5º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia
Evangelho: Mateus 5,13-16
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Pela prática do amor, sejamos pessoas
esplêndidas
A nova relação que Jesus veio propor entre os homens e Deus não podia mais estar contida na antiga aliança, a de Moisés, por isso Jesus precisou propor uma nova aliança, e a havia formulado, no Evangelho de Mateus, segundo as bem-aventuranças.
Mateus
5,13a: «Vós sois o sal da terra.»
Na conclusão das bem-aventuranças, eis as palavras severas e também esperançosas e confiantes de Jesus, dirigidas aos seus discípulos: “Vós sois o sal da terra”. Qual é o significado do sal? Deve ser entendido na cultura da época: o sal era um elemento muito, muito precioso, sabemos que a palavra salário vem do sal, com o qual os soldados eram pagos; o sal era usado para conservar os alimentos. Então, desse significado físico, material, foi transfigurado em um significado simbólico, porque, sendo o sal aquilo que preservava, foi-lhe atribuído um valor figurativo, que o tornou atual, concreto e perpétuo. Por exemplo: um pacto, um contrato. Então, quando se apertava as mãos para fazer um pacto ou quando se escrevia um contrato, salpicava-se sal sobre esse contrato, sobre essas mãos; significando: “isso é válido para sempre”. Então Jesus admoesta os seus discípulos, depois de ter proclamado as bem-aventuranças, diz: “Vós sois o sal da terra”, ou seja, com a vossa fidelidade a este programa, tornai-o atual.
Mateus
5,13b: «Se o
sal perder o sabor, com que será salgado?»
No entanto, aqui fica a advertência de Jesus: “mas se o sal perder o
sabor”, o evangelista usa um verbo que se traduz por perder o sabor, no
entanto, é o verbo “enlouquecer” (grego: moraíno), que não é usado para
um elemento como o sal, mas apenas para pessoas , e será o mesmo que Jesus
usará mais tarde, quando falar do louco, o louco, que vai construir a casa, mas
em vez de construí-la sobre a rocha, com fundamento sólido, constrói-a à beira
mar, sobre a areia.
E a imagem do
louco é aquele que ouve as palavras do Senhor, mas depois não as põe em
prática.
Então Jesus admoesta os seus discípulos, depois de ter proclamado as bem-aventuranças: se vós, estas bem-aventuranças, as acolheis, as escutais, mas depois não as praticais, estais como que loucos; eis o sal que enlouquece. Com o que será salgado? Não há mais possibilidade, pois não há transmissão de sabor, o sal não tem nada a “dizer”.
Mateus
5,13c: «Não
servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelos passantes.»
E aqui está a severa advertência de Jesus! No fundo, Jesus está dizendo: a humanidade esperava da vossa comunidade a resposta de Deus às necessidades, aos sofrimentos da humanidade, mas se vós, que fostes destinatários desta mensagem, se vós, que a apreendestes, não a praticais ou, pior, estais, com o vosso comportamento, em contradição com a mensagem na qual acreditais, vós mereceis o desprezo das pessoas, mereceis ser jogados fora!
Mateus
5,14: «Vós sois a luz do mundo. Uma
cidade situada sobre a montanha não pode ficar escondida.»
Jesus diz que seus discípulos, acolhendo as bem-aventuranças, eis o lado positivo, são a luz que ilumina o mundo. Essa cidade que fica no alto da montanha, que era a luz do mundo, na cultura da época era Jerusalém, a cidade de Deus. Pois bem, com Jesus não existe mais uma cidade, um santuário, onde as pessoas devem ir, mas uma comunidade que deve levar luz onde há trevas.
Mateus
5,15: «Nem
se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da caixa, e sim sobre o candeeiro,
onde ela brilha para todos os que estão na casa.»
E Jesus continua: “nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire”, o que é um alqueire? O alqueire era um recipiente em uso naquela época, que servia para medir ou coletar cereais. Então Jesus diz: esta lâmpada não se coloca debaixo do alqueire, se se coloca debaixo do alqueire a lâmpada perde a sua luz e apaga-se, mas no castiçal ilumina todos os que estão na casa. O alqueire significa a capacidade da comunidade de ser generosa, de doar-se, o alqueire não deve esconder a luz, mas deve ser a expressão dessa luz. Então Jesus está indicando como se é luz do mundo. De que modo? Pelo dom generoso da própria vida, do que se é e do que se tem, confirmando o convite que Mateus havia feito no início do capítulo 5, com a proposta de acolher a primeira bem-aventurança (vers. 3).
Mateus
5,16: «Assim
também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas
obras e glorifiquem o vosso Pai que está nós céus.»
Não é mais a luz de Jesus, é a luz das pessoas. Jesus convida cada pessoa,
através da prática da generosidade, que nasce da fidelidade às
bem-aventuranças, a ser uma pessoa esplêndida. Quando dizemos que uma pessoa é
boa, usamos esta expressão: ela é esplêndida. O que isso significa? Que
emite luz.
Depois, Jesus pede à comunidade que “esta luz brilhe diante dos homens
para que vejam as vossas boas obras”, existe uma ligação entre “a vossa
luz” e “as vossas obras” - a luz vem das boas obras, da
comunicação da vida, de dar a vida aos outros – “e eles dão glória”,
e aqui cuidado, pois diz o evangelista “ao Pai”, porque depois, na
controvérsia com os fariseus,
Jesus dirá
para ter cuidado com essas pessoas piedosas, religiosas que realizam suas obras
para serem admiradas pelas pessoas.
Não, diz Jesus: as pessoas, vendo as vossas boas obras, deem glória ao vosso Pai que está nos céus. É a primeira vez que o termo Pai aparece no Evangelho de Mateus. Pai será o nome de Deus dentro da comunidade cristã, pai na cultura da época é aquele que comunica a vida. Portanto, através da comunicação da vida aos outros, através do dom de si, do que se é e do que se tem, a presença de Deus manifesta-se na comunidade e na sociedade.
*
Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 6. ed. Brasília (DF): Edições CNBB, 2022.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Nele
estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as
trevas não a derrotaram.”
(João 1,4-5)
Após apresentar-nos a via da verdadeira felicidade, o caminho de vida para todos aqueles/as que desejam ser seus discípulos, mediante as bem-aventuranças, Jesus, agora, deixa claro como é que deve ser a presença do cristão no mundo. E, deve-se dizer logo, não deverá ser uma presença covarde! Não deverá ser uma presença medíocre! Não deverá ser uma ausência, um esconder-se e refugiar-se deste mundo! Não, totalmente o inverso disso!
Para sinalizar que tipo de presença se trata,
Jesus lança mão de duas eloquentes metáforas: ser sal e ser luz.
Portanto, Jesus diz que as pessoas devem notar a presença dos cristãos em
sua vida, mas de que jeito?
Pelo modo de viverem, suas convicções,
seus costumes, suas preferências, seu estilo de vida
durante as vinte e quatro horas do dia!
É como se Jesus estivesse nos dizendo, segundo o teólogo espanhol José M. Castillo:
«A vossa vida tem de ser tão autêntica
que quem vos conhecer não terá outra escolha senão dizer: esta forma de vida só
é possível porque esta gente acredita em algo ou em Alguém que nos supera a
todos.»
Por isso, é inevitável nos perguntar:
* A minha vida, como cristão/ã, chama a atenção
e convence os outros devido ao meu testemunho de amor, bondade, justiça e
perdão?
* O cristianismo praticado em minha comunidade tem feito a diferença na sociedade? As pessoas notam, se convencem que somos diferentes, de verdade, do modo como os outros vivem, pois nos queremos bem, convivemos em paz e harmonia, não deixamos ninguém passar privações e necessidades, somos bondosos...
Infelizmente,
a maioria das vezes que o cristianismo chama a atenção da sociedade é devido aos
seus belos e imensos templos, mosteiros e catedrais. Ou, então, mediante os
nossos rituais e cerimônias pomposos, grandes procissões e peregrinações! A
vida pessoal e comunitária dos cristãos/ãs tem deixado muito a desejar! Não nos
esqueçamos da advertência séria que nos faz Jesus, no Evangelho de hoje:
«Se o sal perder o sabor [enlouquecer = deixar de dar testemunho de Cristo], com que será salgado? Não servirá para mais nada, senão ser jogado fora e pisado pelos passantes» (Mt 5,13).
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Senhor Jesus, deixa-nos sentir a
vivacidade da tua Palavra que ouvimos; corte, por favor, os nós de nossas
incertezas, sofismas, nossos "se" e "mas" que nos impedem
de entrar na salvação pela porta estreita. Faz-nos acolher sem medo, sem muitas
incertezas, a Palavra de Deus que nos convida ao empenho e à laboriosidade na
vida de fé. Ó Senhor, que a tua Palavra ouvida neste domingo, dia do Senhor,
nos livre das falsas certezas sobre a salvação e nos dê alegria, nos fortaleça,
nos purifique e nos salve. E tu, Maria, modelo de escuta e de silêncio,
ajuda-nos a ser vivos, autênticos, a compreender que tudo o que é difícil se
torna fácil, o que é escuro se torna claro pela força da Palavra.»
(Fonte: Carlos Mesters. 5ª Domenica del Tempo Ordinario: orazione finale. In: CILIA,
Anthony O.Carm. Lectio Divina sui vangeli festivi: per l’anno liturgico A.
Leumann [TO]: Elledici, 2010, p. 370-371.)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – V Domenica del Tempo Ordinario – Anno A – 9 febbraio 2020 – Internet: clique aqui (Acesso em: 02/02/2023).
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