1º Domingo da Quaresma – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 4,1-11
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
A maior sedução: ceder à idolatria da
riqueza e do poder para ser deus!
As quatro montanhas que aparecem no Evangelho de Mateus estão ligadas, estão em relação umas com as outras: à montanha das bem-aventuranças corresponderá a montanha da ressurreição, ou seja, vivendo as bem-aventuranças, tem-se uma vida capaz de vencer a morte; ao monte das tentações, onde o diabo oferece a condição divina a Jesus, desde que adore o poder, corresponderá o monte da transfiguração, onde Jesus demonstrará que...
... a condição divina não se obtém pelo poder, mas
pelo amor, pelo presente generoso de si mesmo.
Vejamos este quarto capítulo do Evangelho de Mateus, onde são apresentadas estas tentações de Jesus, que, para as compreendermos melhor, devemos colocá-las no seu contexto, não se trata de tentações, as tentações parecem algo que empurra para o mal, para pecado, nada disso. O diabo, como veremos agora, não se apresenta como adversário de Jesus, mas como seu colaborador, aquele que deseja o seu sucesso. Vejamos.
Mateus
4,1: «Então, Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para
ser tentado pelo diabo.»
A palavra “então”, no início deste versículo, relaciona a passagem do evangelista ao batismo no Espírito, portanto Jesus está impregnado do Espírito, e o Espírito lhe foi dado porque se comprometeu a manifestar fielmente a realidade de Deus. “Foi conduzido ao deserto pelo Espírito”: o deserto recorda muitas coisas, recorda o êxodo, o caminho da libertação, recorda o período de provação e recorda também o lugar do poder, onde se reuniam os bandidos, aqueles que queriam conquistar o poder. Deve-se lembrar que o diabo, no Evangelho de Mateus, aparece apenas neste único episódio.
Mateus
4,2: «Tendo
jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, teve fome.»
Quarenta indica uma geração, o evangelista quer que entendamos: atenção, este que agora apresento não é um período limitado da vida de Jesus, mas toda a sua vida, toda a sua existência, foi submetida a essas seduções. É importante que o evangelista enfatize que o jejum é de quarenta dias e quarenta noites, para indicar que não é um jejum religioso, que começa de madrugada e termina ao pôr do sol, mas é uma prova de força, porque o evangelista quer mostrar que Jesus é igual, e mesmo, superior a Elias, a Moisés, aos outros que jejuaram quarenta dias e quarenta noites.
Mateus
4,3-4: «O
tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, manda que estas
pedras se tornem pães!” Ele respondeu: “Está escrito: ‘O homem não vive
somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.’”»
O tentador não questiona que Jesus seja
o filho de Deus — no
momento do batismo houve uma proclamação de Deus: “este é meu filho amado”
(Mt 3,17a) — mas ele faz um convite a Jesus. Poderíamos traduzir melhor
para entender melhor: “já que tu és o filho de Deus, ou seja, você é filho de
Deus? Então manifeste o teu poder”. Porque esta é a oposição no evangelho:
... enquanto Deus é o AMOR se manifestando no
serviço, o diabo é o PODER se manifestando no domínio.
Então este tentador diz: já que você é filho de Deus, “manda que estas pedras se transformem em pães”, ou seja, use suas habilidades, seu poder, para si mesmo. Mas Jesus responde, e responderá todas as vezes, citando a palavra do Senhor: “O homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Assim, Jesus expressa sua plena confiança na ação do Pai, em colocar em prática sua palavra, e Jesus, no decorrer do evangelho se verá, não usará de sua própria capacidade para se alimentar, mas ele, o filho de Deus, ele se fará pão, alimento de vida, para os outros.
Mateus
4,5-7: «Então o diabo o levou à
Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: “Se és o
Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Com efeito, está escrito: ‘A seus anjos
Ele dará ordens a teu respeito’, e: ‘Nas mãos te carregarão, para que
não firas teu pé em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está
escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’!”»
Aqui, debaixo das vestes do diabo, o evangelista antecipa qual será a
ação dos fariseus, dos saduceus, dos doutores da lei, de toda a instituição
religiosa. O diabo não se apresenta como um inimigo, um rival de Deus, o
pecador, mas o diabo tem seus adeptos justamente na casta sacerdotal no
poder, que quer precisamente deter o domínio.
Esse diabo evidentemente não só conhece a Escritura, como também conhece os
apócrifos, pois no quarto livro de Esdras, um apócrifo da época, foi
dito que o messias se manifestaria aparecendo repentinamente no ponto mais alto
do templo em Jerusalém. Então o diabo é um grande conhecedor da Escritura e
tudo mais.
“E ele disse-lhe: ‘Se és o Filho de Deus’”, novamente, visto que você é o filho de Deus, o convite do diabo é o mesmo que os sumos sacerdotes, os escribas, os anciãos farão mais tarde, quando Jesus for crucificado: “A outros ele salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. [...] De fato, ele disse: ‘Eu sou Filho de Deus’” (Mt 27,40-42.43b). Ou seja, ele diz a Jesus: você é filho de Deus, faça o que as pessoas esperam, as pessoas esperam que você apareça de repente no templo, adicione um toque a mais, jogue-se no chão com um show, que os anjos lhe carregarão. E aqui o diabo, como eu disse, um perfeito conhecedor da Escritura, cita o Salmo 91. Mas Jesus, mais uma vez, responde-lhe com a Escritura. É toda uma série de referências a episódios da vida de Israel, da falta de confiança.
Mateus
4,8-9: «O
diabo o levou ainda para uma montanha muito alta. Mostrou-lhe todos os reinos
do mundo e sua riqueza, e disse-lhe: “Tudo isso te darei, se te prostrares para
me adorar”.»
A terceira
vez não é igual às outras: nas duas primeiras tentações ou seduções, o diabo
jogou a carta do messias, a carta religiosa, agora o diabo tira o ás da
manga, tira uma carta que ele sabe que todos cedem a esse poder, a esse
fascínio, o poder da RIQUEZA. A montanha muito alta indica o lugar onde os
deuses viviam, ou seja, a condição divina, portanto, o diabo lhe oferece a
condição divina. Você quer ser aquele que conquista o mundo? Você quer ser
o esperado das pessoas? Você deve ter status divino, e como surge o status
divino? Através da riqueza, através do poder. “Tudo isso te darei”,
portanto quase parece — e de fato no Evangelho de Lucas diz: todas estas
coisas são minhas — que o diabo é o detentor da riqueza, do poder,
portanto aqueles que detêm a riqueza e o poder, não lhes é dado por Deus, mas
vem do diabo. “Todas estas coisas te darei se”, há um pequeno detalhe, “se
te prostrares para me adorar”. Assim, o diabo oferece a Jesus o status
divino por meio da adoração do poder, da glória e do sucesso. Mas, como
dissemos no início, Jesus responderá a esta tentação trazendo o seu tentador,
na figura de Pedro, o único discípulo a quem Jesus se dirigirá
chamando-o de Satanás, ao monte da transfiguração.
No monte da transfiguração, Jesus demonstra que a condição divina
não é obtida pela adoração do poder, mas pelo dom generoso de si mesmo.
Mateus
4,10-11: «Jesus
lhe disse: “Vai embora, Satanás, pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor, teu
Deus, e só a ele prestarás culto’”. Por fim, o diabo o deixou, e os anjos
se aproximaram para servi-lo.»
“Satanás” é o mesmo nome que ele dirigirá a Pedro, que será seu satanás no evangelho, por isso Jesus o rejeita. É o perigo da idolatria, aqui está toda a referência ao bezerro de ouro, à contaminação de Israel com os povos pagãos. Jesus obtém a proteção dos anjos justamente recusando a tentação e a sedução. Então, em resumo, não são tentações ao mal, mas são seduções que Jesus sofrerá ao longo de sua vida, e por parte da instituição religiosa, mas também por parte de seus próprios discípulos.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Nenhum
homem sabe quão mau ele é, até que ele tenha tentado de toda maneira ser bom...
Nós nunca descobrimos a força do impulso mal dentro de nós, até que nós
tentamos lutar contra ele.»
(Clive Staples Lewis: 1898-1963 — escritor irlandês)
Retomando uma frase do discurso do Grande Inquisidor de Fiódor Dostoiévski, no livro V,5 de “Os Irmãos Karamázov”, lê-se: “para o homem e para a sociedade humana nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade!” De fato, quantos seres humanos preferem escravizar-se ao “pão — aos bens materiais” (1ª tentação), à “falsa segurança religiosa — colocando Deus a nosso serviço” (2ª tentação) e ao “poder e riqueza” (3ª tentação) para poderem desfrutar daquilo que pensam ser uma “vida boa”, “vida feliz”, “vida de sucesso”!
Talvez a maior contribuição que Cristo tenha trazido aos seres humanos seja, justamente, esta: ser livres, de verdade! Ninguém foi livre como o Filho do Homem, ninguém foi livre como o Messias, ninguém foi livre como Jesus de Nazaré! No entanto, os seres humanos insistem em buscar algo para substituir Deus! Os seres humanos insistem em buscar a felicidade longe de Deus! No fundo, eles não querem entender que, sem Deus, não há verdadeira felicidade, pois os seres humanos acabarão por se escravizar àquilo que lhes dão segurança, sensação de poder e estabilidade! Isso porque é mais fácil se deixar conduzir do que conduzir, dirigir a própria vida!
Ainda, visitando o texto de Dostoiévski acima citado, percebemos que a própria instituição religiosa, representada pela voz do Grande Inquisidor, contribui para retirar dos seres humanos o maior DOM que já receberam: a liberdade! Ouçamos essa instituição religiosa falando ao Cristo, segundo o escritor russo: “Corrigimos tua obra, fundamentando-a no milagre, no mistério e na autoridade. E os homens ficam contentes por se verem novamente conduzidos como um rebanho e libertos do dom avassalador que os atormentava”.
A Quaresma,
iniciando-se com as tentações ou seduções que acompanharam toda a vida de
Jesus, nos convida a redescobrir e reconquistar a liberdade de filhos e
filhas de Deus que voluntariamente ou não, acabamos por entregar a outros,
pensando estar fazendo a coisa certa! Como bem recorda o teólogo espanhol José María Castillo, todos buscamos motivos “razoáveis”
e, até “sublimes” para justificar nossas escravidões:
* os homens às
mulheres, as mulheres aos homens;
* os cidadãos aos
políticos;
* os trabalhadores aos
seus patrões etc.
De um modo ou de outro, a maioria da humanidade vive escravizada a algo que pensa ter sido a sua própria escolha, quando, na verdade, ela não teve escolha alguma a não ser aceitar viver em um mundo onde, no dizer popular: “Quem pode mais, chora menos!”; “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco!”; “Quem tem juízo, obedece!”
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Tende piedade, ó meu Deus,
misericórdia! / Na imensidão de vosso amor, purificai-me! / Lavai-me todo
inteiro do pecado, / e apagai completamente a minha culpa! / Eu reconheço toda
a minha iniquidade, / o meu pecado está sempre à minha frente. / Foi contra
vós, só contra vós, que eu pequei, / e pratiquei o que é mau aos vossos olhos! /
Criai em mim um coração que seja puro, / dai-me de novo um espírito decidido. /
Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, / nem retireis de mim o vosso Santo
Espírito! / Dai-me de novo a alegria de ser salvo / e confirmai-me com espírito
generoso! / Abri meus lábios, ó Senhor, para cantar, / e minha boca anunciará
vosso louvor!»
(Salmo 50[51],3-4.5-6a.12-13.14.17)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – I Domenica della Quaresima – Anno A – 1 marzo 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 23/02/2023).
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