Sensacional: palavras do Papa a um padre
Ao despedir-se do padre José Tolentino Mendonça, que
pregou o retiro quaresmal à Cúria Romana e ao Papa,
eis as palavras de Francisco
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PAPA FRANCISCO dirige as palavras finais de agradecimento a Pe. José Mendonça Tolentino |
«Padre, gostaria de agradecer, em nome de todos,
por este acompanhamento nesses dias, que hoje se prolongarão com o dia de
oração e jejum pelo Sudão do Sul, o Congo e também a Síria.
Obrigado, Padre, por nos ter falado da Igreja, por nos ter feito sentir a Igreja, este
pequeno rebanho. E também por nos ter
advertido a não “diminuí-lo” com as nossas mundanidades burocráticas!
Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito
Santo, que o Espírito voa também fora e trabalha fora. E com as citações e
as coisas que o senhor nos disse, nos fez ver como trabalha nos não crentes,
nos “pagãos”, nas pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o
Espírito de Deus, que é para todos.
Também hoje existem os “Cornélios”,
“centuriões”, “guardiões da prisão de Pedro” que vivem uma busca interior ou
sabem também distinguir quando há algo que chama.
Obrigado por esta chamada a nos abrir sem medo, sem rigidez, para sermos suaves no Espírito e não nos mumificar nas nossas estruturas que
nos fecham.
Obrigado, padre. E continue a rezar por nós.
Como dizia a madre superiora às irmãs: “Somos homens!”, pecadores, todos.
Obrigado, padre. E que o Senhor o abençoe.»
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PE. JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA pregando o Retiro Espiritual da Quaresma - Arricia - Itália (18 a 23 de fevereiro de 2018) |
O
papa Francisco partiu este domingo (dia 18 de fevereiro) para Arricia, a cerca de 30 quilómetros de
Roma, para fazer um retiro espiritual de alguns dias sob a direção do padre e
teólogo português José Tolentino de
Mendonça.
O
papa abandonou o Vaticano pelas 15:00 de Lisboa (13h00 de Brasília, DF), de
autocarro e na companhia de alguns elementos da Cúria, o governo do Vaticano,
para durante uma semana fazer um retiro
espiritual que todos os anos realiza durante a época da Quaresma.
As
sessões de meditação, em torno do tema «O
elogio da sede», decorrerão sob a orientação do padre José Tolentino de
Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica de Lisboa (Portugal), segundo um
comunicado da Santa Sé.
O
tradicional retiro da Quaresma do papa Francisco e da Cúria Romana decorre na
Casa do Divino Mestre, dos religiosos paulinos, em Ariccia.
Tolentino
de Mendonça, ordenado padre em 1990, é também consultor do Conselho Pontifício
para a Cultura (Santa Sé).
Tolentino Mendonça fala do retiro que pregará ao papa
Fernando
Pessoa, Clarice Lispector e Antoine de Saint-Exupéry são alguns dos poetas que
inspiraram as meditações que o Pe. José Tolentino Mendonça vai apresentar entre
amanhã e sexta-feira, em Ariccia, perto do Vaticano, nos exercícios espirituais
quaresmais do papa Francisco e da Cúria Romana. [...]
O
tema das periferias, caro ao papa, será também assinalado pelo Pe. Tolentino:
«Cristo era um periférico, uma voz escondida, e depois porque os cristãos são
hoje expressão de um cristianismo que já não é central, urbano e ocidental».
Porque
escolheu a sede como tema das suas reflexões?
Tolentino: Uma coisa que me preocupa
muito concretamente é que a fé não tenha só uma credibilidade racional, mas que
seja também credível do ponto de vista antropológico. A fé não é uma ideologia: é uma experiência. A sede é um tema que o
mostra bem. A sede não é uma ideia, mas
revela a vida na sua realidade. Não é por acaso que a Sagrada Escritura faz
da sede um tema recorrente. Por exemplo, mais de uma vez, nos Evangelhos,
escutamos Jesus dizer que tem sede. O
que significa esta sede? E que coisa pode significar para nós neste tempo
concreto da vida da Igreja? A espiritualidade e a mística cristã cultivaram com
sabedoria a temática da sede, mas esta para nós pode funcionar também como um
útil mapa para abordar o presente.
Que
respostas se podem dar hoje à sede espiritual do ser humano?
Tolentino: Quando acolhemos
verdadeiramente o desafio da sede, percebemos que a coisa mais importante não é propriamente satisfazê-la, mas
interpretá-la, aprofundar-lhe o significado, intensificá-la, levá-la mais longe.
A sede, por si própria, é um património espiritual. Como dizia a poetisa Emily
Dickinson, «a água é ensinada pela sede». Devemos ter a coragem de assumir a sede como mestra nos caminhos da
alma.
A
sede é também uma das pobrezas materiais do ser humano. Qual é a tarefa dos
cristãos diante deste desafio?
Tolentino: É uma questão muito
importante porque corremos o risco de entender comodamente a sede só em sentido
simbólico e espiritual, esquecendo-nos do seu sentido literal. A sede, porém, não nos fecha em nós mesmos.
Pelo contrário, coloca-nos perante a pergunta que Deus faz no início: «Onde está o teu irmão?». Há uma sede das periferias que nos obriga a
reinventar o significado da fraternidade, não como um conceito, mas como
uma prática, um estilo de relação eclesial.
Mas
sede de Deus e sede do ser humano muitas vezes não coincidem. Como se pode
encontrar um ponto de encontro?
Tolentino: A sede do nosso coração
precisa de ser purificada e redirecionada. Numa sociedade do consumo, como é
aquela típica do mundo ocidental, a sede é muitas vezes reduzida a um gesto
consumista. O que hoje percepcionamos como um problema grave das nossas
sociedades é que a hiperestimulação do
desejo está a gerar uma incapacidade de desejar. As pequenas sedes que nos
absorvem transformam-se num obstáculo para viver
a GRANDE SEDE: a sede de significado, de verdade, de beleza, de absoluto ou de
infinito.
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