Ladrão tem perdão?
Dom Odilo
Pedro Scherer
Cardeal-arcebispo
de São Paulo (SP)
Sempre é tempo de arrependimento e não é preciso
esperar o fim da vida
![]() |
D. ODILO PEDRO SCHERER |
As
denúncias de pequenos furtos e roubos de grandes fortunas são de todos os dias.
E não é de hoje: a história dos povos
registra a ladroagem em todas as épocas, da antiguidade à pós-modernidade.
A diferença é que a roubalheira vai ficando mais sofisticada e vai do esconder
tesouros em caixas de papelão e malas de viagem a estourar caixas-fortes com
dinamites e aplicar golpes pela internet. Há
roubo de todo jeito e daria para organizar uma enciclopédia da ladroagem!
Se
é verdade que amigos do alheio sempre existiram, isso não torna lícito e
aprovado o roubo, que sempre foi e continua a ser considerado um ato desonesto
e injusto, além de marcar de maneira negativa a pessoa que o pratica. É feio e
vergonhoso ser ladrão e ser chamado de ladrão não é considerado um elogio para
ninguém... Talvez, na sociedade dos ladrões, furtos e roubos possam ter algum
reconhecimento, mas essa seria uma sociedade inominável e sem reconhecimento
meritório.
Por
que não abolir de uma vez a lei que proíbe roubar, considerando que essa
prática se tornou tão comum e difundida? Que
aconteceria se o furto e o roubo deixassem de ser crimes? Tenho a certeza
de que uma “sociedade de ladrões” inventaria bem depressa seus códigos éticos e
morais para disciplinar tudo... E seriam, com grande probabilidade, bastante
rígidos! É estranho: por qual motivo os
códigos morais não funcionam bem numa sociedade que pretende estribar-se sobre
os valores da justiça, do respeito, da honestidade e da dignidade?
Talvez
haja algum problema no compartilhamento da convicção de que roubar não é
direito. Falta dizer e ensinar novamente, com todas as letras e em todos os
momentos, que não é permitido roubar, que isso é desonesto, injusto e feio,
coisa de mau caráter? Antes de chamar a
polícia para prender o ladrão, seria preciso que a sociedade se pusesse de
acordo para dizer que o roubo é um crime e que o crime não compensa, nem para o
ladrão grande nem para o pequeno.
Diante
da roubalheira deslavada, a tendência é o fechamento: muros altos, cercas
eletrificadas, câmeras de vigilância sofisticadas. Seriam a solução suficiente
para prevenir roubos e assaltos, planejados com inteligência criminosa? Basta
fazer denúncias, mandar a polícia atrás e torcer para que o ladrão não consiga
escapar e fique um bom tempo na cadeia? O
que será capaz de dissuadir do caminho da desonestidade?
O
ladrão entende que, cálculos feitos, vale a pena arriscar e roubar. Na sua
lógica, o crime compensa e, infelizmente, a prática mostra que isso pode ser
verdadeiro. Então, seria preciso abalar essa sua certeza, e os motivos para ser honesto devem ser mais fortes que a tentação de
roubar. Esses motivos só podem ser passados pela educação para os valores
construtivos no convívio social e pela dissuasão, em vista das consequências
indesejáveis do crime.
Que motivações fortes seriam
capazes de dissuadir alguém de cometer desonestidades? Nos Evangelhos há algumas
cenas nas quais Jesus trata pessoalmente com ladrões. Escolhi três casos
típicos, com desenvolvimentos e ensinamentos bem diversos.
Zaqueu era funcionário público e
recolhia impostos para os romanos, que estavam dominando a Palestina daqueles
tempos. Zaqueu era odiado pelos seus compatriotas e nem podia frequentar a
sinagoga, sendo considerado um pecador público. Um belo dia, Jesus passou pela
sua cidade e o encontrou pela rua. O
próprio Jesus chamou Zaqueu e disse que ia hospedar-se em sua casa. Zaqueu
sentiu-se valorizado, alegrou-se e recebeu Jesus com festa. O fato foi motivo
de escândalo para muitos, que não podiam entender como o Mestre havia escolhido
entrar na casa de um pecador, sentando-se à mesa em companhia de pecadores! Mas
o corrupto Zaqueu foi logo fazendo sua
autodelação: “Darei a metade dos meus
bens aos pobres e, se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”
(cf. Lucas 19,8). Sua vida mudou porque
alguém tocou na sua consciência. Nem precisou de processos demorados em
várias instâncias, cheios de jogos de cena. Zaqueu parou de roubar e reparou a
justiça lesada. Bom exemplo a ser seguido!
Outro
ladrão viveu pertinho de Jesus. Judas
havia sido escolhido para ser um dos apóstolos. Era muito avarento, fingido e
sem-vergonha. Judas é o ladrão da
consciência calejada, que não se dá conta de sua mesquinhez. Ladrão
perigoso, inserido no sistema e na máquina pública, com cara de benfeitor
populista, que não perde a chance de passar a mão no patrimônio público. Judas cuidava do caixa-comum do grupo de
Jesus com os apóstolos e roubava o que se depunha na bolsa (cf. João,
12,4-8). Sua ganância não encontrou mais limites e ele acabou negociando com os
inimigos de Jesus a traição do Mestre, na calada da noite, por umas tantas
moedas de prata (cf. Mateus, 26,14-16). O infeliz, quando se viu desprezado
pelos comparsas e abandonado à solidão da própria consciência, entrou em
desespero e se enforcou. Péssimo exemplo, a não ser imitado por ninguém, nem
pela sua vida nem pelo seu fim deplorável!
O
terceiro ladrão pode representar uma esperança para os viciados e incorrigíveis
amigos do alheio. É conhecido como “o
bom ladrão”, não por sua esperteza na roubalheira, mas porque teve uma ideia sensata no extremo da vida.
Condenado à morte por suas ações, ele reconheceu que suas façanhas de nada lhe
valeram, arrependeu-se e pediu misericórdia a Deus. Jesus viu que sua confissão
era sincera e lhe prometeu o paraíso naquela mesma hora (cf. Lucas 23,39-43). Sempre é tempo de arrependimento e não é
preciso esperar até o fim da vida. Quanto mais cedo, melhor. Deus pode
conceder a vida também ao ladrão arrependido. Sinceramente arrependido e bem
confessado! A penitência fica por conta do Estado...
Comentários
Postar um comentário