Como lidar com a secura emocional?
Morto por dentro
Anselm Grün
Teólogo,
Psicólogo e Escritor alemão
Monge
Beneditino – Abadia de Münsterschwarzach
Há
pessoas que secaram internamente. Elas não conseguem sentir mais nada. São
incapazes de se entusiasmar por alguma coisa. Todos os sentimentos estão
ressequidos. Tais pessoas percebemos como mortas internamente. Sem emoções, o ser humano parece morto.
Sentimentos conferem vigor o homem. Eles permitem que a vida lhe pareça plena
de sentido. Através das emoções, ele percebe a si mesmo. Mas se as emoções secam e murcham, o homem não se sente vivo. Ele
se atrofia internamente.
Em aconselhamento espiritual,
sempre vejo pessoas que sofrem por sua secura emocional. Elas adorariam sentir.
Mas não sentem nada. Não conseguem se alegrar por coisa alguma. Mesmo o luto
não é capaz de tocá-las realmente. Às
vezes essa insensibilidade emocional é sinal de depressão. Na depressão, a
vida afetiva se paralisa. Mas também há secura emocional fora da depressão.
Trata-se simplesmente de se estar desconectado das emoções. Os sentimentos são como uma fonte que emana
vivacidade. Porém, para algumas pessoas, essa fonte está seca.
Pessoas que sofrem de secura
emocional seguem simplesmente levando a vida. Suas vidas não têm altos e
baixos, tudo é igual. A vida segue por uma via árida. Também a paisagem é seca.
Ali não há nenhum verde pelo qual se alegrar. Tais pessoas invejam as que conseguem se entusiasmar e se alegrar.
No que tange ao outro, são insensíveis. Quando instadas sobre o que sentiram ao se
encontrarem com essa ou aquela pessoa, respondem: Nada. São incapazes de sentir como o outro está realmente. Elas apenas ouvem as palavras, mas sequer
notam os sentimentos do outro. Isso geralmente leva a conversas que magoam.
Elas não querem ferir, mas, do momento que se esquivam, subestimam os
sentimentos alheios e a eles reagem laconicamente, por certo que o outro fica
ofendido. Ele não sente que é levado a sério com seus sentimentos, simplesmente
passaram por cima deles.
Alguns sofrem de secura
emocional e se sentem inferiores às outras pessoas. Em contrapartida, outros não querem aceitar sua secura emocional e
preferem ferir seus semelhantes. Eles acusam as pessoas de agirem por
sentimentalismo barato ou por excitação emocional; chamam o outro de
sentimentaloide ou falam depreciativamente sobre tipos emotivos com os quais
não se pode conversar razoavelmente. Mas, com isso, elas apenas se desviam da
miséria particular em que se encontram devido à sua insensibilidade e secura
emocional.
Durante discussões, pessoas
insensíveis sequer percebem as emoções que movem os outros. À medida que
argumentam unicamente com imparcialidade, suscitam raiva e incompreensão no
outro. Junto a tais pessoas, os outros não encontram ouvidos para seus
sentimentos, anseios e desejos. Para o
mundo exterior, na maioria das vezes, essas pessoas secas e insensíveis
aparentam ser fortes. Elas não dão valor às suas emoções.
Porém, na realidade, elas, de
fato, assemelham-se a androides sem alma. Ninguém procura sua companhia. E,
assim, elas caem em isolamento. De vez
em quando, as pessoas insensíveis sentem sua solidão. Então, eu procuro
chamar-lhes a atenção para esse sentir; elas devem investigar em si mesmas esse
sentimento de solidão. Desse modo, elas então ao menos vivenciam um sentimento.
Ou eu deixo que percebam dentro de seu corpo: Como parece a secura emocional?
Ela também é um sentimento; também posso
reconhecer e sentir a insensibilidade.
Quando alguém sofre por causa
de sua secura emocional, ele sente alguma coisa. Eu procuro, então, aproximá-lo
desse sentimento. Em seguida, ele
reconhece que não existe ninguém que não tenha sentimentos; eles talvez
estejam apenas embotados, sem viço, mas, ainda assim, capazes de serem
encontrados por debaixo da superfície árida.
É necessário atenção e cautela para se descobrir os
sentimentos velados sob a pétrea camada de sentimentos reprimidos. Os sentimentos querem ser desvelados. Eu procuro sentir-me em meu íntimo, ao
mesmo tempo que abro passagem nessa camada dura, a fim de atravessá-la, para,
enfim, tocar os sentimentos que jazem sob ela. Desse modo, eles podem aflorar
vagarosamente. E, em meio a um campo seco, começarão então a desabrochar
vigorosamente os primeiros botões dos sentimentos e, novamente, eles me
restituirão a vida.
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