2º Domingo da Quaresma – Ano B – Homilia

 Evangelho: Marcos 9,2-10 

Frei Alberto Maggi

Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas) 

A morte não nos destrói

O evangelista Marcos, nas tentações de Jesus no deserto, não pretendeu apresentar um período da vida do Senhor, mas mostrar que toda a existência de Jesus foi no deserto, tentado por satanás. E no decorrer do evangelho, o evangelista mostrou quem é esse satanás. Quando Jesus anuncia pela primeira vez aos seus discípulos que não vai a Jerusalém para conquistar o poder, mas para ser morto pelo poder, surge uma reação violenta e temerária, aquela de um dos discípulos, Simão, a quem Jesus deu um apelido negativo, que indica a sua teimosia, Pedro, duro como pedra, agarra-o e Jesus dirige-se a este discípulo com palavras terríveis chamando-o de “satanás” (cf. Mc 8,33). Ele não o afasta, mas diz: “Volte e fique atrás de mim, Satanás”. Assim é Simão, apelidado de Pedro pela sua teimosia, a teimosia que depois levará à traição de Jesus. É ele que Jesus e o evangelista identificam como o satanás tentador. 

Marcos 9,2a: «Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte...»

Mas não é à toa que se chama Pedro, por isso ainda continua a tentar Jesus e, logo após este embate entre Jesus e os seus discípulos, que não aceitam o fato de o Messias poder morrer, Jesus mostra-lhes qual é a condição do ser humano que passa pela morte. É a passagem de hoje, conhecida como episódio da transfiguração, capítulo 9 do Evangelho de Marcos. Que começa com uma indicação muito importante: “O sexto dia ou seis dias depois”. O sexto dia recorda o dia da criação do ser humano; aqui, então, o evangelista apresenta-nos o ser humano criado segundo Deus:

o ser humano que não sucumbe à morte, mas com a morte inicia uma nova existência luminosa.

Seis dias depois Jesus levou consigo” e levou consigo os três discípulos mais difíceis, aos quais deu um apelido negativo que indica o seu carácter: Simão, que se chama Pedro, o teimoso, e depois Tiago e João, a quem chamou em aramaico “boanerges” que é “os filhos do trovão”, pela sua violência, pela sua ambição, aqueles que então correrão o risco de arruinar, de dividir o grupo. 

Marcos 9,2b-3: «... sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar.»

Sobre uma alta montanha” que indica a condição divinae foi transfigurado diante deles”. Jesus mostra qual é a condição do ser humano que passa pela morte.

A morte não só não destrói o indivíduo, mas liberta todas as suas energias e fortalece-o.

Por isso o evangelista usa uma expressão que pode parecer banal, diz: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”; significa que não é com o esforço humano que esta condição é alcançada, mas através da energia divina que é comunicada ao ser humano. 

Marcos 9,4: «Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus.»

Neste momento, Elias apareceu-lhes com Moisés. O que chamamos de Antigo Testamento, no mundo judaico, foi dividido entre a LEI, a qual foi transmitida através de Moisés, e os PROFETAS. O maior dos profetas era aquele que fez cumprir a lei com violência, o profeta Elias. Observe-se que eles não conversam com os discípulos, eles conversam com Jesus. Elias e Moisés não têm mais nada a dizer aos discípulos de Jesus, a menos que sua mensagem seja filtrada através dos ensinamentos e obras de Jesus. 

Marcos 9,5-6: «Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo.»

E, aqui, novamente Simão continua sua ação como um satanás tentador. O evangelista escreve: “Tomando a palavra” e usa apenas o apelido negativo, “Pedro”, que indica o teimoso, “disse a Jesus” e o chama exatamente como Judas o chamará, “Rabbi” (mestre), uma expressão de respeito com a qual as pessoas costumavam dirigir-se aos escribas, aqueles que ensinavam a lei. “É bom a gente estar aqui”, em seguida vem a tentação:vamos fazer três tendas”. Por que três tendas? Houve e ainda há uma celebração no mundo judaico entre setembro e outubro com a qual é lembrada a grande libertação da escravidão egípcia. Para comemorar e celebrar este aniversário, as pessoas vivem em cabanas durante uma semana e a tradição diz que o novo libertador de Israel chegará na memória do antigo libertador, portanto o novo messias se manifestará na memória de Moisés.

Eis, então, a tentação de Pedro: ele quer que Jesus se manifeste assim, como? E eis o que Pedro diz: “Vamos fazer três tendas, uma para você, uma para Moisés e uma para Elias”. Quando há três personagens, onde está o mais importante? No centro. No centro para Pedro ainda não está Jesus, no centro está Moisés. É como se Pedro dissesse: “Aqui está o messias que eu quero, aquele que vive de acordo com a lei de Moisés e a aplica de acordo com o espírito violento do profeta Elias”. É a tentação de ser um messias de poder. Mas, escreve o evangelista, que ele não sabia o que estava dizendo. 

Marcos 9,7: «Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”»

E aqui está a intervenção de Deus através da nuvem, imagem divina, e a sua voz diz: “Este é meu filho, o amado”, o amado significa o herdeiro, “nele está tudo de mim”. E, então, uma ordem imperativa “Escutai-o”. Eles não precisam mais ouvir Moisés ou Elias; e seus ensinamentos devem ser filtrados e interpretados de acordo com os ensinamentos e obras de Jesus. Por isso, o convite no imperativo: “Escutai-o”. 

Marcos 9,8-10: «E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”.»

E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém.” Ainda procuram Moisés e Elias porque é a tradição que lhes dá segurança, e só encontram Jesus e se sentem perdidos. Então Jesus ordena-lhes que não falem do que viram porque experimentaram qual é a condição do homem que passa pela morte, mas ainda não sabem o que será esta morte, a infame da cruz

* Traduzido e editado do italiano por Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. 

Reflexão Pessoal

Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo 

«Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só; mas, se morre, produz muito fruto.»

(João 12,24)

A cena da transfiguração sobre o monte ocorre, logo após, a cena da profissão de fé de Pedro e o primeiro anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus (cf. Mc 8,27-33). Portanto, ela vem completar a manifestação do mistério de Cristo, o qual é constituído pela cruz e a glória da ressurreição. Para o evangelista Marcos, não há ressurreição, não há glória sem a cruz! Nos tempos de hoje, isso é fundamental! Afinal, ressurge uma tendência de se focar, apenas, no Cristo glorioso, vencedor, rei, majestoso, esquecendo-se do Cristo na cruz! Muitos cristãos atuais não querem “beber do cálice” que Jesus bebeu (cf. Mt 20,22-23; Jo 18,11). 

A ordem divina, nesta cena, para “escutar” seu Filho amado (cf. Mc 9,7b) não é casual nem um mero detalhe! De fato, o que há de mais importante para nós, cristãos, é escutar o Cristo. Isso se dá, especialmente, na leitura, meditação e oração de sua palavra, presente nos Evangelhos. O Pai se reconhece totalmente em seu Filho, Jesus! Ele é o seu herdeiro. O modo de ser de Jesus é o mesmo de seu Pai. Assim sendo, escutar Jesus é viver segundo o que o Pai deseja. 

Uma Igreja que não escuta o seu mestre, não pode ser fiel e confiável! A incompreensão que se observa nos discípulos, naquela época (cf. Mc 8,33; 9,10.32), pode ser encontrada em nós, hoje. Custamos a crer e extrair as consequências do fato de seguirmos um mestre, e crermos em um messias, um salvador, que foi esmagado e morto em uma cruz! 

Mediante Jesus, Deus nos mostra que a sua salvação chega até nós, pela doação/morte de seu próprio Filho! Aquilo que Deus não permitiu que Abraão fizesse, ou seja, sacrificar o seu próprio filho (cf. Gn 22,1-19), ele o faz agora! Com isso, Deus demonstra que o seu amor é infinito, é ilógico, é algo que escapa à nossa compreensão! 

Oração após a meditação do Santo Evangelho 

«Senhor meu Deus, escuta a minha prece, e que a tua misericórdia atenda ao meu desejo, porque não é só por mim que ele arde, mas quer ser útil também ao meu amor pelos irmãos. Tu vês o meu coração e sabes que é assim. Deixa que eu te ofereça em sacrifício o serviço do meu pensamento e da minha palavra, e concede-me aquilo que desejo oferecer-te. Sou pobre e desvalido, tu és rico para todos os que te invocam.» Amém.

(Fonte: Confissões 11,2 – Santo Agostinho)

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – 2ª Domenica di Quaresima – Anno B – 28 febbraio 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 21/02/2023).

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