5º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia
Evangelho: Marcos 1,29-39
Frei
Alberto Maggi
Padre e biblista italiano dos Servos de Maria (Servitas)
Para Jesus, o bem do ser humano está acima dos preceitos, tradições e costumes
Em Cafarnaum, na sinagoga, Jesus ensina pela primeira vez e o povo entende que a vontade de Deus não se expressa através da doutrina imposta pelos seus escribas, o magistério oficial da época, mas na ação libertadora de Jesus. É o que se comprova pelo evangelho de hoje, o primeiro capítulo de Marcos do versículo 29 ao 39. Assim que saíram da sinagoga foram para a casa de Simão e André junto com os outros dois discípulos, os primeiros chamados por Jesus, na companhia de Tiago e João. E a sogra de Simone estava de cama com febre.
Marcos
1,29-30: «Naquele
tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e
André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a
Jesus.»
Naquela
cultura, a mulher é considerada o ser humano mais afastado de Deus e, em
qualquer caso, ela é irrelevante, a mulher não conta para nada na família. No
entanto, nessa cena do Evangelho, imediatamente falam com Jesus sobre ela. Eles
compreenderam algo novo no ensinamento de Jesus, onde o bem do ser
humano é colocado em primeiro lugar, antes mesmo da observância da lei
divina. Por que isso? Porque este dia é sábado; no sábado, são proibidas 1.521
ações e entre elas também está a visita e o atendimento aos enfermos. Pois bem,
os discípulos compreenderam que o bem do ser humano é o valor mais importante e
por isso falam dela.
Jesus poderia ter dito: “Vamos esperar, vamos aguardar que o sábado passe”. Não, o bem do ser humano é mais importante que a observância da lei divina. Lembremo-nos de que o mandamento de descansar no sábado não era um mandamento entre outros, mas era o mandamento mais importante de todos porque se acreditava que o próprio Deus o guardava. A observância deste único mandamento equivalia à observância de toda a lei, a transgressão deste único mandamento equivalia à transgressão de toda a lei e por isso estava prevista a pena de morte.
Marcos
1,31: «E ele
se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre
desapareceu; e ela começou a servi-los.»
Mas no grupo de Jesus eles entenderam que há uma nova atmosfera. Então Jesus se aproxima, “ajudou-a a levantar-se” e é surpreendente o que Jesus faz: “segurou sua mão”. Por quê? Não havia necessidade, mas porque é proibido. Todas as vezes em que Jesus se encontrava em conflito entre a lei, a tradição e o bem do ser humano, ele sempre escolhia o bem do ser humano. E, aqui, o sensacional é que Jesus, tocando a mão de uma mulher impura, não recebe a impureza da mulher, mas transmite a sua força, a sua energia. De fato, “a febre a deixou e ela os servia”. Para o verbo servir, o evangelista usa o termo “diaconeo”, que também conhecemos na língua portuguesa, diácono, que é aquele que serve gratuitamente por amor. Este termo é importante porque apareceu no evangelho depois das tentações, quando os anjos, ou seja, os seres mais próximos de Deus, serviam a Jesus. Pois bem, a mulher que estava com Jesus, que era considerada o ser mais distante de Deus, o mais inútil, o mais insignificante, uma vez que acolhe a mensagem de Jesus e a comunidade cristã torna-se o ser mais próximo de Deus.
Marcos
1,32: «À
tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos
pelo demônio.»
Mas do lado de fora da casa de Simão e André, se passa o que o evangelista nos diz neste versículo 32. Por que eles esperaram? Porque eles guardaram a lei, o descanso sabático. Enquanto em casa, a necessidade, o bem da pessoa era mais importante que a observância do sábado, na cidade, o sábado era mais importante que o bem do povo. A observância da lei retardou o encontro com a vida que Jesus podia comunicar.
Marcos
1,33-39: «A
cidade inteira se reuniu em frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de
diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios
falassem, pois sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus
se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão e seus companheiros foram à
procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus
respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também
ali, pois foi para isso que eu vim”. E andava por toda a Galileia, pregando em
suas sinagogas e expulsando os demônios.»
A cidade inteira está reunida em frente à porta, Jesus cura as pessoas e a passagem do evangelho termina de forma surpreendente no final; o evangelista escreve que Jesus percorreu toda a Galileia “pregando nas sinagogas e expulsando os demônios”. O evangelista denuncia que nas sinagogas, isto é, nos locais de culto, nos locais de ensino religioso, são onde os demônios se escondem. São as pessoas submetidas a um ensinamento que diz vir de Deus quando, na verdade, não vem de Deus. Jesus denunciará esses escribas que ensinam doutrinas de homens. E as pessoas estão submetidas a esse ordenamento e é justamente na sinagoga. Desse modo, as sinagogas serão os lugares mais hostis e refratários a Jesus, onde Jesus tentará libertar as pessoas com o seu ensinamento.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Os textos bíblicos citados foram extraídos do: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
«Quem
é da luz não mostra sua religião, e sim o seu amor.»
(Papa Francisco: nascimento em 1936 – 266º Bispo de
Roma)
Se no domingo passado, Jesus tem de dominar e expulsar um “espírito impuro” no interior de uma sinagoga, hoje, o Evangelho, prosseguindo o relato daquele mesmo dia, em Cafarnaum, mostra Jesus se dirigindo a uma casa, aquela de Simão Pedro e André. Na casa o ambiente é outro, respira-se a vida concreta, cotidiana do povo, a qual é marcada por vários tipos de sofrimento. No caso, é a sogra de Pedro que encontra-se febril e necessitada de atendimento. Jesus quebra, pela segunda vez em um só dia, a lei do absoluto repouso sabático! Na sinagoga, Jesus libertou um homem da possessão de ideias absurdas e errôneas acerca de Deus e de seu Messias. Na casa de Simão Pedro e André, Jesus liberta uma mulher de uma enfermidade que lhe impedia de conviver plenamente com a sua família.
Os gestos e as
atitudes de Jesus (cf. Mc 1,31) para com a sogra de Pedro são uma lição
de “pedagogia da cura” por parte de nosso grande Mestre, confiramos:
1º) “aproximou-se”:
Jesus não tem receio de aproximar-se das pessoas sofredoras, olhar bem dentro
de seus olhos e compartilhar de sua dor. Nisso, Jesus revela a sua plena
humanidade, a qual não deixa lugar para a desumanidade, para a insensibilidade
tão comum em muitas pessoas.
2º) “segurou sua mão”:
desafia os preceitos religiosos e sociais de pureza! Jesus quer que a pessoa
sofredora sinta a sua força, a sua presença viva e comprometida.
3º) “ajudou-a a
levantar-se”: ao colocá-la de pé, Jesus lhe restitui a sua dignidade. Como
frisou frei Maggi no comentário acima: o que mais Jesus deseja é o bem da
humanidade, é a felicidade das pessoas!
E a sogra de Pedro aprendeu rapidamente a lição de Jesus: “ela começou a servi-los”. Nem bem a febre lhe tinha deixado, essa mulher já se põe ao serviço, pois isso é viver o cristianismo: servir e não ser servido! Ser cristão é viver acolhendo e cuidando uns dos outros, especialmente, dos mais fracos e necessitados.
Agora, de onde Jesus retirava tanta força, tanta energia, tanta disposição para servir aos enfermos, aos possessos, aos pobres e abatidos? O Evangelho deste domingo nos revela o seu segredo: “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto” (Mc 1,35). É preciso ficar bem claro que Jesus não era um tipo de assistente social, um curandeiro, um médico ou qualquer coisa nesse sentido! A chave da profunda sensibilidade humana de Jesus estava em sua espiritualidade. Ou seja, na profunda e frequente relação que ele tinha com a fonte de toda a humanidade: Deus, seu Pai! Sem o espírito de seu Pai, Jesus não teria sido o que foi e realizado o que fez!
«Senhor, desejo louvar-te, bendizer-te e
agradecer-te de todo o coração por esta tua Palavra, hoje escrita para mim,
pronunciada pelo Teu Amor por mim, porque Tu me amas verdadeiramente. Obrigado,
porque Tu vieste, Tu desceste, Tu entraste em minha casa e te juntaste a mim
ali mesmo onde eu estava doente, onde eu estava queimando com uma febre
inimiga; Tu chegaste onde eu estava longe e sozinho. E Tu me pegaste. Tu
agarraste minha mão e me fizeste levantar, devolvendo-me a vida plena e
verdadeira, aquela que vem de Ti, aquela que é vivida ao teu lado. É por isso
que estou feliz agora, meu Senhor. Obrigado porque superaste as minhas trevas,
venceste a noite com a tua oração poderosa, solitária e amorosa; Tu fizeste
brilhar a tua luz em mim, nos meus olhos e agora eu também vejo de novo, estou
iluminado por dentro. [...] Amém.»
(Fonte: CUCCA, Maria Anastasia, O.Carm. Orazione
finale. In: CILIA, Anthony, O.Carm. [a cura di]. Lectio divina sui vangeli
festivi per l’anno liturgico B. Leumann [TO]: Elledici, 2009, p. 358)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” – Videomelie e trascrizioni – 5ª Domenica del Tempo Ordinario – Anno B – 7 gennaio 2021 – Internet: clique aqui (Acesso em: 02/02/2023).
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