4º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

 Evangelho: Marcos 1,21-28 

Frei Alberto Maggi

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

Jesus: portador de um novo ensinamento

O evangelho deste domingo apresenta-nos o início da atividade de Jesus; é o primeiro capítulo, do versículo 21 em diante. Anteriormente, Jesus chamou os primeiros quatro discípulos e os convidou para serem pescadores de homens. Pescar homens, explicamos no domingo passado, significa tirar os seres humanos da água que pode causar-lhes a morte, a fim de lhes dar vida. Pois bem, Jesus com estes quatro discípulos inicia essa atividade de pescar homens, mas onde é este lugar de morte em que ele vai pescar homens para lhes dar vida? No lugar que menos esperaríamos; não vai a lugares de má reputação, frequentados por pecadores, mas vai a Cafarnaum, a uma sinagoga

Marcos 1,21-22: «Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.»

Lemos o evangelista que escreve que “indo para Cafarnaum, entrou num sábado”, sábado é dia de culto na sinagoga, “mas, assim que entrou”, o evangelista usa o termo “imediatamente”, Jesus começa a ensinar. Jesus não participa do culto na sinagoga, ele começa a ensinar. E vemos a reação “Todos ficaram maravilhados com o seu ensinamento”. E por quê? “Ele os ensinava como alguém com autoridade”. Isso não significa que Jesus ensinasse como uma autoridade. Autoridade era o mandato divino que Deus havia dado aos profetas e, depois, transmitido aos escribas para tornar conhecida a sua vontade, a sua palavra. Então as pessoas, os presentes na sinagoga sentem no ensinamento de Jesus que existe o mandato divino, porque em cada pessoa existe o desejo de plenitude de vida e a palavra de Jesus é a resposta a esta plenitude de vida.

Então ficaram maravilhados com esta novidade e disseram que ele ensinava com autoridade e não como aqueles que deveriam exercê-la, os seus escribas. Os escribas eram considerados sucessores dos profetas, eram pessoas que, após uma longa vida estudando a Escritura, recebiam por transmissão o mesmo espírito de Moisés e eram o magistério infalível da época, sua palavra era considerada a palavra de Deus. 

Marcos 1,23-24: «Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”.»

Bem, assim que Jesus começa a ensinar e produz uma onda de entusiasmo nas pessoas, ocorre o incidente. O evangelista escreve que imediatamente “estava na sinagoga um homem possuído por um espírito mau”; na sinagoga havia um homem possuído por um espírito impuro.

Espírito significa “força, energia”, quando esse espírito vem de Deus é chamado de “Santo” porque separa a pessoa da esfera das trevas, do pecado, quando vem da realidade contrária a Deus é chamado de “impuro”, pois mantém o homem em escuridão, em pecado. Pois bem, na sinagoga o evangelista nos apresenta uma pessoa com espírito impuro, por quê?

É a instituição religiosa que com o seu ensino, em vez de aproximar as pessoas de Deus, distanciou as pessoas de Deus.

Pois bem, essa pessoa com o espírito impuro começa a gritar, não suporta nem o ensinamento de Jesus nem o entusiasmo por parte dos demais presentes, começa a gritar e diz “O que queres de nós” e aqui estranhamente ele fala no plural: “nós”. Por que um único indivíduo fala no plural? E depois diz: “Jesus de Nazaré”. Com isso ele recorda-lhe as suas origens, de Nazaré, o covil dos nacionalistas, dos guerreiros. Complementa: “você veio para nos arruinar?”, novamente ele fala no plural. Mas quem Jesus está arruinando com seu ensino? Com o seu ensino, Jesus está arruinando o prestígio dos escribas, aqueles que afirmavam ter autoridade de Deus para ensinar. Então, quem é esse homem possuído por um espírito imundo? Ele é o homem que deu uma adesão acrítica ao ensinamento dos escribas e, quando o vê colocado em perigo pelo ensinamento de Jesus, ele próprio se sente em perigo.

E então ele lembra a Jesus: “Eu sei quem você é, você é o santo de Deus!”. O santo de Deus era o Messias que deveria observar fielmente a lei e fazê-la cumprir, mas Jesus liberta da lei

Marcos 1,25-26: «Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!” Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu.»

Jesus não aceita nenhum diálogo, por isso, diz: “Cale a boca!” Ao deixar o homem, o espírito impuro o atormenta com violência. Por que o tormento? Chegar a um ponto na vida e ter que admitir que o ensinamento religioso em que você acreditava e no qual se baseava a sua existência não só não vinha de Deus, mas era contrário a Deus, bom, libertar-se disso é de partir o coração! 

Marcos 1,27-28: «E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.»

Um “ensinamento”, uma nova doutrina; não um novo ensino, mas uma nova doutrina. O termo utilizado pelo evangelista indica uma qualidade que substitui todo o resto, tudo que havia. E o que é essa nova doutrina?

É que Deus não se manifesta na doutrina dos escribas, mas na atividade libertadora de Jesus.

É por isso que Jesus convidou os seus discípulos a serem pescadores de homens. O ensinamento de Jesus é uma palavra de autoridade que, quando acolhida, transforma a vida de quem a acolhe. 

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«A religião deve libertar o homem e nunca escravizá-lo. A base da religião não deve ser o medo, mas sim o amor.»

(Gilberto Ângelo Begiato: brasileiro ― fundador da Associação Acolhimento Bom Pastor)

Uma das piores formas de escravidão e fanatismo é aquela da religião! Quantas pessoas já sofreram e, ainda, sofrem por terem sido levadas a crer em doutrinas erradas, falsificadas e absurdas por líderes religiosos que desejam ter o domínio pleno e total de seu rebanho ao invés de conduzir suas ovelhas à verdadeira e única fonte de vida e felicidade eternas que é Deus, na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo. 

Toda pessoa:

* extremamente moralista,

* apegada às práticas devocionais de modo emocional e superficial,

* praticante de uma leitura fundamentalista e ingênua da Bíblia,

* admiradora de “catecismos” com exposições bem sintéticas e simples das “verdades da fé”,

* desinteressada, por completo, dos problemas e dramas que vivem o ser humano no mundo atual,

* indiferente a qualquer apelo, campanhas e iniciativas da Igreja para a promoção e liberação dos seres humanos de situações indignas...

... demonstra estar “possuída” pelo mesmo “espírito impuro” que o homem na sinagoga de Cafarnaum, presente no relato do Evangelho deste domingo! 

Sim! Afinal, a pior “possessão” é aquela da alma, do espírito humano! Pois ela escraviza a pessoa a uma visão equivocada de Deus e, por conseguinte, do ser humano e de sua realidade.

Quem crê no deus errado não pode viver uma fé autêntica nem saudável como discípulo de Jesus!

Não por acaso, a primeira atividade pública, a primeira manifestação de Jesus, descrita pelo primeiro Evangelho a ser escrito, aquele de Marcos, foi libertar as pessoas da doutrina defeituosa e imperfeita dos escribas, que eram tidos como “infalíveis” pela população judaica. Doutrina essa que mais afastava as pessoas de Deus, mediante a deturpação de sua imagem perante elas, do que as aproximava do mesmo! 

Cuidado! Há muitos líderes religiosos que desejam inculcar nas pessoas a imagem de um Deus opressor, controlador e punidor, pois é isso que tais lideranças são em suas vidas pessoais: opressoras, controladoras, vingativas e interesseiras! Afinal, como já nos recordou Jesus: “A boca fala do que o coração está cheio!” (Mt 12,34). O Deus ensinado e vivido por Jesus é amigo, pai, mãe, ternura, misericórdia infinita, perdão constante, puro e desinteressado amor! 

Como, muito bem, nos descreve José Antonio Pagola, biblista espanhol:

«Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. Suas parábolas atraem para o amor de Deus, não para a submissão cega à Lei. Sua presença faz crescer a liberdade, não as servidões; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura porque nos ensina a viver somente da bondade, do perdão e do amor, que não exclui ninguém. Cura porque nos liberta do poder das coisas, do autoengano e da egolatria”.

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Senhor Jesus, reconheço-te como o Salvador da minha existência e o único Mestre de Sabedoria que tem palavras de vida eterna. Quando as forças do mal quiserem repreender a minha fé, ordene novamente, com o poder da tua Palavra, que se calem e haja calma em meu coração. Fortaleça minha fé para que eu possa contar sempre contigo, porque tu não me deixas nas mãos do Maligno, mas vieste justamente para me libertar e me mostrar como o amor de teu Pai nunca nos identifica com nossos pecados, erros e problemas. Por isso, te agradeço e te bendigo, enquanto invoco a tua ajuda para que possa valorizar cada dia mais tudo o que fazes por mim e alegrar-me com a novidade do teu Evangelho. Amém.»

(Fonte: GOBBIN, Marino, O.Carm. Orazione finale. In: CILIA, Anthony, O.Carm. [a cura di]. Lectio divina sui vangeli festivi per l’anno liturgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 348)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – 4ª Domenica del Tempo Ordinario – Anno B – 31 gennaio 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 17/01/2023).

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