Vamos ter de esperar por racionamentos?
Washington Novaes
Jornalista
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Nordeste brasileiro: a maior seca dos últimos 50 anos |
Ainda há poucos dias (28/9) este jornal publicou em várias páginas as gravíssimas consequências das alterações no clima do planeta enumeradas no novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, da ONU) e endossadas pela quase totalidade dos cientistas. Que consequências ou desdobramentos isso está tendo em nossas políticas internas? Que urgência está sendo dada às recomendações do IPCC, embora seu secretário-geral, Rajendra Pachauri, tenha dito que o mundo está "a cinco minutos da meia-noite"?
Não que nos faltem, internamente, informações capazes de fundamentar políticas adequadas. Ainda há poucas semanas, o próprio relatório de 345 cientistas do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas - no qual o governo federal está representado - afirmou que:
- a temperatura no nosso Semiárido (que já passa pela maior seca em 50 anos) poderá aumentar de 3 a 4,5 graus Celsius até o fim do século, com de 40% a 50% menos de chuvas;
- na Amazônia poderão ser 6 graus mais;
- na Mata Atlântica do Sudeste poderá haver 30% mais de chuvas,
- no Cerrado, 40% menos.
Nessa área dos recursos hídricos, não é preciso trazer de novo os dramas do saneamento:
- com quase 90 milhões de pessoas no País sem ligação de suas casas a redes de esgotos,
- quase 15 milhões sem receber água tratada
- e com todas as nossas bacias hidrográficas, da Bahia ao Sul, em "situação crítica", segundo a Agência Nacional de Águas, por causa do despejo de esgotos sem tratamento.
A gravidade progressiva dos conflitos por água já está à vista. O volume de água necessário para produzir energia dobrará no mundo em 15 anos, segundo a Agência Internacional de Energia (O Globo, 31/3). Enquanto isso, já chegamos à perda de 50% das áreas úmidas no planeta, com o avanço da exploração agropecuária, industrial e urbana. E ainda precisaríamos aumentar o consumo de água para irrigação, de 70% do total atual para 90%, com o aumento da população. Como? No Fórum Mundial da Água, em junho, em Foz do Iguaçu, o brasileiro Benedito Braga, seu presidente, enfatizou que o Nordeste do Brasil "já precisa armazenar água". E foi ao ponto central abordado no início deste texto: "Soluções técnicas nós temos; mas a questão é política; e necessita de recursos financeiros".
Enquanto não chegamos às macropolíticas e à conjugação de projetos, vamos com ações isoladas. São Paulo lança pacote de barragens e diques urbanos, mas continuamos com centenas de milhares de pessoas morando em áreas de preservação obrigatória às margens de reservatórios para abastecimento. Enquanto se vai buscar mais água a dezenas de quilômetros de distância e a custos altíssimos, outras tantas pessoas vivem em áreas de risco, sujeitas a deslizamentos, desmoronamentos. Não se consegue evitar que dezenas de afluentes do Tietê, sepultados sob o asfalto, levem para o rio mais lixo e sedimentos; e ele tem mais de cem quilômetros de suas águas sob um mar de espuma, que o transforma no rio mais poluído do País, embora a nascente, em Salesópolis, continue a fornecer água potável (Estado, 22/9).
Aonde teremos de chegar? Todos os dias discutimos o crescimento ou recuo do produto interno bruto, o avanço ou decréscimo da dívida pública, o progresso ou retrocesso deste ou daquele setor econômico, mais ou menos empregos - mas sem discutir o que está na base física de tudo: os recursos naturais (que não são infinitos). Será preciso enfrentarmos racionamentos, penúrias? Não teremos competência para formular políticas adequadas?
Fonte: O Estado de S. Paulo - Espaço aberto - Sexta-feira, 4 de outubro de 2013 - Pg. A2 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,vamos-ter-de-esperar-por-racionamentos-,1081888,0.htm
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