Por que somos pobres ? ? ?
Afinal, por que é que o Brasil nunca deixa
de ser pobre?
Felippe Hermes
Porque o único caminho para enriquecer é
diluir a concentração
de poder político-econômico. E o que fazemos é
justamente o contrário
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Sem esgoto e sem água tratada, boa parte da população brasileira vive sem as mínimas condições de saúde |
Mais de 40 milhões de brasileiros moram em
residências sem acesso a água potável, mesmo estando no país com as maiores
reservas de água doce do mundo. Em um terço dos 1.444 municípios do semi árido
nordestino, mais de 10% das crianças sofre de desnutrição – no país que mais
produz proteína animal no planeta.
Mergulhando um pouco mais na história
brasileira, não é difícil perceber que
riquezas naturais e qualidade de vida para a população não são necessariamente
coisas que andam lado a lado. Nosso imenso potencial tem feito justamente o
contrário, nos ajudando a empacar em uma nada agradável 80ª posição mundial
quando o assunto é a riqueza produzida por cada cidadão. Não faz sentido. Lendo
a próxima página, no entanto, você vai entender os porquês.
Primeiro, vamos rebobinar a fita da história
até o século 17.
Na época, o Brasil e as colônias britânicas que viriam a formar os Estados
Unidos já representavam polos antagônicos na economia mundial, mas na posição
inversa da de hoje.
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No Brasil-Colônia e Império, o país vivia do plantio e colheita de um só produto, primeiro a cana, depois o café |
Por aqui,
produzíamos a maior riqueza conhecida na época, a cana de açúcar, que foi capaz
de tornar Recife uma das cidades mais ricas do mundo. Nas colônias da América do
Norte não havia um clima propício para a cana. A solução, então, foi
improvisar. Primeiro, elas se tornaram um grande fornecedor de alimentos e
animais de tração para as ilhas caribenhas que disputavam a produção de cana
com o Brasil – já que nessas ilhas todo o território se destinava à produção de
açúcar.
Aí que as coisas começaram a se desenhar. Enquanto nós e os caribenhos caíamos de
cabeça na monocultura de cana, a América do Norte usava o ouro que recebia das
Antilhas para criar variedade na agricultura, na pecuária, na pesca. Tudo num
círculo virtuoso capaz não só de distribuir melhor a riqueza, como de criar
mais riqueza. Da necessidade cada vez
maior de barcos de pesca, por exemplo, surgiu uma indústria naval que logo
passaria a vender embarcações para as potências europeias.
No Brasil, acontecia justamente o contrário. A cana enriquecia meia dúzia de senhores de
engenho, e essa renda permanecia concentrada. Em vez de regar outros
setores da economia, acabava reinvestida em mais monocultura. E seguimos assim
até o século 20.
Agora, o café era a nova cana. Fora
isso, pouco havia mudado.
A concentração
de renda na economia fomentou a concentração de poder na política. Nisso, a república
brasileira consolidou-se como uma sociedade extrativista, na qual esse pequeno
grupo se alimentava do poder político para manter inabalado seu poder
econômico, dificultando qualquer forma de inovação ou de empreendedorismo.
Lá fora, por outro lado, a diversificação dos negócios diluiu tanto
o poder econômico como o político, e a inovação ganhou um papel relevante.
“Inovação”, aliás, já virou uma palavra vazia, de tão mal usada. Então vamos
aqui para um exemplo clássico. No
Brasil, construímos nossas ferrovias com o intuito de escoar o café. Nos
Estados Unidos, a malha ferroviária desenvolveu-se num primeiro momento para
transportar a produção de alimentos. Num segundo, para escoar petróleo,
popularizado por John D. Rockfeller na segunda metade do século 19 (ainda como
fonte de energia para lâmpadas de querosene, não para carros). E aí veio uma
inovação de fato: tendo de pagar cada vez mais aos donos das ferrovias, John D.
Rockfeller decidiu construir oleodutos. Aos donos das ferrovias, coube buscar
novos clientes. E aí aconteceu uma inovação ainda mais importante.
As ferrovias
acabaram fomentando o comércio à distância, que também estava nascendo no final
do século 19.
Resultado: cem anos atrás, um americano típico já conseguia mobiliar a casa
toda comprando produtos por catálogos, mesmo que morasse em uma cidade
afastada. Numa cajadada só, isso bombou a demanda e a oferta de todo tipo de
produto. Ou seja: ao mesmo tempo em que
atiçava o comércio, isso diluía ainda mais o poder econômico – e, com ele, o
poder político.
Como virar o jogo?
Para que a sua
economia cresça você precisa unir:
* trabalho (população),
* capital (máquinas, terras, equipamentos) e
* tecnologia (educação).
A concentração de poder econômico e político
joga contra os dois últimos fatores. É que ela gera aquilo que o pessoal da
economia chama de “instituições extrativistas”. Estamos falando em
leis escritas por quem se beneficia dessas mesmas leis, em governos que, via impostos, fazem com que os pobres banquem privilégios
dos ricos, em uma educação que só atende
um pequeno grupo de privilegiados.
Tais instituições aniquilam a educação e dão
um tiro de carabina no empreendedorismo. Ou seja: o capital continua fixo nas mãos da meia dúzia de sempre, além de
perdermos a capacidade de produzir tecnologia.
Na prática, isso explica por que um americano
médio produz quatro vezes mais riqueza que um brasileiro, ou por que
alcançaremos apenas em 2026 a mesma produtividade que cada cidadão americano
tinha no início da década de 1960.
Pudera. Em
termos proporcionais ao PIB, investimos três vezes menos em educação básica do que a média dos países ricos,
ao mesmo tempo em que gastamos mais do
que a média em ensino superior. Na prática, seis em cada dez alunos que
entrem hoje na Universidade de São Paulo (USP) estão entre os 20% mais ricos da
população.
Ainda que de maneira invisível, fomentamos a manutenção da desigualdade e o
extrativismo de renda de formas que vão bem além do furto que você sofre
todos os dias ao pagar impostos para financiar Joesley Batista e cia.
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Colheita de soja - continuamos a ser exportadores de produtos agrícolas e de baixo custo |
Vendedores de matéria-prima
Tudo isso
ajuda a explicar por que os grandes produtos de exportação do Brasil sejam:
* soja,
* minério de ferro,
* petróleo cru,
* carne,
* café e
* açúcar,
enquanto os
dos Estados Unidos são:
* aviões,
* medicamentos,
* circuitos integrados.
Ainda que não
nos consideremos mais um país agrário, mantemos instituições idênticas às dos
nossos tempos de colônia, moldadas para perpetuar problemas.
Enquanto a nossa EDUCAÇÃO
for uma piada;
nossos IMPOSTOS, uma forma
de transferir renda dos pobres para os ricos,
e boa parte dos NOSSOS
POLÍTICOS, meros capachos de grandes empresas, não vai ter outro jeito:
seguiremos na mesma,
como um país desigual que vive para exportar matéria-prima.
Vai um caldo de cana?
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