O desabafo de Francisco: "É uma vergonha!"
Giacomo Galeazzi
La Stampa
04-10-2013
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Caixões com mortos no naufrágio de barco com imigrantes clandestinos próximo à ilha italiana de Lampedusa |
Francisco está abalado, tem o coração cheio de dor pelo atroz naufrágio. "Vem-me a palavra vergonha: é uma vergonha!", grita no fim do discurso aos participantes do congresso pelos 50 anos da encíclica Pacem in terris. "Falando da desumana crise econômica mundial, que é um sintoma da falta de respeito pelo homem, recordo com grande dor das inúmeras vítimas de mais um trágico naufrágio ocorrido ao largo de Lampedusa".
Por isso, "rezemos a Deus por aqueles que perderam a vida: homens, mulheres, crianças, pelos familiares e por todos os refugiados". Por fim, a advertência papal às instituições: "Unamos os nossos esforços para que tais tragédias não se repitam. Somente uma decidida cooperação de todos pode ajudar a evitá-las".
Quem relançou o "J'accuse" de Bergoglio foi o arcebispo de Agrigento, Francesco Montenegro: "Chega da resignação passiva, não podemos continuar contando os mortos como se fôssemos simples testemunhas, não podemos apenas nos resignar passivamente".
Para parar o holocausto no Mediterrâneo, a Igreja pede corredores humanitários e a intervenção da União Europeia. A Conferência Episcopal Italiana, através da Fundação Migrantes, invoca uma conferência europeia: "Para não deixar uma mão livre aos traficantes de seres humanos, são necessários novos programas de acolhida e uma cooperação descentralizada".
Permanecer resignados com a repetição das mortes dos refugiados no mar é "criminoso, indigno e vergonhoso: salvem-se as vidas dos inocentes", invoca o padre jesuíta Giovanni La Manna, diretor do Centro Astalli, que Francisco visitou recentemente em Roma. "É criminosa a indiferença de quem tem responsabilidade: urgem canais humanitários seguros. Chega de mortes no mar", protesta o padre Manna.
Na "Igreja pobre para os pobres", Francisco coloca no centro do magistério a acolhida e a solidariedade em resposta à "globalização da indiferença". Diante do mais grave massacre de migrantes do pós-guerra, a galáxia católica mobiliza as suas estruturas: da Cáritas às associações de voluntariado. Mas o apelo "político" é dirigido em particular ao Parlamento pela reforma da lei Bossi-Fini.
As ACLI [Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos] se unem ao pontífice "ao pedir a intervenção da comunidade internacional para enfrentar as causas do tráfico dos seres humanos: deve-se agir tanto sobre as causas que forçam à fuga dos seus países massas de pobres, perseguidos, refugiados de guerra, quanto sobre um maior patrulhamento das costas meridionais da Europa para acabar com o tráfico de seres humanos e para evitar a repetição de tais tragédias".
Consternação, mas também raiva plena é o sentimento do padre Armando Zappolini, presidente da Coordenação Nacional das Comunidades de Acolhimento (CNCA). "Realmente não há outros modos para gerir o influxo – muito previsível – de pessoas que partem a cada ano das costas africanas para chegar ao nosso país?", lamenta. "Optou-se por defender as fronteiras e não a vida, de levantar muros em vez de enfrentar as injustiças e acolher seres humanos. Se mudarmos a abordagem, encontraremos as soluções".
Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sábado, 5 de outubro de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524401-o-desabafo-de-francisco-uma-vergonha
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