Um Estado falido!
O Estado contra o cidadão
Editorial
Jornal «O Estado de S. Paulo»
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| GUILHERME DIAS SANTOS FERREIRA, 26 anos, assassinado por um policial militar |
Assassinato do marceneiro Guilherme
Ferreira escancara não só o despreparo da PM paulista, como a falência de um
modelo de segurança que adota a barbárie como padrão de atuação policial
Numa democracia liberal, como é a brasileira, presume-se que as leis e as instituições sirvam para proteger os cidadãos do arbítrio do Estado. No entanto, a julgar pelo ultrajante caso de um rapaz negro assassinado em São Paulo por um policial militar que o confundiu com um assaltante só porque a vítima corria para pegar um ônibus depois do trabalho, alguns cidadãos, a depender da cor da pele e da condição financeira, estão totalmente à mercê de um Estado que não os reconhece como titulares de direitos. Para o marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira, de 26 anos, a democracia liberal não existe.
Tudo nesse caso prova a seletividade
do aparato estatal na aplicação das leis e dos princípios constitucionais.
Primeiro, o policial militar que atirou contra Guilherme, o cabo Fabio de Almeida, que estava de folga,
aparentemente contrariou todos os manuais de conduta policial numa
sociedade que se presume civilizada. Conforme se vê nas abundantes e claras
imagens disponíveis, o agente não pretendia prender ninguém, e sim executar
aquele que julgava ter tentado roubar sua moto momentos antes. Mesmo que
tivesse sido o caso, isto é, mesmo que o marceneiro tivesse realmente tentado
roubar sua moto, o cabo da PM não poderia ter atirado num suspeito desarmado.
Num Estado em que prevalece a presunção de inocência, o braço armado desse
mesmo Estado deve prender o suspeito, e não o executar com um tiro na cabeça no
meio da rua.
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| Cabo FABIO DE ALMEIDA |
| Delegado KAUÊ DANILLO GRANATTA |
Mas a violência estatal contra o
cidadão Guilherme Ferreira não parou aí. Conduzido a uma delegacia, o cabo Fabio de Almeida contou com a gentileza do
delegado Kauê Danillo Granatta, do
Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa da Polícia Civil, que resolveu
tipificar o crime, pasme o leitor, como “homicídio culposo”, cuja pena é de
detenção de um a três anos. Por essa razão, o policial militar foi solto após
pagar fiança no valor de R$ 6,5 mil. Não se pode condenar quem veja nessa
esdrúxula tipificação – afinal, o erro sobre a pessoa não exclui o dolo – uma
manobra de acobertamento.
Um Estado em
que criminosos que vestem farda são protegidos não é um Estado nem
liberal nem democrático.
É um Estado falido, em que
prevalecem as relações pessoais e o poder do mais forte.
Embora tenha sido um caso de flagrante
abuso policial, coroado por uma inaceitável tipificação do crime, nem o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas,
nem seu secretário de Segurança Pública, Guilherme
Derrite, se pronunciaram, passados dias do acontecido – seja para
confortar a família da vítima, seja para cobrar punição exemplar, seja para
prometer alguma providência para que isso não se repita. Silêncio absoluto.
Essa talvez seja a pior forma de
violência do Estado contra seus cidadãos: tratá-los como se fossem indignos até
mesmo de algumas palavras de pesar quando morrem pelas mãos de seus agentes,
enquanto estes gozam de impunidade escandalosa. Tal comportamento
espelha uma visão absolutamente distorcida do que vem a ser segurança
pública.
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| Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo: GUILHERME DERRITE |
De uns anos para cá, aos olhos de
alguns policiais de São Paulo, se um homem negro, como era Guilherme Ferreira,
correr na rua, automaticamente passa a ser suspeito de algum crime, fazendo
letra morta do princípio constitucional da presunção de inocência. O homicídio
de mais um inocente praticado por um policial lança luz, é claro, sobre o despreparo
técnico e emocional de alguns integrantes da PM paulista, outrora conhecida
como a mais bem equipada e treinada do País. Longe de representar um lamentável
erro episódico, a morte do trabalhador é o corolário trágico de uma construção
institucional, e não só fruto do livre-arbítrio do guarda na esquina.
Se a PM de São Paulo passou a agir de
modo truculento e fatalmente inconsequente, sob o signo de um espírito de
valorização da violência e desprezo pela vida humana, é porque muitos
policiais passaram a se sentir autorizados a agir assim por seus superiores
– a começar pelo secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite.
Do irremediável sr. Derrite não
há mais o que dizer, e é incrível que ainda esteja no cargo.
Já do sr.
governador, que se apresenta como um democrata, esperava-se mais.
Fonte: Folha de S. Paulo – Notas e Informações / Opinião – Quarta-feira, 9 de julho de 2025 ─ Pág. A3 ― Internet: clique aqui (09/07/2025).



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