Que reforma deseja Papa Francisco
Uma “reforma da reforma” diferente:
Papa Francisco e a Cúria Romana
Massimo
Faggioli
Historiador
da Igreja
Professor da Villanova University (EUA)
LA CROIX INTERNATIONAL
05-02-2018
Apesar das esperanças dos liberais e
dos temores dos conservadores,
o Papa Francisco não governa por decreto,
nem mesmo quando se trata da Cúria
o Papa Francisco não governa por decreto,
nem mesmo quando se trata da Cúria
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PAPA FRANCISCO |
O
governo central da Igreja Católica, também conhecido como Cúria Romana, é uma instituição enigmática. É mais criticado do que
realmente compreendido.
Seu
mistério se deve, em parte, ao fato de que conhecemos apenas pedaços e peças da
sua história complexa e muito longa. Também se deve aos seus fracos fundamentos teológicos, que
forçaram as lideranças da Igreja, os teólogos e os eclesiólogos a empregarem
argumentos complexos a fim de explicar e justificar sua existência.
Mas a Cúria Romana não é uma
monstruosidade.
Ela não é um desvio do conceito da Igreja de governar e liderar a comunidade
dos fiéis durante sua história no Ocidente. Significativamente, todos os papas
do século passado – de Pio X a Bento XVI – enfrentaram o problema da governança
e da reforma da Cúria. E a maneira como cada um deles abordou a questão da
Cúria foi indicativa de outros aspectos fundamentais de seus pontificados.
Por
exemplo, Paulo VI recentrou a Cúria
em torno da Secretaria de Estado em 1967, o que era consistente com sua
aplicação descendente do Concílio Vaticano II (1962-1965). De sua parte, João Paulo II reforçou os poderes legislativo
e administrativo da Cúria, o que correspondia com o seu relacionamento com as
Igrejas locais e o episcopado. Enquanto Bento
XVI, um típico teólogo acadêmico católico pós-Vaticano II que via na Cúria
um objeto que não possui substância teológica, nunca tentou realmente uma
revisão abrangente do governo central da Igreja Católica.
Agora,
temos uma situação semelhante com o Papa
Francisco. Aspectos importantes de seu pontificado podem ser mais bem
compreendidos observando o que ele está fazendo (e não fazendo) em relação à
Cúria Romana. Aqui é importante saber que, há
vários dias, foi revelado que o papa não publicará uma nova constituição
apostólica para uma Cúria romana reformada em breve. Isso apesar das
promessas repetidas que remontam a 2013 de que uma nova carta seria redigida
para substituir a que João Paulo II emitiu em 1988, a Pastor Bonus.
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Reunião do Conselho de Nove Cardeais juntamente com o Papa Francisco |
A
revelação de que não haverá uma nova constituição apostólica veio de um artigo
noticioso do bispo Marcello Semeraro,
um italiano que atua como secretário do Conselho dos nove cardeais conselheiros
do papa (C9). Nesse longo artigo, que foi publicado na revista católica Il Regno, com sede em Bolonha, Semeraro
traça os passos que Francisco tomou até agora para reformar alguns aspectos da
Cúria (por exemplo, a criação, de sua parte, da Terceira Seção da Secretaria de Estado em novembro de 2017). Mas o
mais importante é que ele nos diz aquilo que a reforma da Cúria por parte do
papa não será, apesar das expectativas que muitos católicos tinham desde a
eleição de Francisco há quase cinco anos.
Em
primeiro lugar, a reforma não criará a
nova posição de um moderator Curiae,
uma espécie de administrador-chefe de todos os escritórios, porque, de acordo
com Semeraro, “a analogia entre a Cúria
Romana e a Cúria diocesana não é apropriada”. Em vez disso, uma seção
recém-criada na Secretaria de Estado tratará dos recursos humanos da Cúria.
Em
segundo lugar, o C9 não está apenas supervisionando a reforma da Cúria. Ele
também lida com outras questões importantes a pedido do papa, que é a maneira
como Francisco frequentemente atua para ignorar os vários escritórios e
congregações curiais quando ele julga oportuno.
Em
terceiro lugar, essa reforma da Cúria é um trabalho em andamento. “Parece prematuro identificar o momento da
publicação da nova constituição apostólica sobre a Cúria Romana”, diz Dom
Semeraro. E ele acrescenta este importante qualificador: “Isso também está
ligado, e não secundariamente, ao modo de entender a ‘reforma’ por parte do
papa”.
Semeraro descreve vários
princípios-chave que estão orientando a reforma da Cúria por parte de Francisco. Eles incluem o princípio:
*
da gradualidade
do discernimento e das experimentações (flexibilidade);
* o
princípio da tradição como fidelidade à história (nada de mudanças
drásticas);
* o
princípio da inovação (por exemplo, o novo dicastério para a comunicação,
criado entre 2015 e 2017);
* o
princípio da simplificação (fusão de dicastérios, mas também
descentralização).
Em
seu artigo, o secretário do C9 mostra que a
visão de Francisco sobre a Igreja, o papado e a Cúria Romana está fortemente
conectada. A Cúria existe não apenas para transmitir mensagens para o resto
da Igreja, mas também para receber
mensagens de uma Igreja sinodal. Ela existe para uma Igreja Católica não em
retirada, mas no mundo, de acordo com a constituição pastoral do Vaticano II, Gaudium et Spes.
Além
disso, a existência da Cúria é vital para uma Igreja que conta com o gênio
romano; isto é, a aspiração de Roma de
ser a síntese e o ponto de encontro entre as dimensões universal-internacional
e local-particular da Igreja (o que significa um papel mais relevante para
a diplomacia papal hoje do que no passado).
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Yves-Marie-Joseph Congar (1904-1995) teólogo dominicano e Cardeal francês. É considerado um dos maiores eclesiólogos do século XX. |
Trata-se
de intuições importantes, não apenas para compreender a reforma da Cúria por
parte do Papa Francisco, mas também todo o seu pontificado. O papa leva a sério a ideia de reforma de
Yves Congar:
* o
primado da caridade e da pastoralidade;
* a preservação da comunhão;
* paciência e respeito
pelos atrasos; e
* renovação através de um retorno
ao princípio da tradição.
Essa
é uma boa notícia, de um ponto de vista teológico. Creio eu que não existe nenhuma alternativa real à proposta de Congar
para uma reforma da Igreja, exceto aquela que leva a um cisma. Mas, do
ponto de vista das atuais políticas eclesiais, a questão é muito mais
complicada. A ideia de Congar sobre a
reforma da Igreja pode ser frustrante para aqueles que perderam a paciência que
o teólogo francês invocava há 50 anos.
Muitos católicos esperavam
que Francisco já tivesse implementado uma reforma institucional visível da
Cúria depois de cinco anos no cargo. Mas o papa não acredita na revisão burocrática.
Isso o distingue dos dois notáveis antecessores que são teologicamente mais
próximos dele – João XXIII, que
anunciou os planos para o Vaticano II em 1959, apenas a menos de três meses
após sua eleição; e Paulo VI, que
reformou a Cúria quatro anos após sua eleição, com a constituição apostólica de
1967 Regimini Ecclesiae Universae.
Apesar
das esperanças dos liberais e dos temores dos conservadores do status-quo, o Papa Francisco não está governando por decreto, nem mesmo a Cúria.
Isto é, apesar de uma tradição de papas que lidaram com sua burocracia em uma
abordagem weberiana legal-racional e, em última análise, “funcionalista”. A
ideia de reforma do Vaticano II não foi imune ao moderno funcionalismo
racional-burocrático (por exemplo, a inovação da idade de aposentadoria de 75
anos para os bispos).
Mas
Francisco tem uma ideia mais teológica e
menos burocrática de reforma. Ele não separa sua eclesiologia da maneira
como ele vê o problema da Cúria Romana. Para
ele, a reforma é, em primeiro lugar, movimento, e não apenas a mudança
estrutural das instituições. É uma mudança de mentalidade, que não
começa com uma mudança na lei. É uma descentralização, o que significa que as “periferias” devem assumir mais
responsabilidades. Ela faz parte do caminho para uma Igreja mais colegial e
sinodal, que é salvaguardada através do papel universal do bispo de Roma.
O
atraso sine die [sem data] da
constituição apostólica para a reforma da Cúria por parte de Francisco não é,
acredito eu, um sintoma de um fiasco do C9 ou do pontificado. Em vez disso, é
algo totalmente consistente com a abordagem desse papa à Cúria Romana, que
provou ser diferente dos seus antecessores desde os primeiros dias de seu
pontificado.
“É bonito pensar na Cúria
Romana como um pequeno modelo da Igreja, ou seja, como um ‘corpo’ que busca
ser, séria e cotidianamente, mais vivo, mais saudável, mais harmonioso e mais
unido em si mesmo e com Cristo”, disse Francisco às autoridades da Cúria em seu
encontro pré-Natal em 2014.
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MASSIMO FAGGIOLI Autor deste artigo |
Essa
passagem foi digna de nota porque um problema-chave da Cúria sempre foi a
natureza questionável da sua legitimidade teológica, além das suas históricas
funções institucionais e políticas. Mas, nesse discurso, Francisco tentou descrever a Cúria Romana como um “pequeno modelo da
Igreja”, deixando claramente de lado o fato de que, fundamentalmente, falta-lhe
uma base eclesiológica e de que ela desconsidera as diferenças, por
exemplo, entre a sociologia muito diversificada da Igreja global hoje e a
sociologia quase totalmente clerical da Cúria.
Francisco sempre ofereceu
seu diagnóstico dos problemas da Cúria Romana – especialmente nos temidos discursos de
Natal às autoridades do Vaticano – com uma linguagem que define uma experiência espiritual, em vez de uma
linguagem que descreve uma má gestão funcional. Sua abordagem não funcionalista da Cúria é claramente consistente com
sua crítica ao “paradigma tecnocrático” na sua encíclica Laudato si’ de 2015.
Isso,
é claro, pode acabar decepcionando aqueles que esperam uma revisão abrangente
do governo central da Igreja Católica durante seu pontificado. Com a paciência
que Congar urgia, teremos que esperar
para ver se Francisco tem tempo suficiente para que sua “reforma da Cúria como
movimento” realmente tenha efeito.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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