17º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho: Lucas 11,1-13
Alberto
Maggi *
Frade da Ordem dos Servos de Maria (Servitas) e renomado biblista italiano
Pai-Nosso: partilha com Deus,
partilha com os irmãos
A única
oração ensinada por Jesus, o Pai-Nosso, chegou até nós em três versões
diferentes. Isso porque os evangelistas não pretendiam transmitir as palavras
exatas de Jesus, mas seu significado profundo. Temos, portanto, uma versão do
Pai Nosso em Mateus, a versão mais longa, depois uma versão mais curta, esta de
Lucas, no capítulo 11, que comentaremos agora, e depois no primeiro catecismo
da Igreja que se chama Didaqué, uma palavra que significa “ensino/instrução”.
Mas, embora essas três versões sejam diferentes, todas elas contêm um mistério que agora tentaremos abordar.
Lucas 11,1-2:** «Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um
de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João
ensinou a seus discípulos”. Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai,
santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino.»
Então
vejamos esta oração ensinada por Jesus e constatemos a sua importância. Jesus
diz aos discípulos que lhe pedem para ensiná-los a rezar: “Quando orardes,
dizei: ‘Pai…’”. Ele não se dirige a Deus usando aquelas fórmulas
cerimoniais litúrgicas nas quais Deus foi exaltado com todos os seus nomes
(como “Altíssimo”). Não. Jesus se volta para Deus chamando-o de Pai, porque
este é o relacionamento que ele veio inaugurar com os seus seguidores: a
relação de um pai com um filho.
E
tenhamos em mente que, naquela cultura, o pai é quem transmite a vida, então
ele é a fonte da vida.
E
o primeiro pedido que se faz: “Santificado seja o teu nome”. O verbo “santificar”
tem o sentido de consagrar, separar, mas quando se dirige a Deus significa
reconhecer o que ele é.
Então
o primeiro pedido que a comunidade dos crentes dirige ao Pai é “que o teu nome
seja reconhecido”, isto é, que “as pessoas te conheçam como Pai” e, nesta
passagem do Evangelho, Jesus dirá que o Pai atende às necessidades de seus
filhos, o Pai até os precede porque o Pai se preocupa com a vida e a felicidade
de seus filhos. Então a comunidade pede que este teu nome, com o qual te
conhecemos e que estamos experimentando – Pai – seja reconhecido.
A
outra petição é: “Venha o teu reino”.
“Venha o teu reino” não tem o significado de pedir algo que não está lá e,
portanto, deve vir, o significado do verbo é “se estenda, se alargue este teu
reino”. O reino, o reino do Pai já está aí. Jesus, ao proclamar as
bem-aventuranças (cf. Lc 6,20), proclamou os pobres bem-aventurados porque
deles é o Reino de Deus.
O Reino de Deus não é o além, mas uma sociedade alternativa, onde, ao invés, de acumular para si, se compartilha generosamente com os outros, onde em lugar de mandar, se serve as pessoas. Então, por fidelidade às bem-aventuranças, a comunidade pede que esta experiência do reino seja estendida.
Lucas 11,3: «Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, ...»
E,
aqui no meio, tem um versículo difícil de traduzir, porque contém uma palavra
grega que simplesmente não existe na língua grega. Isso é o que traduzimos como
“nos dê o pão nosso de cada dia”. O evangelista escreve – tento traduzir
literalmente do texto – “o pão nosso aquele...” e depois há esta palavra
grega que não existe na língua grega: “dá-nos todos os dias”.
São
Jerônimo, o primeiro tradutor do evangelho, diante desse termo que não existe
na língua grega, fez uma escolha. No Evangelho de Mateus, ele o traduz como “supersubstantialem”
(latim, termo que só ocorre na Vulgata), que significa um pão que vai além da
substância (que sustenta). No Evangelho de Lucas, no entanto, ele traduziu como
“cotidiano”. Então a Igreja, na versão litúrgica, escolheu a versão de
Mateus, mas em vez de “supersubstantialem”, difícil de pronunciar e
entender, levava “de cada dia”.
É
uma escolha que causa tanto dano, porque com esta escolha quase parece que
devemos pedir a Deus o pão para comer, o pão que nutre os homens. Não, o pão
que nutre os homens é tarefa dos homens obtê-lo e compartilhá-lo com aqueles
que não o têm. Este é um pão especial porque é requerido de Deus.
Provavelmente
a tradução “supersubstantialem” era a correta. Quem é este pão? Este pão
é a presença de Jesus no centro da comunidade, como está no centro do Pai
Nosso, Jesus como alimento, como palavra que nutre a vida e como pão, o pão da
Eucaristia que dá força para viver esta palavra.
Portanto, não se solicita o pão. Jesus havia dito: “Não fiqueis preocupados quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir... Tudo isso, os gentios o procuram” (Mt 6,25b.32a). Se é pedido a Deus é porque é a presença do Senhor como alimento de vida.
Lucas 11,4a: «... e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também
perdoamos a todos os nossos devedores; ...»
Em seguida, a cláusula “e perdoa”, ou seja, literalmente se diz “cancela”, “a nós os nossos pecados, pois nós também perdoamos” – cancelamos – “a todo aquele que nos deve”. Deus perdoa-nos, mas o seu perdão torna-se eficaz e operativo quando se traduz em nosso perdão para os outros.
Lucas 11,4b: «... e não nos deixes cair em tentação’”.»
Então
a última das invocações, também mal traduzida, especialmente em Mateus, causou
muitos problemas o famoso “não nos induza em tentação”! Agora, a
tradução melhorou: “Não nos abandones à tentação” ou “não nos deixes
cair em tentação”, literalmente à prova.
Que prova é essa à qual a comunidade pede para não ser abandonada? É o teste em que ela falhou. Jesus, no Jardim das Oliveiras, havia pedido aos discípulos: “Orai para não entrar na prova, para não ceder à prova” [tradução do autor: Lc 22,46]. A prova foi a de Jesus que foi capturado como criminoso, que acabou assassinado como criminoso, como alguém amaldiçoado por Deus, uma provação que colocou a comunidade em crise. Então Jesus pede à comunidade, nesta oração, que peça para permanecer forte no momento da provação, no momento desta tentação.
Lucas 11,5-13: «E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for
procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque um
amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, e se o outro
responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e
eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; eu vos
declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai
levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for
necessário. Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei
e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem
bate, se abrirá. Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe,
lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se
vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai
do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”»
Então
a passagem se conclui com plena confiança no Senhor e, sobretudo, com um
aspecto muito importante: a única coisa que Jesus garante que será dada é,
normalmente, aquela que é menos pedida nas listas de oração.
De
fato, a passagem conclui dizendo: “Se vós, que sois maus”, não para
dizer que somos maus, mas para comparar a bondade do Pai com a nossa atitude
para com os outros, ele diz que somos maus, “sabeis dar coisas boas aos
vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe
pedirem!” (literalmente, “Espírito Santo” sem o artigo definido, porque ele
não dá a plenitude do Espírito Santo, mas o Espírito Santo na medida que a
pessoa é capaz de acolhê-lo).
Aqui
está a única coisa que Jesus garante que o Pai dará. Espírito Santo. Para que
serve este Espírito? O Espírito é a força do amor de Deus que serve para
realizar o plano de amor do Pai para cada um de nós.
Porque Deus não governa os homens emitindo leis que eles devem observar, mas comunicando-lhes o seu Espírito, a energia interior que os faz entender o caminho a seguir.
* Traduzido e editado do italiano por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
** Todos os textos bíblicos citados foram extraídos de: Sagrada Congregação para o Culto Divino. Trad. CNBB. Palavra do Senhor I: lecionário dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994.
Reflexão
Pessoal
Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo
“Bendito aquele que
confia no Senhor, o Senhor mesmo é sua confiança.”
(Jeremias 17,7)
A oração desempenha uma função central em nossa vida religiosa! Tanto que, podemos dizer, sem medo de errar, que a oração é uma das práticas mais características de todas as religiões! Jesus foi um homem de oração por excelência, porém, com uma novidade: ele vivenciou uma religiosidade alternativa e marginal, como bem constata o teólogo espanhol J. M. Castillo. E por que dizemos isso de Jesus? Basta mencionar que o seu lugar predileto de oração não era o Templo de Jerusalém e as sinagogas, mas os montes, os campos, fora das aldeias, curtindo um profundo e saudável silêncio.
Na oração se dá o mais específico da vivência religiosa: a experiência de nossa limitação, de nossas deficiências com todas as dores e sofrimentos que isso nos traz, bem como, às pessoas que convivem conosco! Mas, ao mesmo tempo, a oração promove a experiência do encontro, do contato direto com Deus! Afinal, não são as ideias, as doutrinas e verdades de fé que constituem o centro da religiosidade, mas as experiências concretas que ela provoca em nós!
Agora, existe uma atitude fundamental que deve acompanhar toda mulher e todo homem enquanto oram: a humildade, o sentimento de pobreza pessoal! Afinal, pedir é uma atitude típica do pobre. Se pedimos é porque nos falta, não o temos. E a Deus devemos pedir, justamente, o que mais nos falta: o desejo de vida plena, o perdão, a paz interior, a salvação. Mas, atenção, oração não é somente pedir, mas buscar com nossas próprias forças e com a força do Espírito Santo aquilo que não está ao nosso alcance. Desse modo, devemos buscar, acima de tudo, realizar neste mundo o Reino de Deus e a sua justiça! Concretamente falando, isso significa, que em nossa oração devemos pedir coragem e forças para agirmos a favor da construção de um mundo humano e justo.
Resumindo, com as palavras do biblista
espanhol J. A. Pagola:
«Para Jesus, a melhor coisa que podemos pedir e receber de Deus é seu Alento, ou seja, o seu Espírito, o seu Amor, que sustenta e salva nossas vidas.»
Oração após a meditação do Santo Evangelho
«Pai bom e santo, o teu
amor nos torna irmãos e nos conduz a reunir-nos todos na tua santa Igreja para
celebrar com a vida o mistério de comunhão. Tu nos chamas a compartilhar o
único pão vivo e eterno dado a nós do céu: ajuda-nos a saber partir no amor de
Cristo também o pão terreno, para que toda fome do corpo e do espírito seja
saciada. Amém.»
(Marianerina De Simone)
Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci”– Videomelie e trascrizioni – XVII Domenica del Tempo Ordinario – Anno C – 28 luglio 2019 – Internet: clique aqui (Acesso em: 19/07/2022).

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