É a hora da verdade!

 Tensão conflitante na Igreja

 José María Castillo

Estudou TEOLOGIA na Faculdade de Teologia de Granada (Espanha). Obteve o DOUTORADO EM TEOLOGIA na Universidade Gregoriana de Roma. Foi professor de Teologia Dogmática na Faculdade de Teologia de Granada e Professor visitante nas seguintes Universidades: Comillas (Madri), Gregoriana (Roma), UCA (San Salvador). Possui título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Granada. Autor de vários artigos e livros, dentre os quais: “Jesus, a humanização de Deus. Ensaio de cristologia”, publicado pela editora Vozes, em 2015. 

A religião está em declínio crescente. Mas esse declínio não é um infortúnio fatal

É um “segredo aberto” que há um profundo mal-estar na Igreja. Um mal-estar que foi destapado e que preocupa os ambientes religiosos e eclesiásticos. Esta situação desagradável e perigosa foi acentuada pela morte do ex-Papa Bento XVI. 

Evidentemente, os dois últimos papas, Joseph Ratzinger e Jorge Mario Bergoglio, foram e são dois homens muito diferentes. Mas o problema não está no que foram – ou são – esses dois homens. O problema está no que ambos representam. 

Ex-papa Bento XVI (Joseph Ratzinger) com Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio)

Claramente, na Igreja, todos os papas representam a suprema autoridade. Mas não esqueçamos que, em qualquer caso e quem quer que seja, estamos falando da suprema autoridade “na Igreja”, que deve ser exercida “segundo o que ensina o Evangelho”. Tendo sempre presente que, na Igreja, ninguém pode ter autoridade para viver ou decidir “contra o que ensina o Evangelho”. Claro, na medida e de acordo com as limitações inerentes à condição humana. 

Bem, assumindo isso, sabemos que Jesus anunciou aos seus doze apóstolos, em três ocasiões (Mc, 8,31 e paralelos; 9,30-32 e paralelos; 10,32-34 e paralelos; J. Jeremias, Teología del Nuevo Testamento. Salamanca, Sígueme, p. 321-331), que em Jerusalém seria condenado à morte mais baixa que uma sociedade pode julgar: a de um criminoso executado (Gerd Theyssen, El movimiento de Jesús, Salamanca, Sígueme, p. 53). 

Pois bem, a partir do momento em que os discípulos souberam que o fim de Jesus se aproximava, e que tudo terminaria num fracasso inimaginável, o comportamento daqueles apóstolos tomou um rumo inesperado. Simplesmente, aqueles que “seguindo Jesus” abandonaram tudo o que tinham (família, trabalho, lares...) (cf. Mt 8,18-22; Lc 9,57-62), com uma generosidade incrível, visto que isso levou ao fracasso mais cruel e vergonhoso, sem dúvida, e precisamente por isso, foi então que aqueles “seguidores” de Jesus começaram a discutir qual deles era “o maior” (grego: meison) (Mc 9,33-35, cf. 10,43; Lc 22,24-27) (cf. S. Légasse, Diccionario Exegético del Nuevo Testamento, vol. II, Salamanca, Sígueme, 207). Ou seja, aquele que tinha que ter o poder máximo e tinha que aparecer como o mais importante. Jesus, ao contrário, muda radicalmente tais critérios:

... o primeiro, entre seus discípulos, não deve ser o maior, mas o contrário: o menor, aquele que representa o que é visto como criança (Mc 9,37 e paralelos).

Mas esta não é a coisa mais importante que Jesus ensinou a seus discípulos e apóstolos. Após o terceiro anúncio da paixão e morte, quando já subiam a Jerusalém (Mc 10,32 e paralelos), às vésperas do iminente fracasso, “os filhos de Zebedeu, Tiago e João”, tiveram a audácia desavergonhada de pedir a Jesus que as primeiras posições lhes fossem dadas! Ao que Jesus respondeu: “Vós não sabeis o que estais pedindo” (Mc 10,34 e paralelos). E, sobretudo, o problema grave é que os outros discípulos ficaram indignados com o pedido de Tiago e João (Mc 10,41). Em outras palavras, todos queriam estar situados nas posições mais importantes

A resposta de Jesus foi enfática. Ele convocou todos eles e disse-lhes que não poderiam desejar o que os “chefes das nações” desejam. Deviam desejar e viver como “doulei” (grego), como “servos e escravos” dos outros (Mc 10,42-45 e paralelos). 

Na Igreja, se produziu uma dupla adulteração:

1ª) Antes de tudo, o Evangelho exigia o “seguimento” de Jesus, que se realiza no despojamento de tudo o que se tem (Mt 8,18-22; Lc 9,57-62). Ou seja, não viver preso aos bens que nos privam da liberdade, para tornar possível a bondade sem limites. Mas o que fizemos foi deslocar o “seguimento” de Jesus para a “espiritualidade”, que é privilégio de poucos eleitos.

2ª) E a outra adulteração – a mais decisiva na Igreja – é aquela que brotou, já nos primeiros discípulos, quando Jesus os informou que deviam despojar-se, não só “do que cada um tinha” (dinheiro, bens, casa, família...), mas também e sobretudo, “desfazer-se de si” (Eugen Drewermann). Isto explica porque quando Jesus informou os discípulos – pela segunda vez – do fim que o esperava (Mc 9,30-32 e paralelos), aqueles fiéis homens começaram a discutir “qual deles era o primeiro e o mais importante” (Mc 9,34-35 e paralelos). Ao que Jesus respondeu que, em seu projeto, quem quisesse “ser o primeiro” deveria “ser como uma criança e ser o último” (Mc 9,33-37 e paralelos). 

Sem dúvida, aqueles primeiros apóstolos “seguiram” Jesus. Mas aqueles seguidores de Jesus “não haviam renunciado a si mesmos”. Ou seja, eles queriam seguir Jesus, mas sendo os primeiros, os mais importantes, os que mandam. E a verdade é que, quando Jesus foi preso, para matá-lo, Judas vendeu Jesus, Pedro o negou três vezes e, claro, “todos os discípulos o abandonaram e fugiram” (Mc 26,56). 

PAPA SÃO PIO X

A partir desse momento, foram colocados os pilares de uma Igreja que vive em tensão conflituosa. No século passado, o Papa São Pio X disse em uma famosa encíclica (Vehementer Nos):

“Só na hierarquia residem o direito e a autoridade necessários para promover e direcionar todos os membros para o fim da sociedade. Quanto à multidão, não tem outro direito senão deixar-se conduzir e, docilmente, seguir os seus pastores” (cf. Y. Congar, Ministerios y comunion eclesial, Madri, Fax, 1973, p.14).

Assim era vista a Igreja nos primeiros anos do século XX. Um século depois – agora – tal Igreja é insuportável. Neste momento, estamos num processo de transformação que recupera urgentemente o que Jesus começou, quis e quer, como ficou claro no Evangelho. A Religião está em declínio crescente. Este declínio não é um infortúnio fatal. É o passo inevitável para que o centro da vida da Igreja não se realize nos conflitos clericais, mas na recuperação do Evangelho. 

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo. 

Fonte: Religión Digital – Teología sin censura – Sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023 – Internet: clique aqui (Acesso em: 09/02/2023).

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