6º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia
Evangelho: Marcos 1,40-45
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Deus não discrimina ninguém
O evangelista escreveu que Jesus ensina em toda a Galileia e aqui estão os ecos de seu ensinamento, a resposta à Boa Nova. E quem são? Eles são os marginalizados pela religião. São aqueles que a religião catalogou como impuros e para eles não há esperança. O único que pode salvá-los seria Deus, mas como são impuros, não podem voltar-se para Deus; portanto, eles vivem em uma situação desesperadora.
Marcos
1,40: «Naquele
tempo, um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres tens o poder
de curar-me”.»
“Um leproso chegou perto de Jesus”, isso é uma surpresa. O leproso não é considerado apenas um doente, mas um pecador punido por Deus (cf. Ex 4,6; Nm 12,10; 2Rs 5,27). A lepra era uma praga terrível para a qual não havia salvação. Ao longo da Bíblia, lemos que apenas dois leprosos foram curados. Eles devem ficar afastados, fora das cidades, não devem aproximar-se nem ser abordados e, caso avistem alguém, devem gritar: “Impuro! Impuro!” (Lv 13,45 > Lv 13). Pois bem, este leproso que ouviu o ensinamento de Jesus, entende que pode haver esperança para ele também e transgride a lei, aproximando-se de Jesus. Mas não conhece a reação de Jesus, por isso se ajoelha e não tem certeza, por isso, ele pergunta: “Se você quiser”. E, estranhamente, ele não pede para ser curado da lepra, ele pede para ser purificado. Esta expressão aparecerá três vezes para indicar que é isso que o evangelista tem no coração; isto é, este é um homem que perdeu tudo para a lepra, perdeu a família, o emprego, a dignidade, os amigos, mas também perdeu Deus, por isso pede a Jesus que restabeleça este contato com Deus, para o purificar.
Marcos
1,41: «Jesus,
cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica
curado!”»
Pois bem, Jesus deveria ficar horrorizado diante deste ser impuro e pecador, que continua transgredindo a lei e se volta para ele; deveria afastá-lo. Em vez disso, o evangelista escreve que “Jesus teve compaixão dele”, termo que indica a restauração da vida a quem não a tem. E o evangelista cria suspense, porque diz “Jesus estendeu a mão”. Esta é uma expressão técnica que Marcos retira do livro do Êxodo para indicar a ação de Moisés quando estende a mão contra seus inimigos (cf. Ex 3,20; 4,4; 14,21; 17,11.12). Então nos perguntamos: mas o que Jesus fará? Ele o punirá por infringir a lei? “O tocou”, não era necessário tocá-lo, “e disse-lhe: eu quero” e, fazendo uso do imperativo, ordena: “Sê purificado, eu quero”. A vontade de Deus, porque Jesus é Deus, é a eliminação de toda a marginalização realizada em seu nome, anulando definitivamente a categoria do puro e do impuro.
Marcos
1,42: «No
mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado.»
E aqui está a surpresa “e imediatamente a lepra desapareceu”, literalmente, “afastou-se dele”, “e ele foi purificado”. Que méritos esse leproso tinha para ser purificado? Nenhum! Em vez disso, ele continuou a infringir a lei. Então Jesus ensina que não é verdade, como ensina a religião, que você deve se purificar para se aproximar de Deus. Mas você deve aproximar-se dele, acolher o Senhor e é ele quem lhe purifica. Então essa é a grande notícia de Jesus.
Marcos
1,43-44: «Então
Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: “Não contes nada disso a
ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que
Moisés ordenou, como prova para eles!”»
Contudo, estranhamente, Jesus, agora, o adverte,
literalmente “repreendendo-o”. É estranho: se ele tivesse que
repreendê-lo, deveria ter feito isso antes, quando ele se aproximou, por que
ele está repreendendo-o agora? E o evangelista diz: “Ele o mandou logo
embora”, mas de onde Jesus o afugentou e por que ele o repreende?
Qual é a ação de Jesus? Repreende-o por acreditar em um Deus que o excluiu do
seu amor. E de onde o afasta? Ele o afasta de uma instituição religiosa
que, em vez da vontade de Deus, ensina os pensamentos dos homens que estão
longe de Deus. Então, depois de libertá-lo, ele o ajuda a se libertar de si
mesmo e diz: “Agora vá, vá até os sacerdotes, mostra-te a eles e oferece
para a tua purificação o que Moisés prescreveu”, diz “Moisés”, não
Deus! Prossegue Jesus: “como testemunho” e não é “a favor deles”, mas “contra
eles”. Aqui, o evangelista cita o livro do Deuteronômio (31,26), onde o
próprio Moisés diz: “Tomai este livro da Lei e colocai-o junto da arca da
aliança do Senhor, vosso Deus. Ali ficará como testemunho contra ti”.
Contra o que é esse testemunho? A prova é que Deus age exatamente ao contrário do que os sacerdotes ensinam e exigem, que não é verdade que haja necessidade de trazer ofertas para agradar a Deus, para ser purificado, mas é Deus quem continuamente se oferece para purificar as pessoas.
Marcos
1,45: «Ele
foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais
entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. E de toda
parte vinham procurá-lo.»
No entanto, o leproso curado não faz o que Jesus lhe
havia ordenado, ou seja, apresentar-se aos sacerdotes. Ele se distancia de
uma instituição religiosa que o havia marginalizado e “passou a pregar”
exatamente como Jesus e a “divulgar o fato”, literalmente não o
episódio: o termo é “a palavra”, ou seja, a mensagem que está
presente neste acontecimento. E qual é essa mensagem? Que Deus não
discrimina as pessoas, que para ele não existem pessoas puras ou impuras,
que não é verdade que é preciso purificar-se para acolher o Senhor, mas é
acolher o Senhor que purifica; que a aceitação de Deus não é consequência
da pureza do homem, mas é o que a precede.
Este leproso, uma vez purificado, começa a pregar, mas a consequência é que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade, mas permanecia fora. Por quê? Porque Jesus, por amor, por ter tocado nesse leproso, ele agora se torna ritualmente impuro. Para purificar o homem leproso, o homem impuro, Jesus tornou-se impuro aos olhos da religião. Mas agora está feito! E as pessoas acorrem a Jesus, compreenderam que, em Jesus, há uma nova imagem de Deus.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.»
(Clarice Lispector: 1920-1977 – escritora e jornalista
brasileira nascida na Ucrânia)
Uma ideia infantil de Deus, ainda, domina a mente de muitas pessoas nos tempos atuais! Deus é visto de dois modos muito extremos e equivocados, vejamos:
a) ou ele é o
todo-poderoso que tudo vê, tudo observa, tudo sabe, tudo retém em sua infinita
memória a ponto de poder castigar-nos, nesta vida, pelos nossos erros e
julgar-nos, após nossa morte, pelos mínimos deslizes e pecados que tenhamos
cometido.
b) Ou é um Deus que
pode, se orarmos com muito fervor, sanar todos os nossos males e dificuldades:
arrumar emprego, ajudar a ser bem sucedido em um exame ou seleção, curar
doenças, proteger-nos de perigos, encaminhar-nos para um bom matrimônio e assim
segue.
Na primeira
maneira de se conceber Deus, o erro maior é a falta de misericórdia! Uma
das características essenciais de Deus, segundo os evangelhos, é a
misericórdia, a compaixão e o perdão divinos. O Deus que Jesus veio nos dar a
conhecer pelos seus gestos, atitudes e palavras, é um Deus que não é rancoroso,
que não se vinga, que não castiga, mas quer salvar e promover a felicidade de
todos os seus filhos, sem distinção!
Na segunda maneira
de vislumbrar Deus, o maior equívoco é a falta de liberdade e autonomia do ser
humano criado por ele. Afinal, um Deus que possa, a todo e qualquer momento,
interferir na vida de seus filhos e filhas não deixa espaço para os seres
humanos serem eles mesmos e determinarem a sua própria vida. E, caso Deus
tivesse a capacidade e vontade de intervir, a todo momento, a favor dos homens,
por que, simplesmente, ele não nos criou livres de problemas e dificuldade?
Jesus, no Evangelho
de hoje, deixa claro que Deus não marginaliza, não despreza ou trata mal as
pessoas, que a religião que existia em seu nome, rejeitava e considerava impuras!
Nós, seres humanos, temos a mania de classificar as pessoas, julgá-las,
separá-las, tratá-las de modo diferenciado, mas esse não é o
proceder de Deus! Parece que algumas sérias advertências que Jesus nos
fez entraram por um ouvido e saíram pelo outro, tais como:
* “Não julgueis, e não
sereis julgados, pois com o julgamento com que julgardes, sereis julgados, e
com a medida com que medirdes, se medirá para vós” (Mt 7,1-2 // Mc 4,24-25; Lc
6,37-38).
* “[...] não
condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados” (Lc 6,37b).
* “Com efeito, se
perdoardes as faltas uns aos outros, também vos perdoará o vosso Pai que está
nos céus. Se vós, porém, não perdoardes aos outros, vosso Pai também não
perdoará as vossas faltas” (Mt 6,14-15 > Mc 11,25-26; Lc 6,37).
É evidente que, em
seu íntimo, Jesus sentia um grande respeito e tinha uma amizade comovente para
com os rejeitados pela sociedade e religião de seu tempo. Assim como ele reintegrava
os marginalizados ao convívio social, do mesmo modo, a Igreja, nos dias de
hoje, deve seguir inventando soluções contra todo e qualquer tipo de
marginalização. Afinal, o que nós somos uns dos outros senão irmãos e irmãs?
O simples fato de haver marginalizados na sociedade indica que vivemos em um mundo imperfeito, um mundo onde o Reino de Deus ainda não chegou plenamente!
«Sempre que discriminamos, devido a nossa suposta superioridade moral, a diferentes grupos humanos (vagabundos, prostitutas, toxicodependentes, psicóticos, imigrantes, homossexuais...) e os excluímos da convivência, negando-lhes o nosso acolhimento, estamos nos distanciando seriamente de Jesus» (José Antonio Pagola).
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Concede-me Senhor o dom do amor. / O
dom de amar todo o mundo, / de amar tudo em toda a terra / e, sobretudo, os homens,
nossos irmãos, / que são, por vezes, tão infelizes. / De amar também as pessoas
felizes, / que tantas vezes são pobres fantoches. / Dá-nos, Senhor, a força de
amar sobretudo os que não nos amam, / antes de tudo os que não amam ninguém, / para
os quais, quando a Hora soar, / tudo acaba para sempre. / Que a nossa vida seja
o reflexo do Teu amor! / Amar o próximo que está no cabo do mundo; / amar o
estrangeiro que está ao nosso lado; / consolar, perdoar, abençoar, estender os
braços. / Amar aqueles que se esgotam em correrias inúteis em redor de si
mesmos: / fazer brotar uma fonte no deserto do coração; / libertar os
solitários, / erguer os prostrados, / abrir com um sorriso os corações
fechados. / Amar, amar... / Então uma grande primavera transformará a terra / e
tudo em nós reflorirá.»
(Fonte:
Raoul Follereau. “O Dom de Amar”)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – 6ª Domenica del Tempo Ordinario – Anno B – 14 febbraio 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 06/02/2023).
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