Brasil, um país envenenado!
Lançado na Europa mapa do envenenamento
de alimentos por agrotóxicos no Brasil
Ivanir Ferreira
Jornal
da USP
01-07-2019
Em exposição crônica aos agrotóxicos,
brasileiro corre mais risco de
morte e desenvolvimento de doenças
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Aplicação aérea de agrotóxicos |
Um ousado trabalho de geografia
que mapeou o nível de envenenamento dos alimentos produzidos no Brasil foi
lançado em maio, em Berlim, na Alemanha, país que contraditoriamente sedia as
maiores empresas agroquímicas do mundo. Quem estava presente no lançamento do Atlas:
Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia
ficou perplexo com a informação sobre o elevado índice de resíduos agrotóxicos
permitidos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o
solo, provoca doenças e mata pessoas. A obra, que já foi publicada no Brasil, é
de autoria da geógrafa Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
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"Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia",
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O Brasil é campeão mundial no uso
de pesticidas na agricultura, alternando a posição dependendo
da ocasião apenas com os Estados Unidos. O feijão, a base da alimentação
brasileira, tem um nível permitido de resíduo de malationa
(inseticida) que é 400 vezes maior do que aquele permitido pela União Europeia;
na água potável brasileira permite-se 5 mil vezes mais resíduo de glifosato (herbicida); na soja, 200 vezes mais
resíduos de glifosato, de acordo com o estudo,
que é rico em imagens, gráficos e infográficos. “E como se não bastasse o
Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso nacional leis que
flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e
utilização de agrotóxicos”, relata Larissa.
A pesquisadora explica que o
lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto
e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do
mercado mundial de agrotóxicos.
A Monsanto, recentemente incorporada ao
grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato,
cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e
o Alzheimer. “Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem
indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes,
agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um
terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis
pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias
sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz.
Intoxicação e suicídios
Segundo a geógrafa, as perdas não
se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água. O atlas traz
informações de que, depois de extensa exposição aos agrotóxicos, ocorrem
também casos de mortes e suicídios associados ao contato ou à ingestão dessas
substâncias.
Entre 2007
e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de
intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos
Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em
primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas
Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações
registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40%
do total. Em São Paulo e Minas gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve
1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio,
cerca de 79,2%. Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada
era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo Larissa, no
Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em
2015, soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos
pesticidas comercializados no País.
[Comentário
pessoal: estes números acima
explicam o motivo dos grandes ruralistas e empresários do setor pressionarem
por liberações mais fáceis de agrotóxicos, bem como, em esconder as
consequências de seu uso às pessoas e à natureza. Sem falar, que essas grandes
empresas agropecuárias contaminam propriedades vizinhas com o veneno que
utilizam.]
O atlas Geografia do uso de
agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, em português, foi
lançado no Brasil em 2017 e traz um conjunto de mais de 150 imagens entre
mapas, gráficos e infográficos que abordam a realidade do uso de agrotóxicos no
Brasil e os impactos diretos deste uso no País. A pesquisa que deu origem à
publicação teve o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (Capes).
Em Berlim, o lançamento aconteceu
na sede do ENSSER (European Network of Scientists for Social and Environmental
Responsability), rede europeia sem fins lucrativos que reúne cientistas
ativistas responsáveis ambiental e socialmente, em Glasgow, Escócia. O suporte
financeiro para o lançamento do atlas na Europa foi da FFLCH e da Pró-Reitoria
de Pesquisa da USP.
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