Brasil, país cristão? (2ª Parte)
Pe. Prof. Dr. Telmo José Amaral de
Figueiredo
Comissão Bíblica – Diocese de Jales (SP)
Porém, há uma outra característica fundamental do cristianismo, herdada do judaísmo, é preciso frisar, que é muito negligenciada e esquecida pelos que se dizem cristãos. Refiro-me ao fato de o cristianismo ser uma RELIGIÃO ÉTICA. O que isso significa? Para o cristianismo a forma como os seres humanos se relacionam e organizam a sua sociedade é constitutivo de seu ser cristão! Dizendo de modo mais claro: primeiramente, cremos em um Deus único e pai de todos, indistintamente; em segundo lugar, dessa fé nasce a exigência de vivermos uma fraternidade à luz do amor ao próximo, pois todos somos irmãos e irmãs uns dos outros; em terceiro, nossa pátria não é um determinado país ou nação, mas pertencemos a uma pátria celestial (transcendental); finalmente, somos seres em contínua renovação e conversão, jamais prontos e acabados, disso decorre a exigência da missão: aquilo que experimentamos e vivenciamos em Cristo devemos compartilhar com as demais pessoas.
O nosso Deus não é um ser distante, completamente alheio e alienado da vida humana, dos dramas e penúrias humanos: «Eu vi a humilhação de meu povo no Egito e ouvi seu clamor por causa da dureza dos feitores. Sim, eu conheço seu sofrimento. Desci para livrá-lo da mão dos egípcios e fazê-lo sair dessa terra» (Ex 3,7-8a). Jesus, na sinagoga de Nazaré, assume para si essa mesma preocupação, citando o profeta Isaías (61,1-2): «“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres: enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos, a visão; para pôr em liberdade os oprimidos e proclamar um ano do agrado do Senhor”... Então começou a dizer-lhes: “Hoje cumpriu-se esta palavra da Escritura que acabais de ouvir”» (Lc 4,18-21). Portanto, aquilo que acontece aos seres humanos interessa diretamente a Deus!
Por isso, o que se faz ao ser humano pobre, indefeso, marginalizado, abandonado se faz diretamente a Deus! Isso mesmo: «Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor, e Ele o recompensará pelo que fez» (Pr 19,17). Mais ainda: «No próprio dia lhe pagarás. O sol não se ponha sobre seu salário, pois ele é pobre e o salário sustenta sua vida. Do contrário, clamará ao Senhor contra ti, e tu ficarás culpado» (Dt 24,15). No Novo Testamento, encontramos algo semelhante: «Olhai: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, e que vós deixastes de pagar, está gritando; o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso» (Tg 5,4). O texto bíblico mais explícito e eloquente a respeito da identificação de Deus com os pobres e mais fracos da sociedade encontramos em Mateus 25,41-43, cujo rei da parábola representa o próprio Deus: «Depois, o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos; pois eu estava com fome, e não me destes de comer; com sede, e não me destes de beber; eu era forasteiro, e não me recebestes em casa; nu, e não me vestistes; doente e na prisão, e não me visitastes”».
Concluindo, o que mais agrada e satisfaz Deus não são nossas celebrações, não são os nossos sacrifícios, não são os nossos louvores, enfim, não é aquilo que fazemos dentro de nossas igrejas, mas o tipo de vida que vivenciamos fora delas: «Pois é amor que eu desejo e não sacrifício ritual, conhecimento de Deus mais que holocaustos» (Os 6,6). Nessa mesma linha, encontramos: «Ele te deu a conhecer, ó homem, o que é bom e o que o Senhor procura de ti: simplesmente praticar o direito, amar a bondade e caminhar humildemente com o teu Deus» (Mq 6,8). E Jesus, dirigindo-se aos líderes religiosos de seu tempo, ordena-lhes algo semelhante: «Ide, pois, aprender o que significa: “Misericórdia eu quero, não sacrifícios”. Com efeito, não vim chamar justos, mas pecadores» (Mt 9,13).
Diante de tudo isso que foi exposto acima, é de se perguntar: o Brasil, ─ país com cerca de 77% da população constituída de católicos e evangélicos, todos se dizendo crentes em Jesus Cristo e respeitadores de seu Evangelho ─, pode se considerar, de verdade, um país cristão? Será que as igrejas cristãs do Brasil não estão precisando, urgentemente, crer e viver, de fato, o que Jesus pregou e praticou enquanto esteve conosco, em nossa terra? Cada um faça o seu próprio e sincero exame de consciência!
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