ser humano» (J. M. Castillo).
Natal é a festa da humanidade, afinal, Deus não se esqueceu de nós, seres humanos, tornando-se, ele mesmo, humano como nós para manifestar a sua salvação! Portanto, há e sempre haverá esperança para nós!
«Ó Pequena Criança! Meu único tesouro,
me abandono aos teus Divinos Caprichos. Não quero outra alegria além de te
fazer sorrir. Imprime em mim tuas graças e tuas virtudes infantis, para que no
dia do meu nascimento no Céu, os anjos e santos as reconheçam em sua noivinha.»
(Fonte:
Santa Teresa do Menino Jesus. Preghiera n. 14. In: CILIA, Anthony, O.Carm. [a cura
di]. Lectio divina sui vangeli festivi per l’anno liturgico B. Leumann
[TO]: Elledici, 2009, p. 57)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – Natale – 25 dicembre 2016 – Internet: clique aqui (Acesso em: 21/12/2023).
Comentários
Postar um comentário