20º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 12,49-53
Alberto
Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Quem se detém no passado jamais
poderá compreender a novidade que o Espírito propõe
Lucas é, sem dúvida, o evangelista que, mais do que todos os outros, trata do tema da paz. O seu Evangelho começa com a imagem da paz no coro angélico que proclama “paz na terra aos homens amados pelo Senhor” [Lc 2,14b], conclui com Jesus ressuscitado que, quando se apresenta aos seus discípulos, lhes dá a paz: “Paz a vós!” [Lc 24,36]. Sendo que a paz significa plenitude de vida, felicidade, mas nesta página parece que há quase uma contradição.
Lucas 12,49:** «Fogo eu vim
lançar sobre a terra, e como desejaria que já estivesse acesso!»
Pela terceira vez, neste Evangelho, aparece o tema do fogo.
A primeira vez ele
apareceu nas terríveis palavras de João Batista, que anunciou o Messias como
aquele que ele batizaria em Espírito Santo e fogo [Lc 3,16]. Espírito Santo,
isto é, energia divina para aqueles que acolhem Jesus e sua mensagem, e fogo,
imagem do castigo destruidor para aqueles que o rejeitam, para os pecadores.
Na segunda vez o tema apareceu nas palavras de Tiago e João que,
vendo que uma aldeia samaritana não havia acolhido Jesus, pediram ao Senhor: “Queres
que mandemos descer fogo do céu, para que os destrua?” [Lc 9,54]. Então, se
tratava de um fogo destruidor. Até agora, a imagem do fogo é apresentada como
castigo de Deus.
Mas este não é o fogo que Jesus quer trazer, pelo
resto de suas expressões entender-se-á que este fogo é fruto de sua morte.
Sabemos que Lucas apresenta, após a morte de Jesus, o Pentecostes como a
descida do Espírito na forma de línguas de fogo. É a nova realidade da nova
comunidade, da aliança entre Deus e o povo, não mais baseada na
observância de suas leis, mas na aceitação de seu espírito, isto é, de
seu amor.
Então Jesus diz: “Fogo eu vim lançar sobre a terra”, portanto, este fogo do Espírito, “e como desejaria que já estivesse aceso!”. Jesus não pode esperar que seus discípulos, sua comunidade, seu povo estabeleçam uma relação diferente com Deus, que não é aquela imposta por Moisés, mas a dele, o Filho, que propõe uma relação entre filhos e seu pai.
Lucas 12,50: «Tenho um Batismo no qual devo ser batizado, e como me
angustio até que se complete!»
Naturalmente, aqui, o batismo não tem a imagem do rito, do
sacramento, da liturgia, que posteriormente terá o termo “batismo”, que
significa imersão. Porém, também tem uma imagem negativa, algo que
oprime, algo que te arrasta. Então Jesus diz: “Há algo que está
prestes a me dominar e que devo acolher”.
“E como me angustio...” Aqui, o evangelista realmente não usa o termo “angustiado”, a palavra usada por Lucas indica ser pressionado, dominado por um forte desejo. Portanto, Jesus tem precisamente esta paixão por este acontecimento que, justamente, é negativo, esta situação que o esmagará. Assim poderíamos traduzir: “há uma imersão na qual devo ser imerso!” E é a imersão na violência, na morte, que o varrerá.
Lucas 12,51: «Pensais que eu vim trazer paz à terra? Não, eu vos digo,
mas a divisão.»
E, neste ponto, aqui está a surpresa; começamos dizendo que Lucas é o evangelista da paz, Jesus tira qualquer dúvida sobre o que significa essa paz com a frase deste versículo. Aqui, é surpreendente ouvir essas palavras de Jesus, mas o que significa essa divisão? Esta PAZ que Jesus veio trazer, fruto de uma nova relação entre os homens e Deus, como aquela de filhos com seu pai, encontrará a reação e a aversão de muitas forças que serão desencadeadas. E quais são essas forças?
Lucas 12,52-53: «Com efeito, daqui em diante, numa casa de cinco, três
ficarão divididos contra dois e dois contra três; ficarão divididos: pai contra
filho e filho contra pai; mãe contra filha e filha contra mãe; sogra contra
nora e nora contra sogra.»
Jesus fala de divisão, tomando a imagem de uma família, uma
família normal.
A divisão se dá entre o que representa o velho contra o novo.
De fato, Jesus acrescenta: “pai contra filho e filho
contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe; sogra contra nora e nora
contra sogra”. A iniciativa desta divisão vem dos representantes do
passado, o pai, a mãe, a sogra, que não acolhem esta novidade da
mensagem de Jesus que é acolhida pelos seus discípulos.
Aqui, está a causa da divisão. Deve-se ter em mente que Jesus
não está falando da divisão de filho contra filho, de irmão contra irmão. Não, a
divisão na comunidade dos crentes em Jesus não é permitida, porque onde há
divisão a comunidade é destruída. O evangelista, nesta passagem, se refere a
uma imagem conhecida, a do profeta Miquéias,
que no capítulo 7, versículo 6, falou: “Porque o filho despreza o pai, a
filha se levanta contra a mãe, a nora, contra a sogra”.
E acrescentou: “os inimigos de cada um são os da própria
casa”. Os inimigos dessa nova realidade, dessa nova relação com o pai não
serão os de fora da religião, mas justamente os que estão dentro da religião
que não aceitarão essa novidade. No entanto, Jesus é aquele Deus que veio
para fazer novas todas as coisas [cf. Apocalipse 21,5].
Quem se detém no passado jamais poderá compreender a novidade que o Espírito
propõe.
* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 5. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2021.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Sei
que, se eu fosse estável, prudente e estático, viveria na morte. Portanto,
aceito confusão, incerteza, medo e altos e baixos emocionais, porque esse é o
preço que estou disposto a pagar por uma vida fluida, perplexa e emocionante.”
(Carl Rogers: 1902-1987 – psicólogo
humanista norte-americano)
Até parece que Jesus esteja vivendo em nossos dias, compartilhando as nossas experiências atuais na Igreja e na sociedade! Pois, há tempos, não se via tanta divisão, tanta polarização, tanta falta de diálogo e respeito pelo que é o “novo”, como nos tempos que correm!
Há um saudosismo daquilo que
não se conheceu! Sim, é contraditório, mas é o que se passa,
hoje, em nossa Igreja! Seria cômico se não fosse trágico! Há pessoas,
principalmente as mais jovens, aí incluídos sejam clérigos (padres, frades,
monges, diáconos) como leigos e leigas, com:
a) “saudades”
do Concílio de Trento (ocorrido “recentemente” nos anos 1545 a
1563, século XVI), o 19º concílio ecumênico da Igreja Católica, realizado para
reagir à Reforma Protestante sob a iniciativa de Martinho Lutero e seus
seguidores. Foi quando surgiram os Seminários, o tipo de formação do clero que
temos hoje, o catecismo, a defesa da fé diante dos protestantes, o quase
banimento da Bíblia das mãos dos fiéis etc.
b) “saudades”
do Catecismo Romano, encomendado pelo Concílio de Trento e publicado em
1566. Reparem que, ainda, estamos nos referindo ao século XVI! Esse catecismo
somente foi substituído, oficialmente, em 1992, com a publicação do Catecismo
da Igreja Católica, promulgado pela Constituição Apostólica Fidei
depositum do Papa João Paulo II.
c) “saudades”
do Missal tridentino de São Pio V, instituído com a Constituição Apostólica
em forma de bula Quo primum tempore (14 de julho de 1570), a qual
tornava obrigatória a adoção do novo Missal em toda a Igreja Latina (missa em
latim, obviamente), com exceção dos ritos ambrosiano, bracarense, moçárabe,
cartuxo, carmelita e dominicano.
d) “saudades” dos manuais de Teologia Moral tridentinos (cujo início foi com as Institutiones Theologiae Moralis, obra de jesuítas do século XVI) destinados a ajudar os sacerdotes no exercício do sacramento da confissão, como era conhecido. A maior preocupação desses manuais, que prosperaram até o Concílio Vaticano II, era indicar o que era pecado e qual era o grau do pecado. A parte bíblica e teológica, praticamente, não interessava!
Tais saudosistas pensam que
o depositum fidei, ou seja, o depósito da fé, a doutrina da
Igreja seja como uma peça de museu: destinada a envelhecer, tomar pó e ser
algo, somente, preservado! Não entenderam o que Jesus Cristo, tantas vezes,
disse: “Ninguém recorta, de roupa nova, um remendo para costurá-lo em roupa
velha... Do mesmo modo, ninguém põe vinho novo em odres velhos” (Lc 5,36.37). Ou
as coisas de renovam ou deixam de existir! A doutrina e a prática
evangelizadora da Igreja ou se atualizam, se adaptam aos tempos, ou
não conseguirão mais atrair e fazer sentido a ninguém!
Não se trata de fazer a doutrina
e as Sagradas Escrituras se conformarem ao que deseja o mundo! Mas de
utilizar uma linguagem [algo que vai além, apenas, de palavras!] e meios
que possibilitem serem melhor compreendidas e assumidas pelas pessoas de cada
época!
Jesus, no Evangelho deste domingo, identificou muitíssimo bem aonde se encontra o grande perigo para a Fé, para o Reino de Deus, para a sua Boa Nova (= Evangelho): no meio daqueles que se consideram “religiosos”, “fervorosos”, “ortodoxos”, “defensores da moral e dos bons costumes”! O principal conflito é “dentro de casa”, é com aqueles que dirigem o veículo da Igreja sempre olhando através do retrovisor! No entanto, como constata o biblista espanhol José Antonio Pagola, Jesus:
«Combate os formalismos religiosos, os
rigorismos desumanos e interpretações estreitas da Lei. Nada e ninguém pode
acorrentar sua liberdade para fazer o bem. Jamais podemos segui-lo vivendo
na rotina religiosa ou convencionalidade de “o que é certo”.»
A Igreja, hoje, deve ser o lugar, o espaço, a ocasião para fazer arder esse fogo do Espírito Santo! Esse fogo que afasta toda tendência de falsa tranquilidade, comodismo, conformismo e capitulação diante de uma sociedade, cada vez mais, egoísta, materialista e injusta! Aonde mais as pessoas poderão sentir esse fogo de Jesus? Onde poderão sentir a força de sua liberdade criadora? Onde poderão encontrar palavras de vida eterna?
«Senhor,
tu que perscrutas o meu coração e fazes dos meus medos os caminhos para criar a
novidade do dom, entra nas minhas ansiedades. Lá onde minha esperança se perde
e o tremor me devora, lá onde toda centelha de graça queima minhas seguranças e
me faz um monte de cinzas, lá tu acendes novamente o fogo do amor. Dá-me um
olhar capaz de penetrar na realidade e afirmar o teu olhar que me espera além
do véu da aparência. Não permitas que o desejo de comunhão me seja tirado. E
mesmo onde, em teu nome, eu encontrar oposição, resistência, adversidade, que
eu possa penetrar na angústia da divisão para manter viva a chama do encontro
contigo!»
(Maria Teresa della Croce Boschi. 20ª
Domenica del tempo ordinario. In: CILIA, Anthony O.Carm. Lectio Divina
sui vangeli festivi: per l’anno liturgico C. Leumann [TO]: Elledici,
2009, p. 516.)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – XX Domenica del Tempo Ordinario – Anno C – 18 agosto 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 10/08/2022).
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