UM ABSURDO ! ! !
O Brasil desperdiça a riqueza de 26,4 milhões
de trabalhadores
José Eustáquio
Diniz Alves
Doutor
em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território
e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE
“O Brasil não tem conseguindo criar
empregos formais e de qualidade no padrão necessário, pois fez uma opção pela
especialização regressiva, primarizando a economia e aumentando a dependência
das commodities. Produzir petróleo, minério e soja não é suficiente para criar
empregos decentes para a maioria da população brasileira”
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Jovens são os mais atingidos pelo desemprego e subutilização da força de trabalho no Brasil |
Os clássicos da economia política nos ensinam
que o trabalho é uma indispensável fonte
de riqueza das nações. A primeira frase do pioneiro livro de Adam Smith “A Riqueza das Nações”, de
1776, diz: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente
lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome
anualmente”. Karl Marx (cujo
ducentésimo aniversário de nascimento se comemorará em 05/05/2018) reafirmou a
teoria do trabalho como a verdadeira fonte de valor e de geração de mais-valia.
A Organização Internacional do Trabalho
(OIT) tem como uma das suas bandeiras centrais, atingir e universalizar a meta
de: “Pleno Emprego e Trabalho Decente”.
Porém, o
Brasil está na contramão da história e mantém fora do círculo de riqueza e
bem-estar 26,4 milhões de pessoas, que estavam desempregadas ou
subutilizadas no 4º trimestre de 2017, segundo dados da PNAD contínua do IBGE.
O gráfico abaixo mostra a taxa de ocupação e
as taxas combinadas de subutilização da força de trabalho no Brasil do Brasil
entre 2012 e 2017. Nota-se que a taxa
composta de subutilização da força de trabalho (medida mais ampla do
desperdício do potencial produtivo do país) era de 20,9% no primeiro trimestre de 2012, caiu para o nível mais
baixo de 14,8%, no 3º trimestre de 2014 e subiu durante a recessão econômica,
atingindo 22,2% no 4º trimestre de 2016 e alcançando
o pico para o fim de ano, de 23,6% no 4º trimestre de 2017.
O incrível é
que entre o final de 2016 e o final de 2017 a taxa combinada de subutilização
da força de trabalho aumentou, mesmo que a dita retomada da economia. No ano passado, segundo o
Banco Central, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), registrou uma expansão
de 1,04% na comparação com 2016. Ou seja, o
Brasil saiu da recessão, mas o emprego não cresceu e a desocupação (em sua
medida mais ampla) aumentou.
É a primeira vez na história
brasileira que uma retomada da economia,
depois de uma recessão,
trouxe mais desocupação.
A publicação do IBGE explica a metodologia
adotada (ver referência abaixo) e, de maneira simplificada, a “Taxa composta da
subutilização da força de trabalho” traz no numerador – Subocupados por
insuficiência de horas + desocupados + força de trabalho potencial; e no
denominador – Força de Trabalho ampliada.
O gráfico abaixo mostra que, para o Brasil, no 4º trimestre de 2017:
* a taxa de desocupação foi de 11,8%,
* a taxa combinada de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas
foi de 18%,
* a taxa combinada de desocupação e força de trabalho potencial foi de
17,8% e
* a taxa composta da subutilização da força de trabalho foi de 23,6%.
As mesmas taxas para a região Nordeste foram muito mais altas, sendo que a taxa composta da subutilização da força
de trabalho foi de impressionantes 34,6%. Ou seja, mais de um terço dos potenciais trabalhadores do Nordeste não encontram
postos de trabalho para contribuir com a riqueza do Brasil. As menores
taxas de desocupação encontram-se na região Sul. Evidentemente, a região Sul
possui uma renda per capita maior do que a região Nordeste.
A tabela abaixo mostra a taxa composta da
subutilização da força de trabalho para as regiões e as Unidades da Federação
(UF). A menor taxa é encontrada em Santa Catarina que tinha um desperdício da
força de trabalho de 11,3% no 1º trimestre de 2012 e caiu para 10,7% no 4º
trimestre de 2017. Já o Piauí tinha uma taxa elevada, de 35,2%, no 1º trimestre
de 2012 e subiu ainda mais para 40,7% no 4º trimestre de 2017. Ou seja, de cada 10 potenciais trabalhadores do
Piauí, 4 estavam fora do círculo de geração de riqueza. Se a situação geral
do Brasil e do Nordeste é crítica, pior
ainda é para os JOVENS que apresentam taxas muito mais elevadas.
Portanto, o Brasil não tem conseguindo criar
empregos formais e de qualidade no padrão necessário, pois fez uma opção pela especialização regressiva,
primarizando a economia e aumentando a
dependência das commodities. Produzir petróleo, minério e soja não é
suficiente para criar empregos decentes para a maioria da população brasileira.
Manter baixas taxas de poupança e altos níveis de endividamento reduz as taxas
de investimento e sem renovação da capacidade produtiva é impossível gerar
empregos de qualidade. Com o intenso e
precoce processo de desindustrialização, as jovens gerações – uma parte daqueles que foram às ruas em junho de
2013 – são as mais prejudicadas.
Políticas de transferência de renda ajudam a
minorar os problemas da extrema pobreza, mas unicamente o pleno emprego com
trabalho decente poderá fazer o país sustentável em termos econômicos. Somente empregos produtivos geram riqueza.
Com a falta de oportunidades decentes no mercado de trabalho, o Brasil está criando uma geração perdida,
pois cresce o número de desempregados e o número dos chamados nem-nem-nem
(jovens que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego).
Jovens sem perspectiva de
melhoria de vida são presas fáceis para o crime e possuem
alta probabilidade de
atuarem como atores ou vítimas da violência.
Sem trabalho o
Brasil não tem futuro. Em termos populacionais e de estrutura etária, o país vive o seu
melhor momento do bônus demográfico. Nunca
houve tantas pessoas em idade de trabalhar no país. Mas o desperdício do potencial de 26,4 milhões de
trabalhadores é o mesmo que jogar fora nossa janela de oportunidade e
manter a população na armadilha da renda média.
Baixe:
Indicadores
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua Divulgação Especial Medidas de Subutilização da Força de
Trabalho no Brasil, IBGE, RJ, 23/02/2018, clique aqui.
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