Isso é terrível, a que ponto chegamos!!!

Iluminismo Sombrio: o que é a ideologia autoritária que influencia a nova direita?

 Rodrigo da Silva

Jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube 

CURTIS YARVIN

Entendamos como as ideias de um obscuro programador chamado Curtis Yarvin influenciaram toda uma geração de conservadores

Você provavelmente nunca ouviu falar nesse sujeito.

Em um vídeo publicado no Programa Fronteiras, Rodrigo da Silva conta a história de Curtis Yarvin, programador de formação que começou a ganhar alguma popularidade na internet em 2007, quando lançou o blog Unqualified Reservations [= Reserva não qualificadas], sob o pseudônimo de Mencius Moldbug. 

Yarvin fundou, ao lado do britânico Nick Land, um movimento filosófico chamado Iluminismo SombrioDark Enlightenment, em inglês – do qual você provavelmente também nunca ouviu falar. Mas deveria. 

No Programa Fronteiras desta semana, Rodrigo da Silva mostra como o Iluminismo Sombrio defende que a democracia foi um erro histórico e que a sociedade deveria ser governada como uma empresa, liderada por um “CEO-monarca”, tecnocrático e imperial. Segundo ele: “Se os americanos querem mudar o seu governo, eles terão que superar a sua fobia de ditador”. 

Mas como isso é possível?


[Abaixo segue uma transcrição do vídeo que está no Programa Fronteiras:]

As ideias desse Iluminismo Sombrio influenciaram bilionários e ganharam espaço na nova direita norte-americana.

NICK LAND

Curtis Yarvin é o nome por trás do Iluminismo Sombrio. Esse programador fundou, ao lado do filósofo britânico Nick Land, essa corrente de pensamento que contradiz tudo o que o Iluminismo tradicional pregava. Enquanto o Iluminismo acreditava no progresso da humanidade por meio da ciência e da liberdade, Yarvin questiona se esses ideais realmente nos levaram a um mundo melhor ou se pelo contrário, criaram sociedades frágeis, niveladas por baixo e vulneráveis ao colapso.

Ele defende que a democracia foi um erro histórico e que deveríamos ser governados como uma empresa com um “CEO-monarca” no comando. Olha esse trecho de uma palestra dele:

«Se os americanos querem mudar o seu governo, eles terão que superar a sua fobia de ditador».

O inimigo, para Yarvin, é um sistema invisível que ele chama de “A Catedral”, uma espécie de “igreja secular” formada por três pilares:

1º) Universidades e intelectuais, que criam as ideias dominantes;

2º) a grande imprensa, que espalha essas ideias;

3º) e a classe artística, que as populariza.

Juntas, essas instituições ditam o que é aceitável e verdadeiro, abraçam dogmas morais, marginalizam os hereges e transformam jornalistas, acadêmicos e artistas em sacerdotes do mundo contemporâneo.

A solução proposta por Yarvin é derrubar a democracia, fechar universidades, abolir a grande imprensa e instalar um CEO com poder absoluto no comando dos Estados Unidos. 

Embora seja descrito como um libertário, Yarvin não faz parte da tradição do liberalismo político ou do libertarianismo de direita. Ele é um ativista de ideias abertamente autoritárias e defende que a sociedade americana precisa de uma reinicialização forçada para abraçar uma espécie de feudalismo corporativo. Segundo as suas ideias, a igualdade de direitos é uma força que corrompe e enfraquece a civilização. 

Por muito tempo, essas ideias ficaram restritas a blogs obscuros e fóruns da internet, mas tudo mudou quando bilionários do Vale do Silício [nos Estados Unidos] começaram a prestar atenção. O mais conhecido deles é Peter Thiel, cofundador do PayPal, que investiu em uma startup de Yarvin e passou a financiar espaços onde suas ideias circulam. Thiel, inclusive, já declarou que “não acredita que liberdade e democracia sejam compatíveis”. Nos últimos anos, ele doou para diferentes organizações que convidaram Curtis Yarvin para promover as suas ideias políticas. 

PETER THIEL

Os defensores do Iluminismo Sombrio gostam de dizer que mesmo sem “militantes de rua” conquistaram algo mais poderoso: “moldar o código-fonte intelectual”, que mais tarde seria adotado pela nova direita populista americana. Foi Yarvin, por exemplo, que ajudou a popularizar há quase duas décadas o termo “red pill” [= pílula vermelha] referência do filme Matrix. 

O Iluminismo Sombrio certamente não controla a direita americana, mas os seus valores aparecem de diferentes formas no grupo, desde o fascínio por líderes fortes e empresariais, até a ideia de que é preciso demitir em massa os servidores de carreira em Washington. Esse plano foi apelidado de RAGE (Retire All Government Employees = Aposentar todos os funcionários do governo). Essa influência não é só indireta. Figuras centrais do trumpismo bebem diretamente do Iluminismo Sombrio:

* Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, lia e trocava ideias com Yarvin.

* J.D. Vance, atual vice-presidente americano, é seu amigo e cita as suas ideias publicamente.

* Outros nomes como Marc Andreessen, conselheiro informal do DOGE [Department of Government Efficiency = Departamento de Eficiência Governamental, criado pela presidente Donald Trump e liderado, até pouco tempo, por Elon Musk], e

* Michael Anton e

* Andrew Kloster, ambos do governo Trump, também já se aproximaram publicamente das ideias de Yarvin. 

Yarvin está longe de ser a mente que controla o trumpismo, mas é impossível ignorar sua influência. Seus conceitos estão por toda parte no discurso da nova direita americana, mesmo que muitos nem saibam de onde vieram. E nada disso passa despercebido. 

O papel ideológico do Iluminismo Sombrio na nova direita populista foi tema de grandes reportagens nos últimos meses, publicadas por veículos de renome nos Estados Unidos e na Europa. 

E sim, a influência vem crescendo também no Brasil, mas isso é assunto para outro vídeo. 

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional / Colunas / Rodrigo da Silva – Sábado, 12 de julho de 2025 ─ última atualização às 09h44 ― Internet: clique aqui (Acesso em: 12/07/2025).

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