Sínodo da Amazônia, fique por dentro
As 15 propostas mais audaciosas do “Instrumentum
laboris” do Sínodo da Amazônia
José Beltrán
Vida
Nueva Digital
17-06-2019
Diferente dos documentos preparatórios
para outros fóruns vaticanos, o Instrumentum laboris da Assembleia
Especial para a Região Pan-Amazônica do Sínodo dos bispos, que acontecerá de 6
a 27 de outubro, em Roma, foge de qualquer generalidade e aterrissa em medidas
concretas e diretas para que sejam debatidas pelos padres sinodais

Distribuído em três partes,
em todos os capítulos da segunda e terceira parte dos textos é destacada, de
forma pormenorizada, uma bateria de sugestões a ser adotada pela Igreja
com a finalidade de tornar realidade o convite a uma ecologia integral que acolha
“o clamor da terra e dos pobres”, conforme a encíclica Laudato Si’ do
Papa Francisco solicita.
Para
baixar, na íntegra, esse precioso Documento de Trabalho
do
Sínodo Pan-Amazônico, clique aqui
Junto à midiática proposta da ordenação
sacerdotal de anciãos com uma família estável, se somam outras iniciativas
não menos comprometedoras para a Igreja, não só internamente, como também para
uma “nova consciência ecológica” e um ativismo em matéria social, política e
econômica para “desmascarar as novas formas de colonialismo presente na
Amazônia”.
O documento sentencia que a
Igreja é chamada a “escutar o grito da Mãe Terra, agredida e gravemente ferida
pelo modelo econômico de desenvolvimento depredador e ecocida, que mata e
saqueia, destrói e despeja, expulsa e descarta, pensado e imposto de fora e a
serviço de poderosos interesses externos”.
Para isso, desafia os padres
sinodais a “assumir sem medo a implementação da opção preferencial pelos
pobres na luta dos povos indígenas, comunidades tradicionais, migrantes e
jovens, para configurar a fisionomia da Igreja amazônica”.
1.
Denunciar a violação aos direitos humanos e a destruição extrativista
Reiteradamente, o Instrumentum
laboris enumera todas as ameaças que a Amazônia padece frente à atual “degradação
neocolonialista”, que atenta tanto contra a natureza como aos que habitam
nela. Frente a isto, reivindica à Igreja um compromisso permanente em
denunciar “a violação aos direitos humanos e a destruição extrativista”,
além de promover “linhas de ação institucionais que promovam o respeito ao meio
ambiente” e programas de formação.
2.
Criar uma agenda de justiça com outros movimentos sociais
Assim, considera uma urgência assumir
a denúncia “contra modelos extrativistas” e projetos que danificam o
território, violam os direitos das comunidades “e promovem a morte”. Para
isso, faz um chamado a trabalhar em rede para “se aliar aos movimentos sociais
de base, para anunciar profeticamente uma agenda de justiça”.
3.
Exigir dos governos que protejam os povos indígenas isolados
O texto sai em defesa de todas
as comunidades nativas, mas dedica um capítulo especial àquelas que
decidiram viver à margem da sociedade. A Igreja é chamada a velar por elas,
exigindo dos governos que facilitem “os recursos necessários para a proteção
efetiva”, como a criação de um censo e de reservas naturais.
Além disso, pede à Igreja uma
pastoral específica para estes povos que incida na formação, para que
conheçam e façam reconhecer seus direitos. Assim, convoca a “rejeitar a
aliança com a cultura dominante”, para promover as culturas e os direitos
dos indígenas, dos pobres e do território.

4. Promover hábitos de
consumo Laudato Si’
O texto destaca em vários momentos
como a Igreja deve ser caracterizada na hora de promover “hábitos de
comportamento, de produção e de consumo, de reciclagem e de reutilização de
resíduos”. Neste sentido, propõe criar não apenas itinerários pastorais
sobre ecologia integral, como também o “reconhecimento formal, por parte
da Igreja particular, como ministério especial, ao agente pastoral promotor
do cuidado da Casa Comum”.
5. Criar serviços de
acolhida a migrantes indígenas
Conscientes do êxodo migratório em
todo o continente, que também atinge os povos indígenas, o Instrumentum
laboris pede uma maior coordenação para a acolhida nas Igrejas de
fronteiras, nas cidades, assim como a promoção da integração, respeitando
sua identidade cultural. Mais uma vez, insta a “pressionar, como comunidade
eclesial, os poderes públicos” para que defendam, neste caso, os direitos
dos migrantes. Nas cidades, propõe-se uma pastoral específica
para os indígenas, com novas estruturas eclesiais que favoreçam a
integração.
6. Uma
Igreja inculturada frente ao colonialismo
O texto vaticano reflete uma Igreja
que valorize e respeite as entidades culturais, o modo próprio de organização
comunitária, através de uma pastoral familiar que, a partir das coordenadas da Amoris
Laetitia, “acompanhe, integre e não exclua ninguém”, onde a família
seja “sujeito e protagonista”.
Desta maneira, se promove uma Igreja
inculturada e mais participativa, de tal maneira que se supere “qualquer
clericalismo para viver a fraternidade e o serviço como valores evangélicos que
animam a relação entre a autoridade e os membros da comunidade”. “Dado que ainda
persiste uma mentalidade colonial e patriarcal, é necessário aprofundar um
processo de conversão e reconciliação”, destaca.
7.
Reconhecer a espiritualidade indígena como fonte de riqueza cristã
Valoriza “a espiritualidade
indígena como fonte de riqueza para a experiência cristã” para, a partir daí, reivindicar
uma catequese que considera a linguagem e
sentido das narrativas das culturas locais em sintonia com as narrativas
bíblicas, uma pregação homilética vinculada com a sua realidade.
8.
Celebrações litúrgicas com danças indígenas e tradução da Bíblia
Nesta linha, sugere-se que as
celebrações litúrgicas acolham “a própria música e dança, em línguas e com
vestimentas autóctones, em comunhão com a natureza e com a comunidade”.
Além disso, “pede-se para superar a rigidez de uma disciplina que exclui e
distancia, por uma sensibilidade pastoral que acompanha e integra”. Por
isso, reivindica-se às Conferências Episcopais que adaptem o ritual eucarístico
às culturas, assim como a tradução da Bíblia às línguas originais da
Amazônia.
9.
Ordenação sacerdotal de anciãos com uma família estável
O Instrumentum laboris
sugere que estudem “a possibilidade da ordenação sacerdotal para pessoas
anciãs, preferencialmente indígenas, respeitadas e acolhidas por sua
comunidade, ainda que já tenham uma família constituída e estável”. A
proposta se une a uma maior responsabilidade e formação dos leigos como
dinamizadores da comunidade.
10. O
diaconato feminino nascerá na América?
Justamente após levar em conta a
ordenação dos viri probati [1],
o documento também abre a possibilidade de se “identificar o tipo de
ministério que possa ser conferido à mulher, levando em conta o papel
central que hoje desempenha na Igreja pan-amazônica”. A Igreja entoa um “mea
culpa”, na medida em que, “no campo eclesial, a presença feminina nas
comunidades nem sempre é valorizada”.
11. Por
um organismo e uma “luta” para tornar o Sínodo realidade
Embora já existam organismos
efetivos como a REPAM, o documento sinodal estabelece “considerar a
necessidade de uma estrutura episcopal amazônica que concretize a aplicação do
Sínodo”. Sendo assim, também pede a criação de “um fundo econômico de
apoio à evangelização, promoção humana e ecologia integral”.
12.
Criação de meios de comunicação católicos indígenas
O Instrumentum laboris
deseja que a Igreja seja alto-falante dos direitos e da cultura indígena, por
meio da criação de novos meios de comunicação, como emissoras radiofônicas e
televisivas, o aumento da presença na internet e outros meios de
comunicação de massa.
13.
Formação e protocolo para evitar cair na corrupção
O Instrumentum laboris reúne
as dificuldades econômicas das Igrejas da Amazônia, advertindo que se “deve
prestar uma especial atenção à procedência das doações”, bem como ao
objeto de seus investimentos. Por isso, reivindica às Conferências
Episcopais formação e assessoramento para evitar “uma corrupção
generalizada”, especialmente frente ao narcotráfico.
O documento é especialmente incisivo
ao reivindicar “uma cultura da honestidade”, a formação de leigos para a
liderança econômica e política, assim como acompanhar, lado a lado, os povos
para evitar que sejam enganados. Nesta linha, também convida a Igreja a
buscar aliados “para exigir que as empresas assumam responsabilidades sobre os
impactos socioambientais de suas ações”.
14.
Seminaristas integrados às comunidades
O documento reivindica a reformulação
das “estruturas dos seminários para favorecer a integração dos candidatos ao
sacerdócio nas comunidades”, bem como planos de formação que respondam “a
uma cultura filosófica-teológica adaptada às culturas amazônicas”.
15. A necessidade de uma
teologia indígena pan-amazônica
O Instrumentum laboris pede
o aprofundamento em uma teologia indígena pan-amazônica. “Pede-se, por
exemplo, levar em conta os mitos, tradições, símbolos, saberes, ritos e
celebrações originários, que incluem as dimensões transcendentes, comunitárias
e ecológicas”, aponta o documento.
Traduzido do espanhol pelo Cepat.
NOTA:
[1] - Viri
probati (tradução: homens provados) é uma expressão, da Primeira
epístola de Clemente (44) e retomada pelo Concílio Vaticano II (Lumen Gentium,
nº 20), com a qual a lei canônica da Igreja Católica se refere aos homens
casados, de vida cristã madura e contrastada, à qual, de maneira
extraordinária, se admite a ordenação sacerdotal.
Comentários
Postar um comentário