O brasileiro está mudando de caráter
Entrevista
com Luis Fernando Verissimo
Flavio Ilha
ExtraClasse
15-09-2017
Imaginar um cara como o Bolsonaro com os índices de
intenção de votos
que ele tem é realmente preocupante
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LUIS FERNANDO VERISSIMO |
O
cidadão Luis Fernando Verissimo, 81
anos, nascido em Porto Alegre no dia 26 de setembro de 1936, está oficialmente
livre desde 1º de setembro de 2017. Demitido da RBS depois de 40 anos de
contribuição quase diária, o escritor, cronista, músico, desenhista e pensador
tem agora um imenso desafio pela frente: manter
atualizado o recente contrato de comodato que firmou com a Universidade do Vale
do Rio dos Sinos (Unisinos).
O acervo de textos,
rascunhos, traduções, cartuns e outras criações está sendo transferido para a
biblioteca do novíssimo campus de Porto Alegre [da Unisinos]. Tarefa
difícil, já que o acervo é composto por
382 livros, entre títulos do autor, antologias e edições estrangeiras, mais de mil títulos de periódicos, além
de troféus, quadros, esculturas e outros objetos recebidos pelo escritor como
forma de homenagem. Difícil porque Verissimo ainda está em pleno exercício
produtivo. E também porque não pretende morrer tão cedo.
“Eu
acho que o acervo devia ser apenas de obra acabada, o que evidentemente não é o
caso. Então, digamos que seja um meio
acervo de um autor meio vivo”, brinca Verissimo com sua ironia contumaz.
Formalizado na última quarta-feira, 13 de setembro, o acervo irá ocupar a partir de agora, segundo Verissimo, “um cantinho”
da biblioteca da Unisinos e estará disponível para consulta por estudantes,
pesquisadores e público em geral.
Com
recorrentes problemas de saúde desde meados de 2013, que lhe renderam algumas
semanas em UTIs e muitas horas em salas de cirurgia, o escritor continua sagaz
e extremamente crítico, especialmente com os rumos do Brasil.
Elegante
e discreto, diz que sua demissão da RBS
– depois de uma ruidosa homenagem pelos seus 80 anos, comemorados em 2016 – foi uma decisão administrativa. Mas
sabe que, na prática, foi o último laço
profissional que o ligava ao Rio Grande do Sul – descoberto pela L&PM,
há anos ele publica seus livros pelo selo Cia.
das Letras [São Paulo]. “Hoje, a única relação do pai com o Rio Grande do
Sul é apenas morar em Porto Alegre”, lamenta a filha Fernanda, que junto com a
esposa Lucia ajuda a cuidar do acervo do cronista.
A
demissão da empresa que ajudou a revela-lo nacionalmente e se tornar um
best-seller acabou determinando a interrupção de projetos que tomavam tempo
demais do escritor, como as tiras semanais da Família Brasil e os textos
semi-ficcionais publicados aos domingos no jornal O Estado de São Paulo. “Eu
realmente estava trabalhando com coisa demais, então foi só para trabalhar
menos. Como fui demitido da Zero Hora, não tinha mais sentido manter só para um
jornal”, diz nesta entrevista para o ExtraClasse, realizada na sexta-feira,
15, no escritório intocado que foi do pai, o romancista Erico Verissimo.
Na
conversa, Verissimo relatou um pouco sua
relação com a escrita, as preocupações com a onda reacionária que toma conta do
país e o arrependimento de não ter seguido a carreira de músico – o
escritor é um saxofonista amador desde os 16 anos. “Eu lamento não ter me
aprofundado na música porque hoje eu preferiria ser músico do que qualquer
outra coisa”, confessou. Divertido, paciente, com sua conhecida parcimônia com
a palavra falada, Verissimo chegou inclusive a revelar qual livro seu poderia
ser queimado em praça pública pelo MBL – quando esse momento chegar.
Eis
a entrevista.
Por
que essa ideia de ceder seu acervo a uma instituição universitária?
Luis Fernando
Verissimo: A ideia do acervo é
justamente essa: pesquisadores, estudantes e qualquer pessoa se informar sobre
o autor, fazer pesquisa, essas coisas. Está ali para quem quiser ver. Então, o
acervo vai ser um cantinho ali da biblioteca da Unisinos (no campus de Porto Alegre).
Ficou simpático. Por enquanto reunimos material físico, mas é uma discussão que
temos de ter. De vários anos para cá os textos são digitais, não há mais
originais impressos. E muito material está só no formato digital, nunca foi
para uma publicação física.
Começa
em 1969?
L. F. Verissimo: Sim, com as primeiras
publicações na Zero Hora. Algumas
coisas de publicidade, também, muitos anúncios publicados, com autoria.
Roteiros da TV Pirata, da Comédia da Vida Privada. E vai para lá também um
exemplar de cada primeira edição, as traduções em russo, inglês, francês,
italiano, coreano, sérvio. Tem troféus, presentes.
Os
horóscopos não?
L. F. Verissimo: Não, acho que não (risos). Tem muita ilustração, também.
Campanhas da Ipiranga, da época da (agência) MPM. Coisas que a Lúcia guardou ao
longo do tempo. Tem muito rascunho, muitos papéis avulsos. Frases. Muitos
desenhos, geralmente de figuras humanas. Mas nada feito para usar em textos, é
só passatempo mesmo. Enquanto se está
pensando sobre que escrever, vou desenhando. Nesse caso, apelo muito para o
jogo da paciência também. Mas isso não está indo para o acervo (risos). A
tesoura da Lúcia é incrível.
Era
hora de fazer isso?
L. F. Verissimo: Sim, estava na hora. Todo esse material estava guardado aqui em
casa, numa catalogação caseira, doméstica. A ideia da Unisinos, desde o
início, há cerca de dois anos, era que o acervo ficasse em Porto Alegre. Viesse
junto com a abertura do novo campus, o que acabou ocorrendo. A ideia é de o acervo ser usado por
diferentes áreas, o que me agrada.
Qual
é a sensação de virar um acervo?
L. F. Verissimo: Eu acho que o acervo devia
ser a obra acabada, o que evidentemente não é o caso (risos). A minha biblioteca pessoal naturalmente não vai para lá, o
que é um elemento importante de pesquisa, saber quem me influenciou, o que eu
li. Então, digamos que seja um meio
acervo de um autor meio vivo (risos).
Mas não vou reclamar, não.
Teus
livros têm anotações? Ou páginas dobradas nos cantinhos.
L. F. Verissimo: Anotações não. Mas páginas
dobradas nos cantinhos têm bastante. Só que às vezes, como não tem anotação,
esqueço por que marquei aquela página. (risos).
Como lidar com um volume tão extraordinário de
informação, necessário ao teu ofício?
L. F. Verissimo: O grande problema é que esse
ofício, de escrever sobre o que está acontecendo de fato, não me permite mais
ler livros, literatura de ficção. Faz anos, nem sei quantos, que não leio um
livro de ficção inteiro. Apenas trechos esparsos. O prazer de ler, que me levou
a esse caminho, ficou de lado. Leio muita revista, muito ensaio, jornais
estrangeiros.
Isso
te incomoda?
L. F. Verissimo: Sim, porque perdi o prazer
da leitura descompromissada. Estou perdendo muita literatura boa, de novos
autores. Conheço muito pouco do que se produz atualmente. E lamento muito não
ter esse tempo para autores novos.
Tu
achas que a tua primeira crônica (publicada em abril de 1969) já era uma
credencial do que serias dali para a frente? As tuas características principais
já estão ali.
L. F. Verissimo: Eu acho que sim. Eu comecei
muito tarde, então já tinha lido muito durante toda a juventude. Nunca tinha
escrito nada mas, como tinha lido bastante, sabia como se fazia. Quando comecei
eu já sabia, estava formado.
Nunca ensaiaste nada? Nunca escreveste para ti
mesmo?
L. F. Verissimo: Não, nunca. Nunca me vi como
escritor, nem como jornalista. Tinha apenas algumas traduções, publicadas na
(revista) Mistério Magazine. Nem lembro os autores, mas basicamente americanos
e ingleses, de suspense, terror. Mas o
fato de sempre ter sido um leitor voraz, quando comecei já conhecia os truques
todos.
E
os cartuns?
L. F. Verissimo: Sempre gostei muito de
quadrinhos, então comecei a variar entre texto e cartum. Especialmente nas
colunas de segunda-feira, em que eu fazia a crônica do futebol do domingo em
desenho. Bonequinhos dialogando sobre os jogos do domingo.
Quem
te influenciou nessa área?
L. F. Verissimo: Principalmente Saul Steinberg (1914-1999). Meu desenho
era muito rudimentar, não tinha acabamento. Fazia com canetinha mesmo, em
qualquer papel. Cheguei a fazer um curso de desenho com o Glênio Bianchetti (1928-2014), desenho, pintura, trabalhávamos com
modelo vivo, essas coisas. Por um ano mais ou menos. Mas não passou disso.
Nunca fiz uma tela.
E
o fim da Família Brasil?
L. F. Verissimo: Pois é. Eu realmente estava
trabalhando com coisa demais, então foi só para trabalhar menos. Como fui
demitido da Zero Hora, não tinha mais sentido manter só para um jornal (O Estado de São Paulo).
Como foi esse episódio?
L. F. Verissimo: Foi um processo normal.
Apenas deixei de ter vínculo com a empresa, agora eles compram meu material da
Agência Globo. Foi uma decisão
administrativa, estão fazendo muito isso com os velhos, que têm salários
mais altos. Mas não ficou nenhum trauma, não.
Tem
algum livro novo sendo organizado?
L. F. Verissimo: A Cia. das Letras está organizando um volume de crônicas que estão sendo selecionadas pela (roteirista e
escritora) Adriana Falcão, que
deverá sair até o final do ano. Basicamente com as crônicas mais ficcionais, publicadas aos domingos no Estadão. As crônicas sobre política
atualmente perdem a atualidade com muita rapidez.
Como
estás acompanhando a conjuntura política?
L. F. Verissimo: A novidade é essa nova direita, que sempre existiu,
mas está mais evidente agora. É uma onda
de reacionarismo que me preocupa muito. Imaginar um cara como o [Jair] Bolsonaro
com os índices de intenção de votos que ele tem é realmente preocupante.
Já
foste alvo de alguma agressão ou ameaça?
L. F. Verissimo: Recebo muita carta
desaforada, dizem para eu viver em Cuba, me chamam de comunista, uma vez até me
mandaram viver na Coreia do Norte! Seria uma experiência muito boa. Quer dizer,
boa não sei, mas pelo menos diferente (risos).
Eu não dou bola, é claro.
Alguma
ameaça?
L. F. Verissimo: Só na candidatura do Collor
(em 1989). Me mandaram uma carta ameaçando meus filhos, que sabiam da rotina
deles, iam atacar e tal. Mas não fizeram nada. O tom de agressividade subiu nos
últimos meses, é verdade, mas não chega ao extremo da ameaça violenta.
Qual
livro teu colocaria à disposição dessa nova direita para que seja queimado em
praça pública, quando chegar o momento?
L. F. Verissimo: (risos) Tem um livro meu com crônicas bem políticas, A
Versão dos Afogados (L&PM, 1994), que imagino que eles gostariam de
queimar. Está meio desatualizado, mas acho que isso não fará muita diferença (risos).
E
a tua relação com a ficção?
L. F. Verissimo: A quase totalidade de meus
romances foi feita por encomenda, só Os Espiões (2009) que partiu de uma
ideia própria, achei que era hora e fiz. Ficou direitinho. Mas meu preferido é Borges
e os Orangotangos Eternos (Cia. das Letras, 2000), que é um pouco
melhor do que os outros. Não tenho, de verdade, grandes pretensões literárias.
Por
escrever entretenimento?
L. F. Verissimo: É, acho que sim. No Brasil é
uma literatura considerada não muito respeitável, por isso os autores relutam
em se dedicar a ela. Como não busco respeito… (risos). Mas é um gênero que precisa existir, até para a
sobrevivência do mercado editorial.
Como
esperas contribuir para que novos leitores entendam esse período da história
brasileira?
L. F. Verissimo: Meu trabalho é testemunho
desse tempo, isso pode ser lido em todos os cronistas. Quem quer saber como era
o Brasil nos anos de 1960 vai ler Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio
Maria. Se eu puder fazer isso também, estará bom.
Que
tipo de testemunho acha que deste?
L. F. Verissimo: Nós falamos há pouco sobre
essa nova onda reacionária, coisas que hoje são preocupantes que há algum
tempo, pouco tempo, não eram. Apesar desse conflito social no Brasil ser
permanente. O que mudaria no meu jeito de ver a realidade seria um crescimento
nesse jeito de ação reacionária evidente e preocupante.
Na
tua opinião, não para por aí?
L. F. Verissimo: Acho que não para. Principalmente por essa desmoralização
crescente do Congresso e da política em geral, isso motiva as pessoas que
imaginem a solução num governo de força. Não sei se é inevitável, mas é uma
ameaça real. Um perigo. Quando se
poderia esperar tanta nostalgia da ditadura, mesmo sabendo de tudo que
aconteceu? Isso é surpreendente. Comecei em plena ditadura, no governo do
general Médici, então a gente já sabia dos limites. Sabia quem citar e quem não
citar. A censura era implícita, havia autocensura, e eu tentava escrever nas
entrelinhas mas às vezes nem eu entendia o que queria dizer. (risos)
Temes
a volta da censura?
L. F. Verissimo: Acho que isso é possível,
sim. Eu me preocupo com isso. Há uma ameaça e uma tendência possível de ser
notada aí.
E
o que achas do Movimento Brasil Livre (MBL)?
L. F. Verissimo: Começa com a ironia do
próprio nome: Brasil Livre. Livre de
quê? É só uma das manifestações do que pode nos esperar no futuro. Esse
tipo de pressão, esse tipo de censura, tem até características paramilitares, o
que preocupa até a imprensa internacional.
O
brasileiro deixou de ser aquele homem cordial do Sergio Buarque de Holanda?
L. F. Verissimo: Quando a gente fala no
perigo desse crescimento da direita está se referindo a isso, que não sei aonde
vai nos levar. Certamente está havendo
uma mudança no caráter do brasileiro, na personalidade comum do brasileiro.
Estamos nos transformando, para continuar na comparação que você fez, no
brasileiro selvagem. Acho que estamos
ficando mais intolerantes.
Por
quê?
L. F. Verissimo: Em parte em razão desse desencanto com a política,
culminando no desencanto com o PT.
Foi uma promessa que apareceu, mas que, no entanto, degringolou. Não sei se é
para a gente perder a esperança no PT ou ainda não, se esse partido pode nos
dar algum tipo de esperança, mas o fato é que houve um acúmulo de desencanto que culminou no que estamos vivendo.
Tu
és um desencantado com o PT?
L. F. Verissimo: Um pouco, sim. Nunca fui um
ativista, um militante, mas tinha simpatias que nunca escondi. Mas nunca fui
personalista com o Lula, por exemplo, embora reconheça que é uma figura
admirável.
Como
te defines politicamente?
L. F. Verissimo: Eu me defino como um humanista. Meu pai se definia como
um socialista democrático, o que me parece adequado para mim também: contra qualquer tipo de totalitarismo,
inclusive de esquerda.
Quando
começaste, em 1969, imaginavas ter a carreira que teve no jornalismo e na
literatura?
L. F. Verissimo: De forma nenhuma, foi tudo
acontecendo, sem planejamento. Como minha escrita: quando começo a pensar em um
assunto, muitas vezes descubro o que penso sobre ele ao longo da escrita.
É
muito difícil?
L. F. Verissimo: Varia muito. Mais difícil é
começar. Estabelecer um tom. Uma amarrada final também é difícil. Mas às vezes
vem com facilidade, não tem muita regra.
Usas
muito o senhor Google?
L. F. Verissimo: Uso bastante. Eu sempre
parto do princípio de que ele sabe o que está dizendo, então eu confio nele.
Temos uma relação saudável. (risos)
Tens
metodologia?
L. F. Verissimo: Escrevo sempre para ser
publicado, nunca para deleite próprio. Só com esse foco. Nunca fiz isso, de
escrever para mim. A diferença é que eu escrevia muito mais no passado, tinha
mais volume. Não sei se fiquei mais
conciso ou mais preguiçoso, mas meu texto diminuiu bastante. (risos)
Então,
não há prazer em escrever?
L. F. Verissimo: Concordo com o que diz o
Zuenir Ventura, que não gosta de escrever, gosta de ter escrito. O ato em si
não é muito prazeroso, não. Às vezes, não se tem a mínima ideia do que
escrever, mas é necessário, é um modo de vida. Nesse sentido, não é uma coisa
que dê muito prazer. Mas ler o que
escrevi e gostar do que escrevi compensa, mostra que valeu a pena.
E
a música?
L. F. Verissimo: Quando aprendi a tocar
saxofone, com 16 anos, minha ideia era brincar com o instrumento. Nunca pensei
em me profissionalizar, apesar de ter aprendido a tocar com partitura e tudo
mais. Com o tempo esqueci, embora tenha eventualmente tocado em conjuntos
profissionais. Eu até lamento não ter me aprofundado na música porque hoje eu preferiria ser músico do que
qualquer outra coisa.
É
mesmo? Por quê?
L. F. Verissimo: É. Um pouco pela minha
admiração pelo jazz, por tudo que o jazz proporciona, a improvisação, a criação
instantânea. Me parece bem mais completo que a criação literária. Mas em algum
momento da vida perdi a oportunidade de me aprofundar, de dominar o
instrumento. O que me deu mais prazer nesse tempo todo foi, com certeza, a
música.
Na
tua opinião, para onde vai a literatura com essa tendência de textos cada vez
menores?
L. F. Verissimo: Para falar a verdade, não
tenho a menor ideia! (risos)
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